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Home Colunistas

Duro golpe na agenda climática – por José Pedro Martins

José Pedro Martins Por José Pedro Martins
7 de janeiro de 2026
em Colunistas
Tempo de leitura: 4 mins
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Duro golpe na agenda climática – por José Pedro Martins

Foto: Freepik

A invasão norteamericana na Venezuela, para captura do então presidente Nicolás Maduro, não representou somente uma clara violação do Direito internacional, como já assinalaram vários observadores, incluindo chefes de Estado. Foi mais um duro golpe, impetrado por Donald Trump, nos esforços que estão sendo feitos para o enfrentamento da emergência climática global. Mais um duro golpe, porque Trump tem feito várias ações nesse sentido desde que assumiu a presidência dos Estados Unidos no segundo mandato. A retirada de Washington do Acordo de Paris foi uma delas, mas não a única.

Trump não escondeu em nenhum momento o interesse (real) da captura de Maduro. A exploração do petróleo venezuelano, que não é pequeno. As reservas venezuelanas, estimadas em mais de 300 bilhões de barris, são provavelmente as maiores do mundo, superando as da Arábia Saudita e outros grandes produtores.

Ocorre que houve uma queda substancial da produção da Venezuela nos últimos anos, por uma série de fatores.

A produção no auge da produção, nos tempos ainda de Hugo Chavez, era de mais de 3 milhões de barris por dia e hoje é de pouco mais de 1 milhão por dia. Houve uma queda grande nos preços do petróleo nos últimos anos, o que  ajudou a enfraquecer a indústria venezuelana.

O presidente norteamericano diz que empresas de seu  país poderiam ajudar a reestruturar a indústria petrolífera venezuelana. Não será tarefa fácil, segundo analistas, porque a estrutura do petróleo da Venezuela tem sido sucateada. Seriam necessários muitos investimentos para a recuperação dessa indústria, de modo que a produção aumente para os níveis anteriores. E aí mora o grande perigo.

Se a produção venezuelana aumentar para 1,5 milhão de barris diários, isso significaria o incremento de 550 milhões de toneladas de dióxido de carbono, mais do que a emissão atual do Brasil ou do Reino Unido, segundo alguns cálculos de analistas do setor.

Ou seja, só com isso, seria frustrado todo o esforço de redução das emissões globais, para garantia de no máximo 1,5 grau a mais na temperatura global, como prevê o Acordo de Paris, de 2015.

Ocorre que essa meta já teria sido superada. Ou seja, se “vingar” o projeto de Trump para o petróleo venezuelano, adeus mesmo Acordo de Paris e vamos nos preparar para mais eventos climáticos extremos, como inundações, frio intenso ou seca.

A recente onda de calor no Brasil foi mais uma amostra do que está por vir. E, aliás, mais uma vez ficou claro que o nosso país não está preparado para o agravamento das mudanças climáticas, que é um fato concreto em curso.

Enfim, a agenda climática global ficou muito ameaçada depois da invasão da Venezuela para captura de Maduro. Inclusive porque ficou evidente a mensagem de Trump em termos das esferas de influência. América para os norteamericanos, como já prega há décadas a Doutrina Monroe, agora atualizada pelo novo presidente dos EUA.

Com as ameaças de Trump de novas invasões, por exemplo à Colômbia, Cuba e Groenlândia, será inevitável o realinhamento geopolítico planetário. Grande parte das atenções dos governos neste e nos próximos anos estará voltada para essa nova ordem mundial, cada vez mais instável e perigosa. Sobrará muito pouco tempo e recurso para a continuidade da agenda climática, já muito desgastada, como mostrou a recente COP30 de Belém, no Pará.

Mas os retrocessos não são apenas (sic) globais. No plano doméstico, elas continuam a todo vapor.

Depois do golpe desfechado pelo Congresso Nacional no arcabouço do licenciamento ambiental, no final de 2025, logo após o encerramento da COP da Amazônia (o que já soou como um grande gesto premeditado),  temos agora recuos na Moratória da Soja, que vinha sendo uma das iniciativas coletivas de maior sucesso na proteção dos biomas brasileiros, sobretudo da Amazônia.

A Moratória da Soja é um pacto em curso há duas décadas, envolvendo produtores de soja, indústria do setor e organizações ambientalistas e da sociedade civil, no sentido de coibir a comercialização da soja derivada de áreas de desmatamento, sobretudo na Amazônia mas também no Cerrado. Os resultados positivos são enormes.

Entre 2009 e 2022 o desmatamento nos municípios monitorados no âmbito da Moratória caiu 69%. Foi de somente 5% da produção na safra 2022/2023, a última auditada, decorrentes de áreas desmatadas.

Pois a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), que reúne as maiores compradoras do produto, acaba de anunciar que está se retirando da Moratória da Soja. Com isso, algumas das maiores empresas do setor estão saindo da iniciativa.

A decisão da Abiove é decorrente de uma lei que entrou em vigor no estado do Mato Grosso, maior produtor nacional, no sentido de que serão retirados os subsídios das empresas que participarem desse tipo de iniciativa ambiental. O Supremo Tribunal Federal já havia considerado constitucionais as leis estaduais proibindo incentivos fiscais para empresas que participem de pactos semelhantes.

Esse abalo na Moratória da Soja, somada à decisão do Congresso Nacional de “afrouxamento” (para muitos, é o fim mesmo) do licenciamento ambiental como vinha sendo praticado no Brasil, tende a levar a um incremento das taxas de desmatamento na Amazônia e Cerrado, inviabilizando as metas brasileiras de redução das emissões de gases de efeito estufa.

As maiores emissões do Brasil são decorrentes de mudança no uso da terra, como desmatamento derivado de expansões agrícolas.

Enfim, 2026 nem bem começou e as notícias não são nada agradáveis no campo da agenda climática global e nacional. Inclusive porque se espera uma maior rapidez nos planos da Petrobras de exploração do petróleo na foz do Amazonas, também em decorrência da captura de Maduro. Tempos muito difíceis estão se desenhando no horizonte.

As cidades brasileiras precisam apressar, e o mais rápido possível, sua preparação para as mudanças climáticas. O que vimos nos últimos dias em vários estados deixou claro que o país não está nem de longe preparado para os eventos climáticos extremos que, pelo visto, vão se agravar e muito.

 

José Pedro Martins é jornalista, escritor e consultor de comunicação. Com premiações nacionais e internacionais, é um dos profissionais especializados em meio ambiente mais prestigiados do País. E-mail: [email protected].

Tags: abaloBrasilCalorclimaexploraçãopetróleosojaVenezuela
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