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O capitalismo vive de crises – por Luis Felipe Valle

Sem guerras, medo e violência, ninguém se curvaria aos poderosos

Luis Felipe Valle Por Luis Felipe Valle
8 de fevereiro de 2025
em Colunistas
Tempo de leitura: 7 mins
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O capitalismo vive de crises – por Luis Felipe Valle

Imagem Gerada com IA/Freepik

Olhando em retrospecto, não é difícil concluir que o capitalismo, desde suas origens, tem se alimentado de crises e conflitos para se perpetuar como estrutura econômica, política e sociocultural em escala global nos últimos séculos. Ao falar da destruição criativa, Joseph Schumpeter argumenta que o sistema capitalista se renova constantemente por meio de ciclos de inovação que destroem estruturas antigas para dar lugar a novas. No entanto, essa dinâmica não se orienta pela busca por mais igualdade, liberdade e qualidade de vida para a humanidade. Guerras, crises e conflitos sociais têm possibilitado a manutenção e expansão da lógica exploratória em escalas cada vez maiores e mais profundas.

Desde seu surgimento, como consequência do mercantilismo, no século XVIII, influenciado pelas ideias iluministas, o capitalismo representou uma ruptura com o feudalismo europeu e as monarquias absolutistas que sustentavam modelos coloniais e escravistas vigentes à época. Pensadores como Adam Smith, em “A Riqueza das Nações”, defenderam o liberalismo econômico, promovendo princípios de liberdade individual e de mercado. Contudo, essa transição não resultou em uma verdadeira democratização do poder ou em justiça social. Pelo contrário, consolidou uma nova elite econômica que continuou a explorar as classes trabalhadoras e as colônias, mantendo estruturas de opressão que remontavam ao período colonial.

As revoluções do século XVIII e XIX, como a Independência dos EUA e a Revolução Francesa, prometeram liberdade e igualdade, mas falharam em estabelecer democracias populares que promovessem justiça social e reparação histórica em relação à escravidão e ao colonialismo.

Eric Hobsbawm, em “A Era dos Extremos”, destaca que essas revoluções foram limitadas em seu alcance, muitas vezes substituindo uma elite por outra e mantendo estruturas de poder opressivas. A abolição da escravidão e a descolonização foram processos longos e dolorosos, frequentemente resistidos pelas potências hegemônicas que buscavam manter seu domínio econômico e político. Assim, o capitalismo emergiu não como um sistema emancipatório, mas como uma nova forma de dominação.

No início do século XX, o mundo testemunhou uma série de eventos catastróficos que moldaram o capitalismo contemporâneo. A Primeira Guerra Mundial envolveu as principais potências europeias, resultando em devastação em massa e reconfiguração geopolítica. A crise de 1929, precipitada pela especulação financeira desenfreada, levou a uma depressão econômica global. A Segunda Guerra Mundial, novamente centrada na Europa, causou destruição sem precedentes, mas também abriu caminho para a hegemonia dos EUA. Esses eventos evidenciaram as fragilidades do capitalismo e a necessidade de intervenções estatais para sua sobrevivência. John Maynard Keynes propôs políticas econômicas que enfatizavam o papel do Estado na regulação econômica, buscando mitigar os efeitos das crises cíclicas inerentes ao sistema.

No Brasil, durante a Era Vargas, houve uma tentativa de romper com a hegemonia rural e escravocrata, promovendo a industrialização e o desenvolvimento urbano.

Celso Furtado analisou esse período, destacando os desafios do país em superar o subdesenvolvimento e as desigualdades estruturais herdadas do colonialismo. Apesar dos avanços, o Brasil continuou enfrentando obstáculos significativos para alcançar um desenvolvimento socioeconômico equitativo, evidenciando como o capitalismo periférico reproduz as mesmas lógicas de exploração e exclusão.

