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Home Cidade e Região

Campinas: ‘Mãe temporária’ abraça causa e vê a vida ganhar sentido

A professora Paula e seu marido Osmael já cuidaram de seis bebês desde que passaram a fazer parte do Família Acolhedora

Silvio Begatti Por Silvio Begatti
14 de julho de 2023
em Cidade e Região
Tempo de leitura: 4 mins
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Campinas: ‘Mãe temporária’ abraça causa e vê a vida ganhar sentido

Paula Cristina Breda, de 45 anos, e o marido Osmael, de 49: muito amor para doar Foto: Arquivo pessoal

O nome dela é Paula, mas também pode ser chamada de anjo. Afinal, qual seria o destino daquele bebê de apenas seis dias de vida abandonado pela mãe se não fosse a disposição dessa mulher em acolhê-lo? Paula, por outro lado, considera anjo de verdade a criança que recebeu. E assim enxerga, pois se diz impactada pelo amor que a criaturinha levou para sua casa.

Essa experiência de troca a professora Paula Cristina Breda, de 45 anos, vivenciou em 2018 e não foi só uma vez. No total, já foram seis bebês na mesma situação acolhidos em sua casa. O primeiro, de apenas 6 meses de idade, chegou em 2016, após ela tomar uma decisão que deu um sentido a sua vida. Por meio de uma amiga, Paula conheceu o serviço Família Acolhedora da Prefeitura de Campinas e não pensou duas vezes em se envolver no trabalho, que adotou como missão.

 

Nesta quinta-feira (13), a importância do serviço Família Acolhedora, que existe há 26 anos em Campinas, será lembrada em uma solenidade na Câmara Municipal. A sessão, que terá início às 14h, também homenageará os 33 anos do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

 

O serviço, ligado à Secretaria de Assistência Social, Pessoa com Deficiência e Direitos Humanos, se casou com os ideais de Paula. As buscas são por famílias disponíveis a oferecer um atendimento individualizado a crianças e adolescentes que precisam ser afastadas temporariamente do núcleo familiar de origem. E a professora enxergou no contexto a possibilidade de preencher, pelo menos em parte, um vazio. “Eu sempre quis ser mãe e vi uma oportunidade de servir de mãe de alguém que no momento não tem”, diz ela, que é casada há 20 anos com Osmael e não pode ter filhos.

 

Todas as seis crianças acolhidas por Paula são bebês que não chegaram aos 7 meses de vida. Neste ano, ela recebeu um de 19 dias.

 

“Meu esposo e eu acreditamos que esse serviço nos traz a oportunidade de amar. Temos tempo, experiência de vida e muito amor para dar. É uma experiência gratificante”, comenta.

A permanência é temporária. A criança que mais tempo conviveu com Paula ficou 20 meses sob seus cuidados. E a com passagem mais rápida teve 9 meses de acolhimento. Segundo a professora, duas voltaram para a família biológica e as outras quatro foram encaminhadas para a adoção. Ela conta que o difícil é o momento do adeus.

 

“Amaremos todos para sempre”, diz. “Durmo e acordo pensando em cada um e diariamente oramos por eles. Queremos que sejam felizes, seja onde for.”

 

Paula afirma que já pensou em adotar uma criança, mas descartou a possibilidade por considerar o processo muito prolongado. “Para se adotar uma criança entre 0 e 3 anos de idade o tempo estimado é de 8 a 10 anos, o que consumiria muito minha energia. Se eu estivesse na fila, minha vez não teria chegado ainda e, nesse período, já pude amar seis crianças.”

 

Reunião da Secretaria de Assistência Social com as famílias acolhedoras: defasagem leva Prefeitura a buscar voluntários Foto: Divulgação

 

Convocação

Paula e Osmael integram o grupo cadastrado no serviço Família Acolhedora da Prefeitura de Campinas. Responsáveis pela demanda, o Sapeca (Serviço de Acolhimento e Proteção Especial à Criança e ao Adolescente) e o ConViver contam com 10 e 14 famílias inscritas, respectivamente. Do total de 24, no entanto, somente 14 estão ativas acolhendo neste ano 16 crianças e adolescentes.

A Administração faz campanha para ampliar o número de voluntários, que vem reduzindo desde a pandemia. “Há muitas crianças precisando de uma família para serem cuidadas e educadas”, relata Paula. Hoje, o alvo da Secretaria é cadastrar pelo menos 40 famílias. “Equipes técnicas estão visitando empresas, igrejas, escolas e unidades de saúde para apontar essa necessidade e fazer o trabalho de conscientização”, diz a coordenadora da proteção social especial de alta complexidade da Secretaria de Assistência Social, Maria José Geremias.

Os candidatos, diz a coordenadora, passam por uma avaliação e orientação antes do cadastro. “O responsável precisa ter no mínimo 21 anos e assinar um termo de guarda provisória. Não há restrições relativas a estado civil, condição econômica ou orientação sexual”, esclarece.

 

Os contatos dos núcleos da Família Acolhedora são os seguintes: Sapeca: 19-3256-6067 ou 19-3256-6335. ConViver: 19-3772-9699 ou 19-99368-1440.

 

O endereço do site é familiaacolhedora.campinas,sp.gov.br

Detalhes do serviço

Maria José explica que os encaminhamentos das crianças e adolescentes às famílias acontecem por meio da aplicação de medida de proteção de acolhimento por parte da Vara da Infância e da Juventude. Os alvos, diz, são aquelas que precisam ser afastadas temporariamente da família de origem por terem sido vítimas de violação, como abandono e violência domésticas, por exemplo. O atendimento é voltado para pessoas até 17 anos e 11 meses, mas a preferência é atribuída às da primeira infância (entre 0 e 6 anos de idade).

“Em um primeiro momento, a busca é para que a permanência aconteça na família estendida, como avós e tios. Não havendo essa possibilidade, o serviço é acionado por meio de medida judicial”, explica Maria José. “Algumas crianças precisam de um direcionamento mais individualizado e focado, mesmo que provisório, para que possam ter uma outra referência de família”, complementa.

 

O acolhimento em uma nova casa ainda pode ser aplicado a um grupo de irmãos, diz a coordenadora.

 

Durante o período de acolhimento, a família biológica também passa por atendimento, já que o planejamento ideal é que a criança possa retornar para junto dos pais dentro de uma estrutura adequada de convívio familiar. Segundo a Secretaria, 469 crianças já passaram pelo serviço desde sua criação, há 26 anos, com 50,1% delas reintegradas à família de origem. “Estamos cumprindo com o nosso propósito”, afirma Maria José.

Apesar de ser aplicado em Campinas desde 1997, o serviço Família Acolhedora só foi legalmente reconhecido em 2009, por meio da Lei 12.010, que o adicionou ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Em Campinas, há outros 25 serviços de acolhimento ligados à Secretaria: sete abrigos, 16 casas lares para crianças e adolescentes, uma casa lar voltada para grávidas ou mãe com crianças e uma casa de passagem.

Tags: acolhimentoamordoaçãoestatuto da criança e do adolescenteFamília AcolhedoraPrefeitura de Campinas
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Silvio Begatti

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