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Home Colunistas

As lições de Porto Alegre para o mundo – por José Pedro Martins

José Pedro Martins Por José Pedro Martins
15 de maio de 2024
em Colunistas
Tempo de leitura: 4 mins
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Mais de 80 mil pessoas estão desabrigadas no Rio Grande do Sul

Enchentes no Rio Grande do Sul . Foto: Lauro Alves/Secom

Foi em 2005. Porto Alegre, naquela época, era um símbolo da luta da cidadania global por “um outro mundo possível”. Desde 2001, a capital gaúcha sediava edições anuais do Fórum Social Mundial, um gigantesco festival de esperança e motivação. No início do novo milênio, movimentos sociais de todos os pontos do planeta se reunindo e discutindo passado, presente e futuro, em um contexto de globalização acelerada.

Depois o FSM também foi realizado em outros países, até a última edição, de 2018, em Salvador, Bahia. Depois veio a pandemia, impactando na organização do evento, que também sofreu a repercussão de outros fatores que têm atingido em cheio os paradigmas estabelecidos de mobilização da sociedade civil planetária.

Participei da edição de 2005, a convite de Sergio Dialetachi, então membro da coordenação da Greenpeace Brasil, para lançar o meu livro “PCNs: A rota nuclear brasileira”. Era uma atualização do livro anterior, “PCNs: Novo perigo nuclear”, de 1992, resultante, por sua vez, da série de reportagens que escrevi para o “Correio Popular”, sobre os acordos secretos visando a possibilidade de construção de Pequenas Centrais Nucleares em vários pontos do território brasileiro, inclusive na região de Campinas. As reportagens levaram à interrupção de alguns acordos até então secretos, como da Unicamp com a CESP, a Companhia Energética de São Paulo.

Foi possível então sentir, nos diversos espaços onde o Fórum se realizava, em locais com nomes estimulantes como o anfiteatro Pôr-do-Sol, a atmosfera de generosidade daquelas pessoas vindas de todos os pontos do planeta. Representantes de grupos indígenas, mulheres, quilombolas, ativistas pelos direitos humanos em geral, de todos os pontos do planeta.

Também tive a oportunidade de participar, no mesmo evento, do lançamento mundial da campanha “Make Poverty History”, uma iniciativa de organizações humanitárias europeias, inspirada nos Objetivos do Milênio, que ganhou apoio global e levou várias reivindicações à 31ª cúpula do G8, que se reuniu em Gleneagles, na Escócia. Em razão da pressão da cidadania planetária, os líderes dos países mais ricos fizeram oito promessas, como o aumento da cooperação internacional, a redução da dívida dos países mais pobres, a ampliação do tratamento e combate ao HIV-AIDS nestes países, a diminuição drástica dos casos de malárias e erradicação da poliomielite.

Pois apenas uma pressão permanente e crescente da cidadania mundial é o que poderá livrar o planeta do caos que se avizinha, com situações que tendem a se repetir como o que ocorre agora em Porto Alegre e todo o Rio Grande do Sul.

Somente a mobilização e cobrança constantes sobre governos e corporações serão determinantes para a redução dos gases de efeito-estufa que estão alimentando o aquecimento global e, consequentemente, as mudanças climáticas responsáveis por enchentes como as que ocorrem em território gaúcho ou, por outro lado, secas extremas em outros locais do mundo.

Sim, a solidariedade aos gaúchos tem sido comovente. Nunca houve uma mobilização nacional como a atual. Entretanto, as condições estruturais para novas tragédias de ordem climática continuarão, colocando em risco qualquer lugar da Terra, morada comum de todos.

Os eventos climáticos extremos vieram para ficar, contra a vontade de negacionistas e interesses econômicos e políticos poderosos. (Aliás, que tristeza as fake news explorando a tragédia. Mas esse é tema para outro artigo.)

No caso do Brasil, com certeza essa situação no Rio Grande do Sul tem o potencial de mudanças drásticas de rumos. Não será possível mais evitar, no cenário brasileiro, a agenda socioambiental ligada às mudanças climáticas. Contudo, somente com o incisivo poder de pressão da cidadania planetária é que de fato essas mudanças acontecerão, aqui ou em qualquer outro país.

Uma pressão que leve a uma transição energética mais rápida e robusta, por exemplo. Porque, de fato, os mega-interesses continuam fortes. Em 2023, ano mais quente da história até hoje, por exemplo, os 60 maiores bancos continuaram financiando pesado os combustíveis fósseis, os mesmos responsáveis pelo caos climático em curso. Foram US$ 705 bilhões investidos em carvão, gás natural e petróleo no ano passado por essas instituições financeiras, como já destacado neste espaço.

Como superar esses interesses se não for pela cidadania planetária unida e atuante? É o que o Fórum Social Mundial evocava. Que a mensagem de Porto Alegre do início do século 21 seja lembrada com força, nesse momento em que a capital dos gaúchos e todo o Rio Grande do Sul avisam que as mudanças climáticas chegaram para valer, com todo o seu potencial de gerar dor, tristeza e destruição.

Quanto à energia nuclear, continuo acreditando que ela não é o caminho para o futuro. Infelizmente, ela tem sido colocada no cardápio como uma das rotas para a transição energética. Agora, as Pequenas Centrais Nucleares são chamadas de Pequenos Reatores Modulares (SMRs, na sigla inglês), uma área de negócios que tem atraído investidores poderosos como o próprio Bill Gates.

O Brasil tem, pelo contrário, a oportunidade histórica de liderar uma transição energética rumo a fontes de fato limpas, mais baratas e muito mais seguras que a matriz dos fósseis ou a energia nuclear. O potencial de geração de energia por biocombustíveis, fontes hídricas (que já somam grande parte da matriz nacional), energia eólica e solar é incomensurável no território brasileiro.

De novo, que a lição de Porto Alegre seja aprendida. Que no planejamento do curto, médio e longo prazos, para que o país evite novas situações como as atuais no Sul, sejam incorporadas com maior relevância as fontes renováveis de fato.

Claro, ao lado de outras ações fundamentais, como o fim do desmatamento em qualquer bioma, o plantio em massa de árvores, o planejamento urbano pensando-se nas pessoas e não nos lucros imobiliários, entre outras medidas essenciais a partir de já.

 

José Pedro Martins é jornalista, escritor e consultor de comunicação. Com premiações nacionais e internacionais, é um dos profissionais especializados em meio ambiente mais prestigiados do País. E-mail: josepmartins21@gmail.com

 

 

 

Tags: efeito estufaESGgestãoHora CampinasHora Sustentabilidadejosé pedro martinsmeio ambienteplanetarecursos naturaissustentabilidade
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José Pedro Martins

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