A primeira semana de setembro foi marcada por mais um triste capítulo para o Centro de Campinas. O cerramento das portas de ferro das Lojas Americanas e da Pernambucanas, vizinhas há décadas na Rua 13 de Maio, causou espanto, tristeza e evidenciou o momento de mudanças das grandes redes de lojas, que a cada dia deixam o comércio de rua em todo país.
“É impossível não ficar chocada com o fechamento”, dizia a vendedora Ligia Fabiana, 40 anos, olhando incrédula para o aviso na porta da Americanas. Assim como ela, os demais entrevistados pelo Hora Campinas também expressaram, cada um a sua maneira, a tristeza ao ver a história do comércio da “13” se apagar aos poucos.

Primeiro foi a Pernambucanas, no dia 30 de agosto, e na segunda-feira, dia 2, foi a vez das Lojas Americanas amanhecer fechada. Ambas funcionaram no mesmo ponto por mais de 70 anos, e cada uma ocupava três andares do edifício Comendador Said Abdalla. A Americanas, sempre abarrotada de produtos, utilizava um espaço maior, em formato de “L”, com uma entrada também pela Rua Ernesto Khulmann.
Funcionários da Pernambucanas passaram a semana transportando produtos para outro ponto da loja, que fica na esquina oposta, com a Rua José Paulino – em frente à antiga Skina Magazine, que em junho encerrou suas atividades após quase 90 anos de tradição.

Um funcionário que carregava um televisor de 42 polegadas disse, enquanto caminhava sob olhares curiosos, que aquele era um dos últimos produtos que faltavam transportar para a outra unidade. A Pernambucanas explicou que o fechamento “faz parte da estratégia de avaliação de desempenho dos pontos de venda da companhia”, e que essa é uma prática comum no setor varejista.
Com argumento quase semelhante, a Americanas também informou oficialmente que o processo de abertura e fechamento de lojas “faz parte do curso normal do varejo, somado ao plano de transformação da companhia”. Informou ainda que ajustes estão focados na “rentabilidade e otimização do negócio”.
A reportagem apurou com uma fonte no edifício Said Abdalla que recentemente a Americanas teria solicitado aos proprietários do imóvel uma revisão no valor do aluguel – que gira em torno de R$ 165 mil mensais.
“Não deu 15 dias do pedido e logo os proprietários acharam outro inquilino”, informou o funcionário. “Na minha opinião, tentaram um blefe e logo foram descartados”. Segundo ele, uma unidade da rede Montreal Moda e Casa deverá se instalar em breve no ponto da Americanas. Essa é uma informação que circula também entre outros comerciantes.
Já no espaço da Pernambucanas, há grande possibilidade de a nova inquilina ser a rede Caedu, que possui mais de 75 lojas e é voltada à moda feminina. A loja, que hoje está instalada na Rua Costa Aguiar, estava com as vitrines fechadas na quinta-feira (5) e o acesso de clientes estava liberado somente para pagamentos de crediário.
“A gente está de mudança”, disse o atendente, apontando discretamente para a direção da antiga Pernambucanas. “Está quase tudo certo, agora estamos embalando as mercadorias”, disse.
QUANTAS HISTÓRIAS
A máquina de pipocas estrategicamente acomodada ao lado das portas de entrada e o cachorro-quente vendido no balcão não são as únicas lembranças que Sandra Mara Siqueira, de 72 anos, guarda das Lojas Americanas da Rua 13 de Maio.
Entre os anos de 1972 e 1978, Sandra trabalhou no estabelecimento em diferentes funções. Foi demitida pouco mais de um mês após se casar porque, segundo ela, o estabelecimento dava preferência às mulheres solteiras. Nos anos de 1970, o cenário das Lojas Americanas e do Centro de Campinas era outro. Não havia calçadão na 13 de Maio.

