Uma cidade com vocação solidária, que brilha quando é ousada, e que se transformou em um dos principais polos científicos e tecnológicos do Brasil. A Campinas que conhecemos, a de hoje e aquela que sempre tem um pé no futuro, foi moldada com a enorme e amorosa contribuição de Eduardo de Barros Pimentel, cujo falecimento foi anunciado na manhã desta quinta-feira.
Um verdadeiro gentleman, um lorde inglês em simpatia e elegância, um cidadão do mundo, um brasileiro que amava o seu país e fez muito por ele. Assim conheci o Dr.Eduardo, com quem mantive muitas horas de conversa, para minhas pesquisas sobre a história de Campinas e sobretudo das duas instituições que ajudou a criar, a Unicamp e a Fundação FEAC. Campinas e o Brasil ficaram muito mais pobres com sua partida, mas seu legado é incomensurável e continuará servindo de inspiração para aquelas pessoas que realmente pensam e agem pelo bem comum, muito acima de seus interesses pessoais, corporativos e políticos.
Pimentel e a fundação da Unicamp – Homem de múltiplos talentos, Eduardo Pimentel era engenheiro pelo Mackenzie e administrador de empresas pela Fundação Getúlio Vargas. Chegou a Campinas no final da década de 1950 com a família, tendo aceito o convite para dirigir a Fábrica de Fogões Dako. Em 1959, ingressa no Rotary Club de Campinas Norte e a sua atuação neste clube de serviços o levou ao protagonista de alguns dos movimentos mais importantes da história local.
Passou a atuar, por exemplo, no Conselho das Entidades de Campinas, um fórum permanente que reunia as principais organizações da cidade. Um exemplo de diálogo e ação articulada, que infelizmente foi perdido com o crescimento da metrópole.
No Conselho das Entidades, Eduardo Pimentel logo se integrou ao movimento que visava a instalação de uma Faculdade de Medicina em Campinas. Esse desejo era antigo, datava dos artigos que o jornalista Luso Ventura publicou em meados da década de 1940.
Em 1958, haviam sido criadas, no papel, faculdades de Medicina em Catanduva, São José do Rio Preto, Botucatu e Campinas. O governador Jânio Quadros criou então um grupo de trabalho que verificasse as condições para instalação das faculdades nessas cidades. O grupo era presidido por Zeferino Vaz e o parecer foi que Botucatu, e não Campinas, poderia receber a desejada Faculdade de Medicina. Um dos argumentos contrários a Campinas era sua proximidade com São Paulo, onde já existiam escolas semelhantes.
Mas Campinas reagiu e intensificou uma campanha no âmbito do Conselho das Entidades. Foi formada uma comissão, presidida por Eduardo Pimentel, para conduzir as conversas com o governo estadual e outras instâncias.
À frente da comissão, Pimentel apresentou um plano de trabalho com várias frentes, de mobilização, questões jurídicas e financeiras e outras. Era um modelo bem próximo ao que seria utilizado depois na criação da Fundação FEAC.
De fato, a cidade toda se engajou na campanha e no final de 1962 Pimentel foi recebido por Carvalho Pinto, sucessor de Jânio no Palácio dos Campos Elíseos, então a sede do governo estadual. O governador foi direto:
__ Dr.Pimentel, não vou lhe dar uma faculdade, mas uma universidade.
Pimentel brincou com o governador:
__ Senhor governador, eu não reclamo. Quem pede menos e recebe mais não tem porque reclamar.
Carvalho Pinto apresentou uma condição para a criação de mais uma universidade estadual em Campinas. Que a Faculdade de Medicina, a primeira unidade, fosse logo instalada. Havia o temor de que na mudança para o novo governo estadual, em fevereiro de 1963, e portanto em novas condições políticas, houvesse uma decisão contrária à criação da outra universidade pública no estado.
Pimentel aceitou a condição e logo garantiu a instalação provisória da Faculdade de Medicina na Maternidade de Campinas, onde de fato funcionou por algum tempo. A aula inaugural da faculdade, em 1963, já aconteceu na Maternidade. Depois, a Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp funcionaria, entre 1965 e fevereiro de 1986, na Santa Casa de Campinas, até a conclusão de suas instalações no campi em Barão Geraldo.
A nomeação do mais famoso reitor da Unicamp também teve a contribuição de Eduardo Pimentel, que indicou para o governador Ademar de Barros (sucessor de Carvalho Pinto) o nome de Zeferino Vaz, justamente aquele que tinha ficado conhecido pelo veto a Campinas.
Em função de sua posição anterior, Zeferino estava reticente em assumir a reitoria. Com sua forte inclinação para o diálogo, sempre com argumentos apresentados com leveza e firmeza ao mesmo tempo, Pimentel teve sucesso em seu gesto e o resto é história. Sob a liderança de Zeferino Vaz, a Unicamp deu largos passos para ser aquela universidade destinada ao brilho e a liderar o polo científico e tecnológico de Campinas e região. A data oficial de fundação da Unicamp é 5 de outubro de 1966, quando foi lançada a pedra fundamental do campus em Barão Geraldo.
