Em cinco de junho comemora-se o Dia Mundial do Meio Ambiente. Mas não há nada a festejar.
Os maiores assuntos com que a humanidade se preocupa são outros, e proteger o planeta que nos permite existir é relegado a algo sem urgência.
Desde 1492, com a conquista das Américas, a humanidade se tornou um processo geológico, medido pelo nível de violência com que age sobre a Terra. Patriarcado, machismo, escravidão, racismo, propriedade do Estado, propriedade privada e mais guerras que afetam nosso planeta sem piedade.
Mas somente 500 anos depois é que se começou a perceber os danos, aos quais convencionou-se a chamar, com uma grande falta de clareza e assertividade, “mudança climática” (no singular ou no plural). O nome está longe de revelar as principais causas e os grandes causadores do problema. Usam-se eufemismos para tentar aliviar a destruição e esconder a própria culpa.
Mudança climática é uma expressão que não denota uma responsabilidade humana. Parece ter sua gênese por si mesma, desconsiderando as relações sociais, de classe, as guerras e os conflitos que as afirmaram. É uma expressão, por si só, apolítica, pois não considera que há diferença de escalas entre os países que mais poluem e os que menos o fazem; entre os estilos de vida que mais consomem os recursos, e aqueles que nem têm recursos (comida) para consumir.
E que só vende um mote: evitar o aumento da temperatura da Terra em mais de 1,5 grau. Buscar apenas não superá-la é desconsiderar toda a poluição, a destruição da fauna e da flora, a questão dos direitos humanos. Perseguir apenas a meta de temperatura é permitir a aniquilação de biomas e de comunidades.
Se não temos a força para mudar como vem chamada, ao menos vale a tentativa de defini-la, e ofereço a minha para o debate.
O que vulgarmente é definido como “mudança climática” deve ser entendido como um conjunto de práticas que têm como elementos fundamentais o racismo, o patriarcado, a propriedade privada e a expropriação da natureza, os quais apresentam como resultados o aumento da temperatura da superfície terrestre, a diminuição acentuada da biodiversidade e a poluição dos biomas, sendo o ser humano seu agente, através do seu modo de produção capitalista, que utiliza primordialmente energia baseada em combustíveis fósseis, cuja queima resulta na liberação de gases poluentes na atmosfera.
No entanto, deve-se evidenciar a desigualdade e a disparidade da contribuição dos países para o fenômeno. Assim, passamos a viver no Capitaloceno, período em que a humanidade, através do seu modo de produção capitalista, se transformou em um poderoso e perigoso processo geológico.
Construímos nossa recente existência baseada na nossa extinção. Objetos, objetivos, coisas, números, dinheiro, dinheiro, dinheiro. Tudo tem seu preço, mas de tudo foi extraído o valor.
Somos como gado marcado, marchando ao matadouro.
Capitaloceno. Capital o somos.
Gustavo Gumiero é escritor e doutor em Sociologia pela Unicamp. É criador do influenciador climático @SuperProteus e fundador da Associação Luto pela Terra – gustavogumiero.com.br – @gustavogumiero