Durante a Guerra Fria, a União Soviética e a China passaram por rápidos processos de industrialização e desenvolvimento tecnológico. No entanto, esses avanços foram acompanhados por regimes autoritários liderados por figuras como Stalin e Mao Tsé-Tung, cujas políticas resultaram em repressão política e violações dos direitos humanos. Paralelamente, nos Estados Unidos, o racismo estrutural se manifestou de forma violenta, com o fortalecimento de grupos como a Ku Klux Klan e movimentos neonazistas, perpetuando a opressão de minorias raciais.

A Guerra Fria também intensificou o sentimento anticomunista no Ocidente, levando à criminalização e perseguição de lideranças e movimentos que defendiam o socialismo como alternativa para um desenvolvimento mais justo. Michel Foucault, ao discutir os dispositivos de controle e o biopoder, destaca como os Estados utilizaram mecanismos de vigilância e repressão para manter a ordem social e suprimir dissidências ideológicas. Essas estratégias foram fundamentais para a manutenção da hegemonia capitalista durante o século XX.

Após a Segunda Guerra Mundial, ideologias aparentemente opostas passam a mesclar-se: o ultranacionalismo, manifestado no fascismo, e o neoliberalismo. Embora distintos, ambos compartilham elementos comuns, como a centralização do poder e a supressão de direitos individuais em prol de agendas políticas e econômicas específicas. O neoliberalismo promoveu a desregulamentação dos mercados e a redução do papel do Estado, enquanto o ultranacionalismo enfatizou a identidade nacional e a exclusão de minorias, resultando em políticas que frequentemente se sobrepõem e se reforçam mutuamente.

Políticas públicas que perpetuam a fome, a miséria e a alienação têm sido utilizadas como ferramentas para manter o controle sobre grande parte da população.

Karl Marx analisou a expropriação da força de trabalho como um mecanismo central do capitalismo, onde a exploração contínua dos trabalhadores garante a acumulação de capital pelas elites. Essas dinâmicas perpetuam ciclos de pobreza e dependência, assegurando que as massas permaneçam submissas e disponíveis para exploração. A alienação cultural e política, promovida por meio de indústrias como a do entretenimento e a mídia de massa, serve para manter a população distraída e conformada.

Discursos populistas contemporâneos frequentemente contradizem os princípios iluministas que fundamentam o liberalismo, reforçando valores retrógrados e conservadores. Achille Mbembe introduz o conceito de necropolítica para descrever como os Estados exercem controle sobre a vida e a morte, especialmente em relação a populações marginalizadas. Esses discursos promovem elitismo, racismo, machismo e outras formas de opressão, minando os ideais de liberdade e igualdade.

Inegável que houve avanços científicos e tecnológicos gigantescos ao longo dos últimos séculos, mas é um equívoco atribuí-los ao capitalismo. A revolução técnico-científico-informacional é produto da criatividade e do empenho humano em procurar soluções para os problemas e crises que enfrenta, não graças ao capitalismo – mas apesar dele.

Sem a coletivização de recursos como terras, alimentos, eletricidade, medicamentos, vacinas e direitos básicos, como educação, saúde, moradia e lazer, o progresso e as inovações continuarão a ser mercantilizados, disponíveis apenas a elites financeiras que podem pagar para acessá-los, enquanto persistem a fome, o desabrigo, as doenças, o analfabetismo, a criminalidade e a exploração.

 

Imagem Gerada com IA/Freepik

 

É fato, também, que a era informacional trouxe novas possibilidades para o questionamento dessa estrutura, ao permitir a disseminação de informações de maneira descentralizada e ampliar o alcance do pensamento crítico. No entanto, a mesma tecnologia que facilita o acesso ao conhecimento também tem sido instrumentalizada para reforçar narrativas hegemônicas e promover a vigilância em massa. O controle sobre redes sociais e plataformas digitais se tornou uma nova forma de colonização do pensamento, dificultando a organização de movimentos progressistas e ampliando a manipulação das massas por meio da desinformação e da guerra cultural.

