– Zé, terminei minha última viagem, são mais de cem países que eu conheço agora.
– É, mas você mesmo fala que são só números, o que vale são as experiências!
– Exatamente, Zé, você me conhece, eu gostaria de ter visitado apenas “um” país, a Terra, mas os humanos gostam de divisão, de posse, de propriedade privada, de separação, segregação. Mais que o número cem, completei quase todos os países que eu queria conhecer. Você sabe que eu viajo em busca de cultura, de história, de monumentos. Não coleciono países, mas experiências!
– Sei, sim. Você não escolhe seus destinos por belas praias ou natureza exuberante.
– Meu objetivo sempre foi conhecer mais as comunidades, os povos, as culturas, as sociedades. Essa veia sociológica não sai de mim, parece que está no meu sangue como uma hemoglobina.
– Conte-me o que mais te chamou a atenção nessas viagens.
– Em primeiro lugar, Zé, vi pobreza na mão de muitos, riqueza no colo de poucos. Apreciei monumentos fantásticos, de uma beleza inigualável, mas que foram erguidos com as mãos de servos e escravos, para geralmente louvar um homem só. Quase todos os monumentos que encontrei eram de homens (masculinos), parece que a mulher não faz parte da história. Isso é uma mentira tão grande!
– É, infelizmente o machismo sempre dominou, em todas as culturas e povos. Mas parece que as coisas estão mudando.
– Estão, sim, Zé, mas não na velocidade que deveria. Ainda há a cultura e a imposição que a mulher deve ser submissa.
– E me fale quais foram os maiores perrengues que você passou.
– Ah, sem dúvida nenhuma foram dois. E ambos na Rússia. Uma vez eu fui levado para a delegacia porque estava tomando uma latinha de cerveja na Praça Vermelha. Lá não pode beber álcool em público. Por sorte, a pena é apenas uma multa… E lá também, um ano depois, no controle de passaporte no aeroporto, levaram-me para uma pequena sala. Dois policiais me encheram de perguntas, confiscaram meu telefone para verificação, enfim, foram duas horas de muita aflição. Devem ter pensado que eu era terrorista ou espião ucraniano. Mas depois disso, posso dizer que tive uma viagem maravilhosa, talvez tenha sido a minha melhor aventura.
– E quais foram os países que você mais gostou?
– Zé, sem dúvida nenhuma é a Itália. Lá tem 3000 anos de história. Quem quiser conhecer a cultura “Ocidental”, deve fazer um mergulho na Bota. E também a Grécia.
– E o Brasil?
– Brasil e a Itália são os melhores países para mim, Zé, e por sorte moro nos dois! É muito privilégio.
– Cite mais países.
– Gosto muito de Portugal, também moraria lá. E a Tailândia.
– Esses cinco são os países que você moraria de acordo com o seu gosto. E as sete maravilhas?
– Visitei as sete, Zé. Mas a minha lista seria outra. 1) Ruínas maias de Tikal (Guatemala); 2) Machu Pichu (Peru); 3) Coliseu (Itália); 4) Palmira (Síria); 5) Samarcanda (Uzbequistão); 6) Guerreiros de Terracota (China); 7) Angkor Wat (Camboja). A lista não está por ordem de preferência, já que Angkor Wat foi a coisa mais fascinante que já visitei! Aquele foi o dia mais feliz em todas as minhas viagens! E o Egito também é maravilhoso, cheio de história!
– Mas eu percebi que você não posta muitas fotos de suas viagens…
– Zé, eu publico só o que realmente eu acho muito bonito, e que meus amigos e minhas amigas nunca viram. Quero provocar também um senso crítico estético, esse é meu objetivo. Não viajo para me mostrar, mas para mostrar o que é bonito e diferente.
– E o que mais te chamou a atenção em todas essas viagens?
– Que tudo são negócios, dinheiro, poder. Me chama sempre atenção nos aeroportos profissionais da limpeza. O sofrimento por trás de cada vida. Você já imaginou o que é trabalhar todos os dias dentro de um banheiro, e receber um pequeno salário por isso? É terrível! Eu sempre penso nisso quando utilizo o toalete. São sempre os mais pobres a fazer o serviço “sujo”. Vi que a maioria das pessoas apenas sobrevive. Correm de manhã pelo almoço e de tarde pela janta.
– E de positivo?
– Meus olhos viram, Zé. Eu senti. Os sabores, os aromas. E nunca foi uma busca por um “encontro interior” comigo mesmo, mas por conhecimento do “outro”, que muitas vezes descubro ser eu mesmo. Tantas formas de pensar o mundo que estão dentro de mim. Somos todos humanos, Zé. Eu viajo sempre para voltar. Eu viajo para voltar sempre.
– Escreva um livro, você tem muito a contar!
– Obrigado, Zé, quem sabe.
Gustavo Gumiero é Doutor em Sociologia (Unicamp) e Especialista em Antigo Testamento – gustavogumiero.com.br – @gustavogumiero







