Quando minha família mudou-se do Jardim Eulina para o atual Núcleo Residencial Boa Vista, aquele bairro ainda tentava romper a casca do ovo e ensaiar seus primeiros passos. Não havia nada ali, senão um conjunto de pessoas aflitas por fugir do aluguel, tentando organizar seu espaço e construir seu futuro, ainda que com paredes de madeira.
Perto do bairro encontravam-se alguns locais com mais tempo de existência, como a Escola Municipal Dr. João Alves dos Santos, que garantiu minha alfabetização, e a empresa General Electric, conhecida pela fabricação de locomotivas no Brasil e que, mais tarde, já com o nome de Gevisa, contratou-me como estagiário e realizou um sonho de infância.
Aliás, nunca me cansarei de agradecer ao meu supervisor de estágio, Marcelo Cardoso, uma pessoa muito especial, que abriu as portas da empresa para mim e mudou completamente minha vida.
Essa empresa, que se destaca na produção de motores elétricos, fica na Vila Lunardi, um bairro pequeno e com aparência interiorana. Era para lá que meu avô ia quando precisava comprar alguma coisa, naquela fase ainda inicial do Núcleo Residencial Boa Vista.
Em uma esquina estreita, de rua de terra, com os trilhos ferroviários logo à frente, existia o Bar do Milton, onde se encontravam os mantimentos necessários. Ao lado do bar, uma casinha bonita, com poço no quintal, sempre me chamava a atenção.
A Vila Lunardi ainda conserva uma igrejinha na mesma rua do antigo Bar do Milton. Ao lado dela há um ponto de ônibus, onde, por dois anos, embarquei minha mocidade sonhadora em direção ao Colégio Culto à Ciência, muitas vezes olhando os carros passarem pela ponte que levava à Gevisa e imaginando um dia ser funcionário daquela empresa.

Há poucos anos, soube que a Vila Lunardi também foi especial na vida de outra pessoa, alguém extraordinário, cuja amizade foi uma alegria imensa: Edson Roberto Lunardi, proprietário da Lunardi Bicicletas.
Quando estive em sua loja, na esquina da Rua 13 de Maio com a Rua Visconde de Rio Branco, há cerca de dois anos, meu objetivo era apenas escrever sobre a história do estabelecimento, que existe em Campinas desde 1951. Deparei-me, porém, com um homem simpático, trabalhador, dedicado à sua atividade profissional e muito emotivo.
Ao mencionar que escreveria sobre a Lunardi Bicicletas, seus olhos transbordaram emoção e saudade dos velhos tempos.
Passamos horas conversando e, de imediato, simpatizei com Edson quando ele me contou que a Vila Lunardi foi fundada por seu avô, Olinto Lunardi, que morou naquela região, em uma casinha em frente ao Bar do Milton, hoje inexistente. Atualmente, uma das principais ruas do bairro leva seu nome.
O pai de Edson, Edson Lorencetti Lunardi, cresceu naquela região, convivendo com o movimento da antiga Estação Boa Vista. Estudou em uma escola do bairro, que já não existe, e formou-se em Contabilidade pelo Colégio São Luiz. Mais tarde, em 1951, fundou a Casa Lunardi, uma loja e oficina dedicada ao conserto e à venda de bicicletas, peças e acessórios em geral.
Edson Roberto Lunardi, com quem conversei e que desde muito jovem ajudou o pai na Casa Lunardi, hoje Lunardi Bicicletas, contou-me com saudade daquela época em que o centro de Campinas era o principal espaço de lazer e compras, e ir “à cidade” era um acontecimento.

Ele contou que via o bonde passar em frente à loja. Em uma Campinas mais simples e, ao mesmo tempo, elegante, tinha como lazer noturno o Clube Semanal Cultura Artística e os diversos cinemas que existiam. Achava um luxo as lojas da Avenida Dr. Thomáz Alves e, na infância, encantava-se com os brinquedos da Casa Bongo. Também relembrou, com tristeza e indignação, a demolição do Teatro Municipal Carlos Gomes, em 1965.
Edson Lunardi acompanhou as transformações do centro de Campinas sempre ali, em sua agradável e hospitaleira loja, um lugar onde hoje entro e me sinto em casa, entre amigos.
E, como amigo, compreendo sua dor ao observar a situação atual do centro e da Rua 13 de Maio, seu quintal de tantos anos.
O centro de Campinas já não é mais aquele que vive na saudade de Edson Lunardi. Mas a Vila Lunardi permanece como um lugar bucólico e aconchegante, como a casa dos avós: um lugar onde um gato habita a igrejinha, o trem passa bem perto das casas, uma senhorinha sai de manhã para comprar pão, e caminhões carregados de maquinário entram e saem da empresa multinacional.
Alexandre Campanhola é produtor de conteúdo, responsável pela página Campinas, Meu Amor, dedicada a manter viva a memória e a história da cidade












