Num primeiro olhar, a diferença entre ser e ter parece mínima, contudo a distinção real é profunda e reveladora. Vivemos em uma cultura onde o objetivo supremo, muitas vezes, é ter cada vez mais bens, títulos, status, o que pode nos aprisionar ao supérfluo, desviando-nos do essencial, daquilo que realmente importa. Como bem escreveu Erich Fromm no livro “Ter ou Ser” (1976): “A sociedade moderna está orientada para a posse, e isso impede a realização plena do ser humano.”
A essência do ser reside na capacidade de observar, analisar e valorizar cada detalhe da vida, das relações e da própria existência. Ter, por outro lado, pode ser algo passageiro, circunstancial, volátil.
Os grandes mestres da humanidade sempre destacaram a importância de nutrirmos o espírito, a mente e o coração. Sócrates já dizia: “Conhece-te a ti mesmo”, um convite ao autoconhecimento e à reflexão interna — pilares do ser. Contudo, fica o questionamento: estamos verdadeiramente atentos a esse caminho? Ou nos deixamos levar pelo apelo incessante do consumo e do descartável?
Buda ensinou que, para alcançar o estágio mais elevado do desenvolvimento humano, é necessário desapegar-se do desejo de possuir. Da mesma forma, o cristianismo, o islamismo e outras grandes tradições espirituais apontam que o amor e o respeito ao próximo são os valores mais nobres. No entanto, basta olharmos para o noticiário para perceber que estamos distantes desse ideal. As guerras, os conflitos e o aumento das desigualdades mostram que, globalmente, seguimos priorizando o ter em detrimento do ser.
De que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro, se não sabe o que fazer com sua vida ou como viver de forma plena?
Devemos estar atentos a algo que parece dominar muitos líderes e políticos contemporâneos: o VEGA — Vaidade, Ego, Ganância e Arrogância. Esses quatro elementos, quando combinados, tornam-se uma fórmula tóxica que conduz sociedades à desumanização, à polarização e ao colapso ético. Se os líderes continuarem priorizando seus próprios interesses, deixando que o VEGA dite as regras, dias piores certamente nos aguardam.
O poder, o luxo e o status podem tornar-se vícios, prisões invisíveis. A maior dessas correntes, hoje, é o materialismo desenfreado. Quando nosso foco deveria ser tornarmo-nos mais humanos, empáticos e conscientes, o que vemos é uma luta incessante, muitas vezes sem qualquer forma de respeito pelo ser humano em suas múltiplas dimensões — social, emocional e espiritual.
Em paralelo aos desafios existenciais que enfrentamos, persistem guerras devastadoras que marcam este sombrio capítulo da história contemporânea. A invasão russa à Ucrânia intensificou-se recentemente com novos ataques em larga escala, provocando mais destruição e sofrimento. No Médio Oriente, após ataques mútuos entre Israel e o Irã, um cessar-fogo temporário trouxe alívio, mas o clima permanece tenso e o discurso agressivo continua. Já no Sudão, a guerra civil alastra-se há mais de dois anos, com milhões de deslocados e uma crise humanitária sem precedentes, agravada pela fome e pela destruição de infraestruturas essenciais.
Estes conflitos são dolorosos lembretes de quanto o “ter” — poder militar, ambição territorial, domínio geopolítico — continua a prevalecer sobre a compaixão, a dignidade humana e a cooperação, corroendo os princípios mais profundos do “ser”.
O que deveria, de fato, nos mover seria a compaixão e o desejo sincero de construir uma sociedade onde todos sejam valorizados e respeitados. O simples, muitas vezes, vale infinitamente mais do que o sofisticado, porque carrega consigo autenticidade, verdade e conexão.
Nestes dias tão complexos, é urgente encontrar novos caminhos que passem pelo diálogo, pela empatia e pela compaixão, para que possamos viver em um mundo mais humano, mais justo e mais sustentável. A escolha entre ser e ter não é apenas uma questão filosófica, mas uma decisão diária, individual e coletiva, que definirá o futuro da humanidade.
Luis Norberto Pascoal é empresário e presidente da Fundação Educar