Magazines e grandes lojas começavam a se instalar na única área comercial do município. Passear pela 13 de Maio ocupava as primeiras posições na lista de atividades de lazer do campineiro. E a Americanas era uma grata “novidade” pela variada oferta de produtos encontrada num único espaço.
Trabalhar na Americanas, conta Sandra, tinha vantagens, como uma espécie de plano de cargos e salários e um “bônus” especial em épocas de final de ano: jantar grátis na lanchonete da loja.
“Quando chegava o período de final de ano, a Americanas funcionava até mais tarde, mas só havia um turno de funcionários. Como a pausa do jantar era curta, podíamos nos servir com o que era vendido nas lanchonetes. Para nós era o máximo, porque podíamos comer tudo aquilo que não tínhamos condições de comprar”, recorda a empresária aposentada.
BONS TEMPOS
Há 56 anos os sócios Carlos Alberto Schultz, 70, e Raul Valverde, 75, trabalham em frente ao grande edifício dos Abdalla. Hoje, mesmo sem a banca de jornais, seguem na 13 comercializando títulos de capitalização. Eles viveram e aproveitaram um dos melhores períodos do corredor de comércios.

“Nossa primeira banca foi instalada em 1969, em frente à Americanas. Estavam tirando os trilhos do bonde naquele ano e começava uma transformação no comércio”, recorda Carlos Alberto. O movimento nas duas lojas ‘puxava’ os clientes para dentro da banca.
“As pessoas paravam para comer cachorro-quente na Americanas e aproveitavam para comprar jornal e revistinha para as crianças. A gente vendia muito. Quatro funcionárias na banca não paravam um segundo”, recorda Valverde.
Em 1974 aconteceu a primeira grande transformação na praça em frente a Americanas, promovida na então gestão do prefeito Lauro Péricles. Com isso, a banca dos sócios subiu alguns metros, até próximo a esquina com a Ernesto Khulmann, e ganhou uma cobertura diferenciada; uma espécie de chapéu.
O próprio Said Abdalla, proprietário do imóvel onde funcionavam as lojas, era um cliente assíduo da banca. “Era um homenzarrão libanês, careca, e quase todos os dias vinha na banca. A gente tinha uma amizade espetacular com ele e com suas irmãs. Ele andava pelo Centro e sempre comentava, admirado sobre o movimento”, recorda Carlos.
Para o negócio dos sócios, o período de declínio começou no início dos anos 2000, com a chegada da internet e a gradual fuga de clientes das bancas. O estopim, que deixou a dupla com uma dívida alta, foi mesmo no período da pandemia de covid-19.
“Tivemos que vender a banca para quitar o que devíamos na praça. Mas seguimos firmes nesse ponto, mantendo nossa história aqui na 13”, diz Carlos, não escondendo a emoção.
FUGA DO CENTRO
Ao lado da Americanas, uma tradicional loja de calçados segue como uma das mais antigas do corredor de comércio. Lígia Fabiana, a vendedora citada no início da reportagem, está há 18 anos apresentando aos clientes as novidades na vitrine.
“Aqui não vai fechar não”, antecipou, em tom de brincadeira, ao ver que se tratava de uma reportagem sobre as grandes redes vizinhas. “Uma verdadeira tristeza para o Centro. Quantas Black Fridays a gente aproveitou por estar aqui ao lado. A fila de clientes na Americanas dava volta na Catedral”, lembra.
Lígia observa um outro fator que tem provocado o esvaziamento do Centro. “É só olhar ao redor e ver quantos moradores de rua tem nesse ponto. O pessoal fugiu do Centro com medo. Esse calçadão está vazio perto do que era antes da pandemia”. A constatação da vendedora é praticamente unânime entre aqueles que trabalham no calçadão. Atrelado a isso, as compras pela internet foram pouco a pouco esvaziando o comércio.
“O cliente entra na loja, experimenta o calçado e vai embora dizendo que vai comprar pelo site porque é mais barato”, expõe a vendedora. Por volta do meio-dia, a loja estava vazia, e Lígia encerra: “quando eu entrei éramos em 50, e hoje somos em 11. Isso já explica a situação por aqui”.
No ponto da Rua José Paulino com a 13 de Maio, o taxista Jair de Souza Lima, 57 anos, diz que o movimento de corridas caiu cerca de 60% nos últimos anos. Com a pandemia, a situação se agravou.

