Nestes tempos difíceis pelos quais estamos passando, é fundamental lembramos com enorme tristeza, mas com grande esperança de que nunca mais ocorra, os 80 anos da libertação dos prisioneiros do nazismo na segunda guerra mundial. Este dia 27 de janeiro de 2025, marca o 80º aniversário da libertação do campo de concentração e extermínio de Auschwitz-Birkenau. Neste dia em 1945, as forças soviéticas libertaram o campo, revelando a escala completa dos horrores do Holocausto.
Esta data é reconhecida internacionalmente como o Dia da Memória do Holocausto, dedicado a lembrar os seis milhões de judeus e milhões de outros que foram perseguidos e assassinados pelo regime nazista. Como parte das atividades deste dia, é imperativo relembrar as atrocidades que ocorreram durante os tempos horríveis da Segunda Guerra Mundial, particularmente dentro dos campos de concentração.
Essas memórias servem como um lembrete solene da capacidade da humanidade para a crueldade e da necessidade de vigilância para garantir que tais tragédias nunca se repitam. Entre os muitos abusos, as práticas do setor de saúde em campos de concentração nazistas, como Auschwitz, destacam-se como um terrível uso indevido da medicina e da ciência.
As atividades relacionadas à saúde nesses campos estavam profundamente interligadas com a ideologia nazista de pureza racial e eugenia. Auschwitz se tornou um local de pesquisa médica desumana e antiética. Experimentos eram realizados em prisioneiros sem seu consentimento, muitas vezes resultando em dor excruciante, incapacidade permanente ou morte.

As principais áreas de foco incluíam experimentos de congelamento e hipotermia projetados para estudar os efeitos do frio extremo no corpo humano, com o suposto objetivo de ajudar soldados alemães em climas frios. Prisioneiros eram deliberadamente infectados com doenças como tifo, tuberculose e malária para testar vacinas e tratamentos.
Muitas cirurgias eram realizadas sem anestesia, incluindo amputações e remoções de órgãos, tudo em nome da experimentação. Outros experimentos visavam desenvolver métodos de esterilização de grandes populações, com mulheres judias e ciganas sendo os alvos principais.
Médicos como Josef Mengele, infamemente conhecido como o “Anjo da Morte” e que possivelmente morreu no Brasil, conduziram experimentos grotescos em prisioneiros, particularmente gêmeos e mulheres grávidas, movidos por uma obsessão perversa com estudos genéticos e a busca pela superioridade racial.
Ao chegarem a campos como Auschwitz, os médicos nazistas conduziram as chamadas “seleções” para determinar quem viveria e quem seria enviado para as câmaras de gás. Essas seleções eram baseadas na saúde percebida, idade e capacidade de trabalhar. Aqueles considerados inaptos para o trabalho — geralmente crianças, idosos e doentes — eram imediatamente condenados à morte.
Pessoas com deficiências, doenças mentais ou outras características consideradas “indesejáveis” eram sistematicamente mortas sob o pretexto de cuidados médicos.
A cumplicidade de enfermeiros e outros profissionais médicos nessas atrocidades não pode ser ignorada. Muitos auxiliaram em experimentos, esterilizações e execuções, racionalizando suas ações como obediência a ordens ou uma contribuição ao suposto “bem maior” da raça ariana.
Os prisioneiros nos campos suportavam condições de vida desumanas que agravavam os problemas de saúde. Superlotação, desnutrição e falta de saneamento levaram a surtos de doenças desenfreados. O atendimento médico era praticamente inexistente para a maioria dos prisioneiros, pois o setor de saúde era usado como arma para oprimir em vez de curar.
As práticas médicas nos campos estavam enraizadas na pseudociência, com experimentos e programas de esterilização falsamente enquadrados como avanço do conhecimento médico ou proteção da sociedade. Na realidade, eram ferramentas de genocídio e opressão.
Após a guerra, o Julgamento dos Médicos de Nuremberg (1946–1947) expôs essas atrocidades, levando à condenação de vários médicos nazistas por crimes contra a humanidade. Este julgamento também resultou na criação do Código de Nuremberg, que estabeleceu diretrizes éticas para experimentação humana e continua sendo uma pedra angular da ética médica.

O compromisso central da profissão médica com a vida está profundamente enraizado em princípios éticos que guiam a medicina há séculos. Esses princípios enfatizam a santidade da vida, o alívio do sofrimento e a promoção da saúde e do bem-estar para todos os indivíduos, independentemente de sua origem, circunstâncias ou crenças.
Os princípios centrais deste compromisso são:
- Preservação da Vida: Envolve trabalhar incansavelmente para prevenir a morte, prolongar a vida e melhorar sua qualidade por meio da aplicação dos melhores conhecimentos, habilidades e tecnologias disponíveis.
- Alívio do Sofrimento: Os médicos estão comprometidos em reduzir a dor, seja ela física, emocional ou psicológica. Isso inclui fornecer cuidados paliativos para pacientes terminais, com foco na dignidade e no conforto.
- Adesão aos Padrões Éticos: A medicina é guiada por princípios éticos, como “não causar dano” (não maleficência), agir no melhor interesse do paciente (beneficência) e respeitar a autonomia do paciente.
- Equidade e Universalidade: Os médicos são vinculados ao princípio de servir todas as pessoas igualmente, independentemente de status socioeconômico, raça, religião ou nacionalidade. Esse compromisso sustenta iniciativas como cobertura universal de saúde e esforços médicos humanitários.
- Defesa da saúde pública: além do atendimento individual, os médicos desempenham um papel fundamental no enfrentamento de problemas sistêmicos de saúde e na defesa de políticas que promovam o bem-estar social.
- Compaixão e empatia: o relacionamento médico-paciente é construído com base na confiança, na compreensão e no respeito à dignidade humana.
A profissão médica também defende os direitos humanos, opondo-se a práticas que desvalorizam a vida humana, incluindo tortura, experimentação antiética e genocídio. Qualquer profissional de saúde que não assuma esses compromissos perde o direito de praticar medicina e, em casos extremos, deve ser condenado e responsabilizado por suas ações.
A vontade da profissão médica e de outros profissionais de saúde reflete um profundo comprometimento com a salvaguarda da vida, o alívio do sofrimento e a defesa da dignidade humana. Ela incorpora um equilíbrio de compaixão, conhecimento e ética, garantindo que a medicina continue sendo uma força para o bem na sociedade.
As práticas do setor de saúde nos campos de concentração nazistas servem como um lembrete gritante dos perigos da ciência e da medicina antiéticas quando subordinadas à ideologia e despojadas de humanidade. É uma lição que nunca deve ser esquecida ou permitida que se repita.
*Prof. Carmino Antônio De Souza é professor titular da Unicamp. Foi secretário de saúde do estado de São Paulo na década de 1990 (1993-1994) e da cidade de Campinas entre 2013 e 2020. Secretário-executivo da secretaria extraordinária de ciência, pesquisa e desenvolvimento em saúde do governo do estado de São Paulo em 2022 e atual Presidente do Conselho de Curadores da Fundação Butantan. Diretor científico da Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular (ABHH) e Pesquisador Responsável pelo CEPID-CancerThera-Fapesp.
** André Cesar Medici, é autor do Blog “Monitor de Saúde”, PhD em História, Economista em Saúde pelas Universidades de São Paulo e de Bethesda, Maryland, Estados Unidos.







