O sonho de ingressar em uma das mais renomadas universidades do país tornou-se realidade para Anna Clara Souza, Flávia Farias e Estela Souza, alunas de canto coral, violoncelo e violão, respectivamente, do Instituto Anelo, de Campinas. A notícia gerou grande entusiasmo em toda a comunidade do Anelo e reforçou a importância do propósito da instituição na periferia: o de promover a cidadania por meio da cultura e educação.
“Ainda não caiu a ficha de que passei. Eu me senti insegura no meio do processo, mas eu recebi muito apoio de todos e isso me fortaleceu e estou muito contente. É uma coisa que eu realmente queria”, comentou Flávia Farias.
Estela, que também foi aprovada em Licenciatura em Música na USP (Universidade Estadual de São Paulo), no campus de Ribeirão Preto, destacou que a conquista da vaga é mais do que um ganho individual, mas coletivo. “Como uma jovem de periferia, passar na universidade é como se eu tivesse assumindo um lugar que também é meu por direito e eu sei que isso inspira muitas pessoas, muitos alunos de escola pública e de periferia”.
Anna Clara, aluna do Anelo desde 2019, lembrou o sonho de criança de viver da música e o ambiente propício que encontrou no Anelo para realizar o sonho.
“Eu desejei muito isto e entendo que é uma conquista de muitas pessoas. A gente carrega o Anelo com a gente. Aproximadamente 20% do curso de Licenciatura de Música em 2025 serão de alunas do Anelo e isto é muito representativo”, comentou.
A aprovação das alunas reforça a importância de iniciativas como a do Anelo, que oferecem oportunidades de aprendizado e desenvolvimento pessoal para pessoas de comunidades periféricas, promovendo o aumento de repertório cultural e prática de cidadania.
Para o fundador do Anelo, Luccas Soares, as aprovações tornam-se mais extraordinárias, pois inauguram um ano muito especial.
“O Anelo está completando 25 anos e não poderia ter um presente mais especial, do que a aprovação destas três meninas, que vão cursar licenciatura e se tornar educadoras. Elas já se tornaram referência para outras meninas e meninos aqui da comunidade. Além delas, eu parabenizo a família, os pais, os professores, os incentivadores, porque nada é mais importante do que a Educação, nós nos sentimos parte desta conquista de uma forma muito especial”, comemora Soares.
Luccas rememora ainda o trajeto da instituição, ao longo de 25 anos, e comemora os frutos que a jornada tem gerado na comunidade.
“O Anelo acredita na Educação, muitos músicos daqui tornaram-se profissionais, mas não tiveram a oportunidade de estudar em uma escola tão renomada quanto a Unicamp. Esta oportunidade de formação em uma universidade pública e gratuita é um ganho para todos. Estas três aprovações nos reforçam a ideia de representatividade e coletividade, que são pilares do nosso trabalho”, reflete.

A jornada
Anna Clara, 17 anos, Estela Souza, 18 anos e Flávia Farias, 18 anos, trilharam juntas a jornada do vestibular e puderam contar umas com as outras no momento de preparação para a prova de habilidades específicas, realizada de forma remota em dezembro de 2024.
“A gente se ajudou muito para nos prepararmos para os vídeos da prova de habilidades específicas, e contamos muito também com a ajuda, técnica e emocional, dos professores do Anelo, como o professor Leo (Pelegrin) e a professora Paula (Lins)” apontou Estela.
O vestibular foi um pouco difícil, eu me senti um pouco sozinha, mas até neste sentido o Anelo me ajudou muito. Se não fosse pelos professores do Anelo, acho que teria sido bem mais complicado”, aponta Flávia Farias.
“Eu olhava a universidade e pensava que não era possível, pois ouvia na escola em que eu estudava, que a universidade não era ‘para o meu bico’, que eu não tinha a base para conseguir passar por este processo, mas aqui no Anelo eu encontrei acolhimento e apoio. Quando eu começo a ficar assustada de estar na universidade, eu penso que a Flávia e a Estela, que como eu são alunas de periferia e da escola pública, também vão estar lá comigo, estudando na mesma turma e eu fico muito feliz”, finaliza Anna.
Inspiração
A escolha pela licenciatura não foi aleatória. A inspiração veio das salas de aula e o resultado encheu de orgulho o corpo docente da entidade.
“O Anelo me deu uma oportunidade de estudar música com um professor e isto foi muito bom e isso me influenciou muito em optar pela música e pela licenciatura”, destacou Flávia.
Pedro Franco, professor de violoncelo comemorou as aprovações das alunas e entende que a experiência, além de ter inspirado as alunas, também inspira os professores. “É uma grande alegria ver as alunas entrando na Unicamp e como ex-aluno da Unicamp eu tenho uma grande satisfação, isto me faz recordar de quando eu entrei na faculdade e entendo como um momento transformador na vida delas”, apontou.
A regente dos Coros do Anelo, Júlia Toledo, destacou o empenho das alunas e o compromisso com o estudo, e apontou que a aprovação, mesmo individual, tem um caráter social.
“Penso que estas alunas ocupando a universidade pública, faz com que faça mais sentido ainda o ensino público, e de trabalhar nas escolas públicas com os alunos a opção e a possibilidade de conhecer mais sobre a universidade, para que o aluno da periferia se veja neste lugar, que é a universidade pública, ocupe este lugar e ganhe o mundo”, finaliza Júlia.







