De um lado, milhões de jovens enfrentam a luta diária pela sobrevivência em um país marcado por desigualdades estruturais. De outro, uma parcela privilegiada – aquela que nunca precisou se preocupar com teto, comida, educação de qualidade ou acesso a cultura ou novidades tecnológicas – enfrenta um paradoxo: ter (quase) tudo à mão não impediu o surgimento de uma epidemia silenciosa (embora cada vez mais aguda) de depressão, ansiedade e angústia existencial.
Vazio, inadequação e desorientação são sentimentos tão comuns quanto stories de uma vida perfeita e, na maioria das vezes, falsa. Surge, daí, um mal-estar que vem não da falta, mas do excesso: de estímulos, expectativas, cobranças por performance. Como lembra Elliot Aronson, somos animais sociais: buscamos aceitação e pertencimento para alcançar a felicidade. Quando laços e vínculos afetivos dependem de likes nas redes sociais, notas na escola e bajulação no ambiente de trabalho, a mente vira um campo minado.
Habitamos a era da hiperconexão, onde dispositivos de poder nos controlam através de tecnologias sutis. Os algoritmos invadem até os cantos mais íntimos do pensamento. A vigilância moderna não usa grades, mas métricas: seguidores, engajamento, visualizações. Quem não se adequa aos padrões é apagado, sujeito a mortes simbólicas no mundo digital.
Para quem vive entre o real e o virtual, o sofrimento é contraditório: tudo é exposto, mas nada é, de fato, compreendido. A dor é tratada com filtros e colocada nas vitrines em busca de engajamento, mas raramente é reconhecida como fruto de um sistema doente.
Entre os jovens de maior poder aquisitivo, pertencer virou uma competição mesquinha e perversa. Inclusão não é mais sobre acolhimento, mas sobre acessar certas bolhas promovidas por influenciadores que vendem estilos de vida. Christian Dunker ensina: a solidão contemporânea não é a da rua vazia, mas a da timeline cheia de coraçõezinhos que pouco significam. No shopping, no aeroporto, na praia, na balada – é a tela rasa, plana e impenetrável que ilude pessoas vazias a buscar completude nas virtualidades.
Os afetos estão em crise. Emojis simplificam e empobrecem a expressão de sentimentos complexos, enquanto reacts substituem precariamente interações espontâneas.
González Rey lembra que o amor, o ódio e o desejo não são biológicos — são manifestações psicossociais construídas coletivamente. E quando as relações viram transações (seguir para ser seguido, curtir para ser aceito, se expor para ser percebido), os sentimentos se esvaziam. Cresce uma fome emocional que as microrrecompensas de joguinhos viciantes não saciam.
Não por acaso as redes sociais viram palcos de performances exaustivas. Bandura mostrou que aprendemos por imitação. Hoje, modelos de padrão comportamental reproduzem cada vez mais uma lógica mercenária onde vale tudo para buscar atenção e engajamento enquanto, dos bastidores, as big techs coletam e vendem dados. A consequência disso tem se manifestado numa geração que internaliza ideais inalcançáveis e se pune, fragilizada e reativa, por não atingi-los.

O neoliberalismo piora tudo com o discurso distorcido da meritocracia. Se você sofre, falha ou erra, a culpa é exclusivamente sua. Para fugir dessa culpa ou da responsabilidade de enfrentar o sofrimento, a falha e o erro (consequências naturais dos processos de desenvolvimento), os jovens se escondem nos porões virtuais – do consumo, das apostas, da ostentação, da pornografia, do negacionismo, do sectarismo, da intolerância, do identitarismo.
Elliot Aronson chama isso de dissonância cognitiva: ao invés de reconhecer as contradições entre convicções, crenças e modelo ideal de mundo e aquilo que de fato existe e é praticado no mundo externo às telas, a juventude tem se perdido no abismo entre percepções subjetivas e a análise crítica sobre a realidade. O sofrimento psíquico tende a ser proporcional a esse vácuo simbólico à medida em que ele começa a ser percebido.
Jovens privilegiados não estão passando fome, nem lutando guerras, tampouco minerando carvão, cortando cana sob o sol quente ou passando horas a fio trabalhando em fábricas insalubres. Mas sofrem pensando em como planejar um futuro quando o presente já parece um filme distópico.
A geração Z é a prova viva do fracasso da promessa neoliberal, bancada e perseguida por mães e pais que seguem exaustos, correndo e dopados, como já escreveu Eliane Brum, buscando a liberdade que lhes foi prometida como recompensa por uma vida de devoção ao trabalho.
Nativos digitais foram criados na cultura do instantâneo: tudo parece rápido, fácil, descartável. Todavia, sentido, amor e reconhecimento genuíno não vêm em toques nas telas. Quando necessidades psicoemocionais não são atendidas, a crise explode em pensamentos intrusivos, sabotadores, autodestrutivos, Medicalização e coaching são estratégias oportunistas para lucrar com a crise existencial que se alastra, ao invés de combatê-la.
Na cultura dos privilégios, o individualismo é virtude. Crianças egocêntricas e hiper-frágeis virando adultos mimados e ególatras, que querem consumir felicidade. Dunker mostra como o capitalismo transformou até a dor em produto: compra-se espiritualidade instagramável, autoestima em trends virais, independência emocional em podcast. Quando sentimentos viram mercadorias, perdemos a capacidade de criar significados reais, que nascem do conflito, da pausa, da escuta e do pensamento profundo.
Mas (ainda) há saídas. As mais plausíveis exigem justamente o que o sistema mais odeia: coletividade. Solidariedade para frear o narcisismo. Pensamento crítico para questionar os scripts algorítmicos. Disciplina não como obediência cega, mas como exercício consciente de liberdade ao refletir sobre como agir, o que consumir, pelo que lutar, quais causas defender. Pensar antes de seguir padrões, questionar usando o bom senso no lugar do ChatGPT, cooperar ao invés de competir.
A angústia da geração Z pode ser um legado importante se virar combustível para mudança. O sofrimento dos privilegiados, afinal, fará deles tomadores de decisões incapazes de materializá-las ou, potencialmente, criadores de um mundo diferente daqueles em que nasceram. Do vazio existencial pode (re)nascer a criatividade humanizada, lembrando que o afeto não vem com wi-fi e mesada não deve ser recompensa por trapaça para conseguir notas no colégio. Achar caminhos no excesso de coisas desnecessárias em direção àquilo que realmente importa é uma reconexão necessária que nada tem a ver com a internet.
Em tempo: do outro lado, a luta dos explorados e silenciados segue voraz e veloz, mesmo invisibilizada e reprimida, porque a fome não espera, e, na eventual ausência de soluções que costumam partir dos que historicamente monopolizam o controle das Instituições, caminhos subversivos apontam para direções imprevisíveis e, em algum momento, inevitáveis.
Luis Felipe Valle é professor universitário, geógrafo, mestre em Linguagens, Mídia e Arte, doutorando em Psicologia.







