O valor de unir as pessoas parece uma magia que cria sabedoria. Ao reunir pessoas em volta de um fogo de chão, podemos criar o riso genuíno, o calor de verdades, compartilhar opiniões e reacender laços com senso de unidade que jamais as plataformas virtuais poderão proporcionar.
As narrativas ao redor de uma fogueira criavam interação, enquanto a narrativa digital traz apenas uma mensagem superficial em uma comunidade fugaz de consumidores de momentos.
O valor de um bom papo ao redor de uma fogueira, onde debatemos nossas histórias e conversamos uns com os outros, sem nenhum propósito específico, apenas apreciando o tempo, nos faz dormir melhor.
Esse espaço ‘caliente’ ainda pode ser usado de forma instrutiva. De certa forma, ele se coloca como nosso centro de interlocução, principalmente em uma fazenda ou espaço recreativo, ou até em um clube social, onde os sócios poderiam fazer encontros filosóficos.
Infelizmente, as conversas ao redor do ‘fogo de chão’ estão sendo substituídas pela tela digital, que mais separa as pessoas do que as reúne. Por meio da narrativa dos influencers, o capitalismo se apropria da narrativa interesseira e implanta uma falsa forma de contar histórias, vendendo algo que não precisamos ou desejamos.
Hoje, e cada dia mais, valorizamos apenas os elementos superficiais, nos tornando repetidores sem reflexão. Raramente ouvimos histórias em forma de prosa, algo tão gostoso.
A cultura do século XXI se tornou um mingau indiferenciado; na modernidade digital, escondemos a nudez da nossa ingenuidade e a ausência de significado de nossas vidas. Estamos sempre postando, curtindo ou compartilhando, sem refletir muito sobre o conteúdo ou a substância.
O cérebro virou uma máquina de resposta pronta: como faço isso ou como compro aquilo? Se você não tem Instagram ou WhatsApp, você não existe. Se você não é um nativo de mídia social, você está mais perto de ser considerado um objeto de museu.
Para a geração mais jovem, o filósofo é um animal em extinção. Já um influenciador, com sua dramaticidade, se torna a verdade do dia, que amanhã será substituída por outra verdade de outro influenciador.
Vejamos o absurdo de um ex-presidente americano, julgado culpado por muitos crimes, ter a chance de ganhar as eleições presidenciais. Uma piada de risco mundial.
O pior é que quem está fora das armadilhas tecnológicas acaba sendo julgado por ‘estar desinformado’. Como se, ao não estar em plataformas digitais, a pessoa não soubesse nada e se tornasse um energúmeno.
A capacidade de refletir e pensar, ou mesmo reter informações, não é mais necessária, virou ‘coloque no Google’. Sou de um tempo quando o humanismo tinha espaço. Hoje sou um ‘ser’ antiquado e só me chamam quando nem o Google responde. Não nego que uso o mundo digital para muitas coisas, como já escrevi, a Wikipédia, realmente uma evolução da criação iluminista das enciclopédias e talvez um sinal do melhor da internet.
O relacionamento atual do mundo está frágil. A sociedade parece estar medrosa. Claro, a pandemia de Covid-19 sinalizou um retorno a um mundo imunologicamente frágil que realmente não havia desaparecido.
Neste século, lemos menos e nos apoiamos muito nas mídias sociais. Para muitas pessoas, a Internet é a nova fogueira, mas isso é um simulacro de comunidade. Perdemos a capacidade verdadeira e profunda de sentir o significado narrativo.
Mas, por incrível que pareça, encontrei um hotel em Palo Alto, berço do mundo digital, onde conseguiram recriar o fogo de chão em torno do qual os gênios de Stanford se reúnem para contar histórias uns aos outros em rodas de saber. Eles, gênios do passado e do futuro, estão precisando se reconectar humanamente ao redor do fogo de chão para refletir um pouco de filosofia concreta.
Luis Norberto Pascoal é empresário e presidente da Fundação Educar