“À medida em que as lojas vão fechando, os clientes não vêm mais ao Centro. Isso afeta muito nosso serviço. Em 10 anos aqui, esse é o pior momento para trabalhar nessa região”, desabafa.
Enquanto Jair falava, o som intermitente do acordeom de Walter Batista revelava sua resistência ali no calçadão. Ele conta que toca desde os 7 anos de idade na 13 de Maio. Hoje, tem 51. Das poucas moedas que caem na sua caixinha de sapato, consegue um pouco do sustento para a família, diz.
Do trio de cegos que formava com os tios João e André Carro, somente ele permaneceu naquele mesmo ponto, embalando dezenas de música do seu repertório. “Agora, ficou mais silencioso esse lugar”, percebe, sentado em frente à antiga Americanas.

SHOPPING A CÉU ABERTO
Segundo a Associação Comercial de Campinas (Acic), cerca de 90 mil pessoas por dia passam pelo calçadão da 13, que tem mais de 700 metros de extensão. No espaço, são aproximadamente 120 comércios que empregam 7.400 trabalhadores.
“Com tendência a atender a todas as classes sociais, destacando as classes C, D e E, basicamente, a Rua 13 de Maio representa 11% do faturamento total do comércio varejista em Campinas, cerca de R$ 1 bilhão ao ano, no centro considerado”, destaca a Acic.
Há dois anos o calçadão passou por uma revitalização, ganhando uma cobertura de guarda-chuvas, bancos e lixeiras de concreto. A instalação foi doada pela Construtora Patriani, que venceu um chamamento público aberto pela Prefeitura para apresentação de projetos de requalificação.
Nesse final de semana, essa decoração começou a ser retirada para a instalação de uma nova. A iniciativa é da Acic, que desenvolveu o projeto, custeado com investimento de cerca de R$ 220 mil de patrocinadores. A empresa contratada para o projeto iniciou a produção dos sombrites, telas de cor azul e com desenhos de andorinhas.
Fraudes contábeis nas Americanas superaram os R$ 25 bilhões
Considerado um dos gigantes do varejo brasileiro, com 95 anos história, o Grupo Americanas surpreendeu o País quando, em janeiro do ano passado, anunciou “inconsistências contábeis” de mais de R$ 20 bilhões, até então desconhecida de investidores, fornecedores, credores, trabalhadores e da sociedade brasileira.
Uma análise por parte da área contábil da empresa havia identificado operações de financiamentos de compras de cerca de R$ 20 bilhões, que fizeram com que a Americanas ficasse devendo a instituições financeiras. Mas essas dívidas não estavam “adequadamente refletidas na conta de fornecedores” nas demonstrações financeiras da companhia.
Logo após o anúncio, o Grupo Americanas entrou com um pedido de recuperação judicial, de forma a se proteger das cobranças de dívidas imediatas e proteger seus negócios e patrimônios.
Mas as surpresas não parariam por aí. Alguns meses depois, a própria empresa lançou uma nova bomba: as inconsistências eram fruto de fraudes. Depois de uma auditoria independente, a Americanas verificou indícios de manipulação de dados contábeis por parte de sua antiga diretoria, que chegavam a R$ 25,3 bilhões.
Há duas semanas, a Segunda Turma Especializada do Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF2) concedeu habeas corpus em favor do ex-CEO do Grupo Americanas, Miguel Gutierrez. Com a medida, fica revogado o mandado de prisão contra ele, que está em Madri, na Espanha, onde mora. Gutierrez tem dupla cidadania.
O executivo foi alvo da Operação Disclosure, da Polícia Federal (PF), que investiga fraude bilionária na rede de comércio varejista. Ele chegou a ser preso em Madri no dia 28 de junho, a pedido das autoridades brasileiras.
Veja quais são as outras 13 unidades da Americanas ainda ativas em Campinas:
- Av. Júlio de Mesquita, 895 – Cambuí;
- Av. Mirandópolis, 895 – Best Center;
- Av. Andrade Neves, 2457 – Castelo;
- Av. José de Souza Campos, 106 – Norte Sul;
- Av. Albino JB Oliveira, 1282 – Barão Geraldo;
- Av. Baden Powell, 1929 – Best Center;
- Shopping Parque D. Pedro;
- Shopping Iguatemi;
- Shopping Parque das Bandeiras;
- Galleria Shopping;
- Campinas Shopping;
- Shopping Prado Boulevard;
- Shopping Spazio Ouro Verde.
(Colaboração Laine Turati)
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