Berço de histórias, tradições e pioneirismos, a Associação Atlética Ponte Preta completou nesta segunda-feira (11) 125 anos de fundação. Apesar do momento turbulento — com dificuldades financeiras e mudanças no elenco e na comissão técnica —, a data é marcada pelo lançamento, na última quinta-feira (7), de um uniforme especial que homenageia um capítulo emblemático da história alvinegra: o “Célebre Time das Gravatas” de 1912.
O novo manto resgata elementos dos primeiros uniformes da equipe, que, naquele ano, incluíam camisas pretas completadas por gravatas — retiradas instantes antes do apito inicial.
O design atual substitui a tradicional faixa diagonal preta por uma “gravata” central, conectando presente e passado e reverenciando figuras fundamentais daquele período, como Zico Vieira, Alberto Aranha, Dante Pera e outros nomes que ajudaram a construir a história da Macaca.
Ao longo de sua trajetória, a Ponte se notabilizou não apenas pelos resultados em campo, mas também por romper barreiras sociais, se consolidar como referência de inclusão no futebol brasileiro e alcançar feitos inéditos para clubes do interior. Este legado de pioneirismo, que vai da fundação ao cenário internacional, é revisitado nesta data especial.

Pioneirismo e identidade
O primeiro marco de pioneirismo da Ponte Preta está na sua criação. Fundada em 11 de agosto de 1900, é reconhecida como o segundo clube de futebol mais antigo em atividade no Brasil — atrás apenas do Sport Club Rio Grande, criado apenas 23 dias antes, mas que interrompeu suas atividades em três ocasiões (1972, 1974 e 1976). A Macaca, por sua vez, jamais paralisou sua trajetória.
No estado de São Paulo e no interior paulista, o título de clube mais antigo em atividade é incontestável. Depois dela, a linha histórica inclui a Associação Atlética Internacional de Bebedouro (1906), o Clube Atlético Pirassununguense (1907) e o Rio Claro Futebol Clube (1909), todos integrantes de um seleto grupo que mantém mais de um século de tradição no futebol paulista.
Entre as páginas mais simbólicas dessa história está o “Célebre Time das Gravatas” — homenageado na nova camisa —, campeão da Liga Operária de Foot-Ball Campineira em 1912. Além de marcar um período vitorioso, aquela equipe se destacou por incluir jogadores negros em uma época em que o futebol brasileiro era restrito à elite branca. Na foto histórica estão Amparense, Moraes e Benedito Aranha — este último já atuava na diretoria desde 1908 — ao lado de outros nomes que ajudaram a consolidar o clube.

Aquele ano também registrou os primeiros dérbis com resultados documentados. A Ponte venceu o Guarani por 2 a 1 no Hipódromo Campineiro, em 19 de maio, e por 1 a 0 no antigo Campo do London, em 11 de agosto — coincidência com a data de aniversário do clube. O primeiro clássico, em março, foi um amistoso com placar controverso: bugrinos afirmam que terminou em 1 a 1, enquanto os pontepretanos garantem vitória por 1 a 0.
Primeira democracia racial do futebol
O pioneirismo, porém, vai além das vitórias. Desde a fundação, a Ponte abriu espaço para atletas negros, como Miguel do Carmo, um dos fundadores da Macaca, apontado como o primeiro jogador negro da história do futebol brasileiro. Para Marcelo Carvalho, diretor executivo do Observatório da Discriminação Racial no Futebol, o papel da Macaca nesse processo é fundamental.
“No início do século, todos os grandes clubes tinham restrições a jogadores negros. A Ponte é reconhecida como um dos primeiros clubes do Brasil a ter um jogador negro no plantel, o Migué (Miguel do Carmo). Isso foi fundamental para a construção do futebol brasileiro”, afirmou.
Marcelo explica que a presença de atletas negros ajudou a transformar o futebol de um esporte elitista e racista em uma paixão popular. “Lá atrás, cada clube que rompeu essa barreira contribuiu para que o Brasil fosse o país que é hoje no futebol.”

Formada em um contexto popular e operário, a postura inclusiva da Ponte também redefiniu sua identidade. Rivais passaram a chamar o time e seus torcedores de “macacos” de forma pejorativa, mas a torcida adotou o apelido, transformando-o em símbolo de orgulho e resistência.
A importância desse legado é reconhecida até hoje. “Não é um clube que apenas olha para o passado e diz que está isento por ter tido um jogador negro. Há muito tempo a Ponte trabalha ativamente pelo antirracismo, e isso precisa ser reconhecido”, afirma Marcelo.
Pioneirismo em competições
Dentro de campo, a Ponte também foi precursora. Em 1970, tornou-se o primeiro time do interior paulista a disputar o Campeonato Brasileiro — então chamado Torneio Roberto Gomes Pedrosa.
Décadas depois, em 2013, fez história ao se tornar o primeiro clube do interior de São Paulo a disputar a final de um torneio oficial da Conmebol: a Copa Sul-Americana. Na campanha, eliminou equipes como Vélez Sarsfield e São Paulo antes de enfrentar o argentino Lanús, ficando com o vice-campeonato. Desde então, o feito só foi repetido pelo Red Bull Bragantino, finalista em 2021 contra o Athletico-PR.
Uniformes que contam histórias
Os uniformes da Ponte se tornaram, ao longo dos anos, uma das principais maneiras que o clube encontrou de homenagear suas histórias e tradições. Originalmente preto, passou a adotar o branco com faixa diagonal preta no uniforme principal, enquanto o segundo tem as cores invertidas: preto com faixa branca. Ao longo dos anos, a Ponte ousou em modelos listrados, azuis, amarelos, pretos com detalhes dourados e até sem a tradicional faixa.

Nos últimos anos, a Ponte Preta tem mantido a tradição de lançar uniformes especiais em celebração aos seus aniversários.
Entre os mais recentes, destaque para a camisa de 2020, releitura de um modelo usado em 1996, criada por um torcedor e escolhida em votação popular para marcar os 120 anos; a de 2021, que trouxe a letra do hino formando a faixa; e a de 2024, listrada em branco e preto, inspirada no uniforme de 1969 — ano do retorno à elite estadual.
Outra peça simbólica foi lançada em 20 de novembro do ano passado, no Dia da Consciência Negra: predominantemente preta, com detalhes brancos nas laterais e mangas, e um gorila estampado, em referência a um dos mascotes do clube e à luta antirracista.
O uniforme dos 125 anos, inspirado no “Time das Gravatas”, está disponível nas versões de jogo (R$ 419,90) e torcedor (R$ 339,90), à venda na loja oficial e no aplicativo Ponte ID.