A criação da FEAC – A mesma visão e o sentido de organização foram empregados por Eduardo Pimentel no movimento que resultou na criação da Fundação FEAC. Em sua passagem pela Comissão de Serviços à Comunidade e, depois, na presidência do Rotary Campinas Norte, ele teve a oportunidade de enviar correspondências a clubes rotários em todo o mundo.
Ele queria saber como era a ação social em diferentes países, para identificar um modelo que pudesse ser adotado em Campinas, respeitada a realidade local. Na campanha que liderou por mais recursos para a Maternidade de Campinas, em 1962, ele havia identificado os enormes desafios para a ação social na cidade.
Em sua ampla pesquisa, Pimentel identificou duas ações nos Estados Unidos que, adaptadas às condições de Campinas, poderiam ser inspiradoras para a cidade. Uma era o Fundo Unido, uma instância que unificava recursos sociais para investimento em ações estratégicas, evitando-se a duplicidade de esforços e o desperdício. A outra era a Caixa Comunitária, que buscava unir organizações, lideranças comunitárias e forças locais visando ações comuns, de fato transformadoras.
Pimentel levou essas ideias ao Conselho das Entidades de Campinas, que se reunia geralmente na Associação Comercial e Industrial, liderada por Ruy Rodrigues, outro empresário com visão ampla. Nas reuniões do Conselho as propostas de Pimentel ganharam força e evoluíram para a criação de uma instituição de ação social com perfil inovador no Brasil.
Nesse cenário houve a aproximação de Pimentel com o advogado Darcy Paz de Pádua, que tinha atuação no Lions Club e era vinculado à Faculdade de Serviço Social da futura PUC-Campinas. Os dois, Pimentel e Paz de Pádua, foram encarregados de redigir os estatutos da futura instituição que uniria a ação social em Campinas.
No dia 20 de janeiro de 1964, as propostas foram apresentadas em reunião na ACIC. Aprovadas, foram constituídas 14 comissões de trabalho. O movimento de novo empolgou Campinas e, na volta de uma viagem a Buenos Aires, onde foi a trabalho pela Bendix, onde já atuava, Eduardo Pimentel recebeu uma ligação de Lafayette Álvaro.
Ex-prefeito de Campinas, proprietário rural, Lafayette consultou Pimentel sobre o interesse em unificar a futura instituição em processo de criação com a Fundação Odila e Lafayette Álvaro, que havia nascido em 1958. Essa Fundação contava com um patrimônio, a Fazenda Vila Brandina, que passaria a ser utilizado para a ação social após a morte do casal. Lafayette apresentou apenas uma condição, a de que a primeira diretoria da nova organização, eventualmente resultante da fusão, fosse presidida pelo presidente da Fundação Odila e Lafayette Álvaro.
Pimentel levou a proposta ao conjunto de envolvidos e ela foi aprovada. No dia 14 de abril de 1964, aconteceu a assembleia geral oficial de criação da Fundação FEAC – Federação das Entidades Sociais de Campinas/Fundação Odila e Lafayette Álvaro. O primeiro presidente da diretoria era Edmundo Barreto, que presidia a Fundação Odila e Lafayette Álvaro. Eduardo Pimentel foi o primeiro vice-presidente e Darcy Paz de Pádua, o segundo vice-presidente.
Depois da fase de transição, a primeira diretoria definitiva da Fundação FEAC seria presidida pelo próprio Eduardo de Barros Pimentel, tendo Darcy Paz de Pádua na vice-presidência. Logo a FEAC recebeu suas primeiras entidades sociais filiadas, que se constituíram a raiz, a base sólida da nova organização, inovadora ainda hoje em ação social no Brasil e que depois teria no desenvolvimento da Fazenda Vila Brandina a sua principal fonte de recursos.
O Dr. Eduardo Pimentel permaneceria pouco tempo em Campinas. Logo ele voltou à sua São Paulo natal, para atuar no mundo empresarial e também na comunidade rotária, enquanto a FEAC prosseguia sua história de sucesso sob a liderança de Paz de Pádua e, depois, de vários outros homens voltados efetivamente para o bem comum. Sob a liderança do empresário Luis Norberto Pascoal, por exemplo, a Fundação FEAC passou a olhar com maior ênfase para a educação, a grande plataforma de real transformação e construção social.
Pimentel foi presidente da Fundação Rotarianos de São Paulo de 1997 a 2013. Nesse período, entre tantas ações, foi o grande incentivador da estruturação das Faculdades Integradas Rio Branco, um salto na atuação educacional da Fundação, que já mantinha o lendário Colégio Rio Branco da avenida Higienópolis e, depois, na unidade da Granja Vianna. Também foi presidente da Comissão Interpaíses Brasil-Portugal e Países de Língua Oficial Portuguesa.
Muito realizador, que pensava e agia o tempo todo em como melhorar a ação social, onde estivesse. Mas acima de tudo, volto a dizer, Eduardo de Barros Pimentel era um grande ser humano, cuja herança de ideais civilizatórios permanecerá, dando frutos onde encontrar solo fértil.
José Pedro Martins é jornalista, escritor e consultor de comunicação. Com premiações nacionais e internacionais, é um dos profissionais especializados em meio ambiente mais prestigiados do País. E-mail: josepmartins21@gmail.com