O desafio contemporâneo reside, portanto, na criação de estratégias eficazes para romper com esse ciclo de destruição criativa, evitando que crises e conflitos continuem sendo utilizados como motores da acumulação capitalista.

Isso exige não apenas a resistência a políticas neoliberais, mas também a construção de alternativas viáveis que priorizem a justiça social, a distribuição de riquezas e a sustentabilidade ambiental. Experiências históricas de conciliação de classes demonstram que apenas reformas superficiais não são suficientes para mudar a lógica do sistema, sendo necessária uma transformação estrutural que ataque as raízes das desigualdades e do autoritarismo.

A articulação entre diferentes campos do conhecimento e movimentos sociais se torna essencial para a formulação de um novo projeto de sociedade. A construção de um modelo econômico baseado na cooperação, na solidariedade e no bem-estar coletivo ainda se apresenta como um desafio complexo, mas não impossível. A história tem mostrado que nenhuma estrutura de poder é inabalável, e o próprio capitalismo, embora tenha se mostrado adaptável às crises, não está imune a sua própria contradição fundamental: a exploração contínua de recursos e de seres humanos tem um limite. Cabe à humanidade decidir se esse limite será imposto por uma ruptura consciente ou pelo colapso inevitável.

A formação de uma nova onda fascista, impulsionada pela reeleição de Donald Trump nos Estados Unidos, exemplifica como o capitalismo recorre a estratégias autoritárias para se preservar em momentos de crise.

A retórica de ataques a imigrantes, comunidades LGBTQIA+ e outras minorias, promovendo um discurso ultranacionalista, alimenta o medo e a segregação, repetindo estratégias observadas na Alemanha nazista. Paralelamente, o apoio irrestrito a grupos sionistas tendem a piorar a violência contra o povo Palestino, legitimando um verdadeiro genocídio na Faixa de Gaza, violando tratados internacionais e desmoralizando instituições como a ONU, que se mostram incapazes de conter a escalada da violência.

Esse cenário de caos e barbárie não é apenas uma consequência do extremismo político, mas uma estratégia deliberada para desviar a atenção da profunda crise estrutural do capitalismo, que atinge até mesmo os Estados Unidos, centro financeiro mundial. Enquanto centenas de milhões de pessoas sofrem com a precarização da vida, bilionários como Elon Musk e Mark Zuckerberg expandem seu domínio sobre a sociedade, consolidando um modelo de “tecnofeudalismo”, onde corporações substituem Estados na formulação de políticas e na imposição de controles sobre a população. Se o século XX foi marcado pela disputa entre capitalismo e socialismo, o século XXI parece trazer um novo desafio: impedir que a fusão entre poder financeiro, tecnológico e autoritário transforme a humanidade em mera engrenagem de uma distopia corporativa.

A reversão desse cenário exige uma crítica radical ao capitalismo e à sua lógica predatória, que transforma guerras, conflitos e crises em oportunidades para a acumulação de capital entre poderosos.

É necessário construir alternativas que priorizem a justiça social, a reparação histórica e a sustentabilidade ambiental, superando as limitações das revoluções do passado. Isso implica não apenas a transformação das estruturas econômicas, mas também a construção de uma nova cultura política baseada na solidariedade, na democracia participativa e no respeito à diversidade.

A luta por um mundo pós-capitalista deve ser, ao mesmo tempo, local e global, articulando-se em redes que conectam diferentes experiências e saberes, superando o culto a heróis e mitos, fazendo da ciência, da solidariedade e da razão humanista substitutas do fanatismo, do imediatismo e do individualismo.

 

Luis Felipe Valle é professor universitário, geógrafo, mestre em Linguagens, Mídia e Arte, pós-graduado em Neuropsicologia.

 

 

 

 

 

Tags: capitalismocolunistascomportamentoHora CampinasLuis Felipe VallemercadoMundoPolíticasociedade
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