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Home Colunistas

O desafio de impulsionar a ciência aberta em nível mundial (1) – por Carmino de Souza

Carmino de Souza Por Carmino de Souza
8 de julho de 2024
em Colunistas
Tempo de leitura: 4 mins
A A
O desafio de impulsionar a ciência aberta em nível mundial (1) – por Carmino de Souza

Foto: Freepik

A participação de inúmeros pesquisadores que acreditam na “Ciência Aberta” juntamente com outros defensores da “Ciência Aberta” sem fins lucrativos, organizações de investigação e gestores políticos fizeram um workshop em dezembro passado, organizado pela Unesco para encaminhar este esforço. Importante assistir este importante esforço avançar em um fórum que convida a participação da mais ampla gama de partes interessadas da comunidade acadêmica. Qualquer organização que promova a Ciência Aberta, precisa ser capaz de monitorar esta adoção. O contexto é importante e urgente de ser discutido e implementado.

A pressão sobre a Comunidade Científica é grande com custos crescentes. A investigação é um empreendimento global apoiado por uma vasta rede de instituições acadêmicas, fornecedores de serviços e infraestruturas, financiadores e grupos de elaboração de políticas. As soluções que construímos têm de ser capazes de abordar as prioridades e responder às perguntas que cada um desses grupos faz. Até agora, isto levou ao surgimento de uma variedade de soluções de monitorização que não são comparáveis. Isto limita a utilidade dos dados recolhidos em diferentes contextos e, sobretudo, corre o risco de criar desalinhamentos.

Nos esforços para impulsionar a Ciência Aberta, temos experiência, em primeira mão, das barreiras que os investigadores enfrentam quando os órgãos que regem a cultura e a prática da investigação não estão alinhados. Será necessária uma colaboração multilateral para impulsionar soluções de monitorização específicas do contexto, mas comparáveis, para apoiar caminhos para a adoção da Ciência Aberta para diversas comunidades.

A recomendação abrangente da Unesco sobre Ciência Aberta é um marco importante rumo a uma compreensão e visão partilhadas para a Ciência Aberta que permite a cada um de nós trabalhar à sua maneira para atingir o mesmo objetivo. A forma como implementamos esta recomendação também exigirá a capacidade de monitorizar a sua adoção de forma a respeitar os seus princípios.

É importante ressaltar que a iniciativa de monitoramento da Ciência Aberta está focada na colaboração e consulta com uma ampla gama de partes interessadas, independentemente de onde estamos atuando. No Brasil, esta discussão ainda é muito insipiente, mas necessária de ser assumida pelos MEC e MCTI e pelos órgãos de fomento à pesquisa como a Fapesp.

Quanto mais pudermos partilhar e aprender uns com os outros e estudar novos aspectos da prevalência e dos efeitos da Ciência Aberta, mais bem equipados estaremos para ver padrões que apontam para barreiras significativas para os investigadores, desafios sistêmicos, desigualdades estruturais e potenciais preconceitos.

Com um conjunto comum de princípios de monitorização, estamos um passo mais perto de estabelecer caminhos equitativos para a Ciência Aberta. Também é importante acompanhar o impacto de tornar mais fácil para os autores o compartilhamento de preprints e incentivos que poderiam promover melhores práticas e uso de compartilhamento de dados. Creio que a política das revistas está longe de ser o único mecanismo para alterar as normas de partilha de investigação.

Quando um pesquisador está pronto para compartilhar seu trabalho, muitas de suas escolhas já foram feitas. São influenciados pelo seu próprio contexto e circunstâncias: A sua instituição nacional de investigação apoia a partilha de mais componentes da investigação? A sua instituição reconhecerá os esforços para ser mais transparente? Há financiamento e infraestruturas que lhes permitam fazê-lo facilmente? As soluções disponíveis atendem aos objetivos da própria pesquisa?

Existem vários caminhos que os pesquisadores podem seguir para tornar seu trabalho mais aberto. Sabemos, por experiência própria de investigador, que a monitorização da Ciência Aberta é uma necessidade que partilhamos com muitas organizações e temos colaborado para compreender como as necessidades de monitorização se alinham e diferem entre financiadores, instituições e editores. Também precisamos medir os efeitos ou qualidades dessas práticas para alcançar os objetivos de maior transparência, integridade e inclusão que estão no cerne da Ciência Aberta.

Acreditamos que a Ciência Aberta é uma ciência melhor e que a monitorização eficaz – e a meta-investigação rigorosa – podem fornecer mais provas disso. Um desafio sistêmico requer uma solução sistêmica. Descobrir como fazemos isso deve ser um esforço de muitas partes interessadas.

Devemos criar um ciclo de feedback entre órgãos de fomento, financiadores, políticos, instituições de ensino e pesquisa, fornecedores de infraestruturas, investigadores e editores. É importante ressaltar que a diversidade de perspectivas é crítica não apenas entre setores, mas também entre disciplinas e contextos regionais e econômicos.

Um conjunto robusto de princípios, informados pelo mais amplo leque possível de partes interessadas, será um trunfo essencial para medir de forma responsável os sucessos (e, quando necessário, os fracassos e as consequências não intencionais) de todos os nossos esforços. É um tema bastante sensível, difícil de ser entendido pela sociedade, mesmo acadêmica, e que precisa ser discutida e encaminhada em suas possíveis soluções.

 

(1)– Impulsionando a adoção da Ciência Aberta com uma estrutura global: a Iniciativa de Monitoramento da Ciência Aberta – 20 de maio de 2024 PLOS Open Science Indicadores de Ciência Aberta Líderes do Pensamento: por Veronique Kiermer e Iain Hrynaszkiewicz

 

 

Carmino Antônio De Souza é professor titular da Unicamp. Foi secretário de saúde do estado de São Paulo na década de 1990 (1993-1994) e da cidade de Campinas entre 2013 e 2020. Secretário-executivo da secretaria extraordinária de ciência, pesquisa e desenvolvimento em saúde do governo do estado de São Paulo em 2022 e atual Presidente do Conselho de Curadores da Fundação Butantan. Diretor científico da Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular (ABHH).

Tags: Carmino de SouzaciênciaCiência AbertacolunistasHora CampinasInovaçãomedicamentosmedicinamédicospacientespesquisaredessaúdetratamentos
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Carmino de Souza

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