A adolescência e a juventude sempre foram momentos em que a vida pulsa em curiosidade, perguntas e descobertas. É nesse período que o impulso criativo se encontra com a coragem de imaginar novos mundos. No entanto, vivemos tempos em que essa força vital parece estar se atrofiando. Uma juventude insegura, superficial, cansada e ansiosa surge diante de nós, como se o encantamento pela vida estivesse ficando cada vez mais opaco diante das telas luminosas. O que está acontecendo?
A mercantilização da vida vem transformando saberes, habilidades e sonhos em produtos comercializáveis.
A lógica do mercado captura até mesmo as subjetividades: se não serve para gerar lucro, não serve para nada. Daí a sensação de cansaço existencial que ecoa nas falas de tantos jovens: exaustos, entediados, incapazes de se concentrar ou imaginar projetos de longo prazo. Vigotski lembraria que o ser humano cresce na tensão criativa entre si e o mundo. Mas como se desenvolver quando o mundo ao redor se reduz a vitrines intangíveis e distrações projetadas para capturar tempo e atenção?
O avanço de plataformas online, redes sociais e inteligência artificial trouxe a promessa de aproximação, diálogo e ampliação das relações afetivas. Mas, na prática, o que testemunhamos é a atrofia da reflexão crítica. O imediatismo da resposta, a avalanche de informações e a padronização algorítmica suprimem o tempo interno de elaboração que, como ensinou Luria, é condição para a formação do pensamento complexo. O cérebro humano se molda pela interação simbólica. Diante do assédio do sensacionalismo informacional, a imaginação, matéria-prima das funções superiores da mente, está minguando.
De um lado, jovens alienados por trabalhos ultraprecarizados que mal garantem a sobrevivência. De outro, jovens que buscam reconhecimento em algoritmos e filtros digitais, mais preocupados com validação estética do que com elaboração criativa e reflexões sobre realização pessoal. Ambos os lados, contudo, convergem para o mesmo ponto: a erosão da ambição de se projetar no futuro. Ao reduzir o cérebro humano a uma máquina de processar dados e executar tarefas, perderemos sua maior potência: a capacidade de criar futuros que ainda não existem.
A escola, espaço de emancipação intelectual e de mobilidade social, vive hoje uma encruzilhada. Sob ataques ideológicos, desvalorizada pelo discurso utilitarista, ameaça perder seu sentido profundo. Reinventá-la é urgente, mas não no sentido de adaptá-la ao mercado; e sim no de resgatar sua vocação humanizadora. Vigotski já dizia que aprender é expandir a consciência mediada pela cultura. A escola não pode se limitar a preparar para empregos precários, mas, sim, reafirmar-se como o lugar que possibilita, através do encontro, fomentar a criatividade, a imaginação, a tolerância, a disciplina, o raciocínio lógico, habilidades sociais, capacidades comunicativas, referências culturais, éticas e morais.
A educação, afinal, serve para quê? Muito mais do que treinar para tarefas técnicas, ela é o dispositivo histórico que permitiu o desenvolvimento biopsicossocial humano ao longo do tempo. Luria mostrou que o cérebro se organiza pela experiência cultural; Chomsky destacou que a linguagem é, ao mesmo tempo, estrutura de pensamento e ferramenta de liberdade. Educar, portanto, é cultivar a liberdade de imaginar, questionar e transformar. É isso que nos torna capazes de civilização, e não apenas de sobrevivência.
Se os espaços de construção do conhecimento forem corroídos pelo imediatismo digital e pelo esvaziamento cultural, veremos surgir gerações sem pensamento crítico, criativo ou disruptivo. Gerações treinadas para consumir, não para inventar. O perigo é evidente: sem imaginação coletiva, a humanidade se rende à mesmice, e o futuro passa a ser escrito não por sonhos, mas por algoritmos programados por especuladores que lucram com o medo, com a ignorância, com a insegurança, com a indiferença.
O discurso mágico do empreendedorismo individual, do fundamentalismo religioso e da falsa lógica meritocrática agravam a crise existencial da juventude. Não por acaso, esses mecanismos têm um inimigo comum: o pensamento crítico-reflexivo. Porque quem pensa demais não aceita ser manipulado. Quem reflete não se curva com facilidade. Quem sonha não se contenta com a mesquinhez do “cidadão de bem” que exalta ignorância como virtude e mede seu valor com criptomoedas e carros de luxo.

Nesse cenário, o capital cultural deixa de ser desejado e passa a ser ameaça. É como se pensar fosse perigoso, ler fosse perda de tempo, e se esforçar para pensar por conta própria fosse inútil. Uma inversão grotesca se instala: a exaltação da estupidez, a negação da ciência e o desprezo pela ambição existencial. Mas Bourdieu nos ensinou que o capital cultural é uma arma silenciosa de resistência. Recuperar o gosto pela leitura, pela arte e pelo conhecimento é, hoje, um ato político. É também uma forma de escapar da armadilha da superficialidade.
Conhecimento não se compra: se constrói. E se constrói nas tensões da experiência, no diálogo, no debate, no enfrentamento do desconhecido. Vigotski chamaria isso de síntese criadora. É nesse esforço que nasce o novo, que a subjetividade se fortalece e que a imaginação se torna motor de ação. A inteligência artificial pode até simular respostas, mas não sente, não atravessa contradições, não cria sentido. Só o humano é capaz dessa aventura arriscada e inspiradora.
Substituir a imaginação humana pelo cálculo algorítmico é condenar a humanidade a uma espécie de suicídio cultural. Nossa ambição existencial não pode se limitar a acumular fortunas ou conquistar curtidas, mas se orientar por um legado que ultrapasse a vida individual e imediata, através de ideias, descobertas, arte, solidariedade e movimento. Sem essa motivação, viramos apenas espectadores de uma enorme ilusão tecnológica incapaz de preencher o vazio existencial que parece cada vez maior, sobretudo nas pessoas mais jovens.
Mas o futuro não está dado. Ele não está fechado em linhas de código. Ele se abre nas escolhas de cada geração. O cérebro humano, como afirma Miguel Nicolelis, é a única tecnologia capaz de imaginar e projetar mundos inteiros que ainda não existem, mas que podem existir. Essa é a nossa maior revolução. Cabe à juventude decidir se será consumidora passiva de telas ou protagonista de futuros inéditos.
É preciso recuperar a ambição existencial! Voltar a sonhar grande, para além da ostentação material, e recusar a ideia de que tudo já está pronto.
É hora de criar, na coletividade do encontro e na riqueza da diversidade, possibilidades que não sejam ditadas por dogmas tecnológicos. E resgatar a coragem de reagir ao cansaço, ao tédio, à superficialidade, assumindo a responsabilidade sobre a aventura de pensar, sentir, imaginar, agir e subverter a prisão imaginária da pós-modernidade.
Talvez este artigo seja lido com indiferença, talvez com curiosidade, talvez com inquietação, ou sequer seja lido. Mas se ao menos um jovem se levantar da paralisia e decidir reivindicar o direito de sonhar, já terá surtido efeito. Porque, no fim das contas, não existe simulacro capaz de conter o desejo humano de transformar a si mesmo e ao mundo. O futuro não cabe em profecias, programação algorítmica ou apostas do mercado. Ele é consequência das escolhas e ações de quem ousa imaginá-lo e vivê-lo.
Luis Felipe Valle é professor universitário, geógrafo, mestre em Linguagens, Mídia e Arte, doutorando em Psicologia.







