Rara leitora, raro leitor, a frase de abertura do filme Furiosa, da saga Mad Max é “Enquanto o mundo desmorona ao nosso redor, como enfrentar a sua crueldade?”
Caem bombas em Gaza, no Irã, em Israel, na Ucrânia. Tombam corpos na Venezuela, no Haiti, no Sudão do Sul, no Congo, em Myanmar. Desaparecem almas em todos os países do mundo, não há mais lugar seguro para se viver. Guerra contra as populações; guerra total.
E dizem foi a “colaboração”, a capacidade de colaborar que nos trouxe até aqui como espécie. No entanto, a maior capacidade/invenção que o ser humano forjou foi a guerra. Claro que na guerra há colaboração, estratégia, mas são apenas consequências de nosso instinto bélico.
Erguem-se trincheiras, corpos caem. Infinitas guerras de religiões, de fé; do petróleo, da água; a guerra nuclear. A guerra sempre existiu; existe; e sempre existirá. Um evento depois do outro. Guerra dos seis dias; dos 100; dos 1000 dias; norte x sul; ocidente x oriente; olho por olho; dente por dente; a raiva alimentada pela dor. Riqueza por pobreza. Não, nunca vamos aprender; pois a guerra corre nas nossas veias. É a guerra da vida, pela vida.
Somos uma espécie invasora e invasiva, que se expandiu por todo planeta. Matamos 100 milhões em 30 anos. Mas queremos bater o recorde. Levantam-se drones, abatem-se corpos.
Alguns querem matar, e parece que uma grande parte anseia por este domínio da morte. Há pessoas sedentas por sangue; elas querem, elas pedem, elas votam! Matem-nos, privem-nos de nossos direitos, separem nossas famílias, façam-nos miseráveis. É o mesmo espírito cruel que paira sobre as populações, reaparecendo depois de algumas décadas. Não importa quem irá prometer a solução dos problemas, mas o povo quer promessas. Que sejam vãs! Eles vão votar nos Hitlers do novo século, nos sanguinários que veem a morte como um dom que eles querem dividir com a humanidade.
Nossa capacidade de matar e destruir aumenta a cada dia. Matam com a guerra; pela guerra. Investindo na guerra, deixam milhões a morrer de fome e na miséria – cometem um duplo assassinato.
Só nos restaria tentar viver o “agora”, a última ocasião para a vida. Mas roubaram o nosso futuro e deixaram-nos um presente intolerável. E com isso, melhoraram somente o passado. O mundo nunca foi bom. Mas prefiro como era antes. O próximo dia chegará. O ano que vem virá. Vocês veem alguma esperança? N-NÃOOOOO! “Esperança? Não temos esperança. Apenas planejamos.” (é outra frase do mesmo filme).
Preparo-me para o ruim; mas virá o ainda pior. O medo é tudo o que nos sobra. A parcela de CO2 que pretendem eliminar somos nós.
Construam mais fábricas e abram mais empresas. Acirrem a competição. Invistam mais em armas. Destruam mais nas guerras.
Explorem, matem, destruam!
A morte está próxima. Sempre perto. Cada dia mais se aproxima. Quando morrem os sonhos e a vontade de evoluir, é o fim da nossa jornada.
A condição humana forja a condição do planeta. O meio social desagregado gera uma consciência social desesperada.
Os dias são noite, mais escuros que as trevas.
Servem-se do terror, dos cadáveres.
Serve a revolução.
Sobre Gaza: destruíram um território, um povo, O que esperam plantar em todos? O sentimento de vingança. Uma criança que sofre tudo isso não poderá crescer senão desejando o troco contra quem lhe roubou a infância e lhe privou dos sonhos. Imagine o que é acordar e amaldiçoar cada dia de sua existência por falta do mínimo, de tudo, e principalmente, de esperança.
Gustavo Gumiero é Doutor em Sociologia (Unicamp) e Especialista em Antigo Testamento – gustavogumiero.com.br – @gustavogumiero







