A ascensão vertiginosa da Inteligência Artificial (IA) tem seduzido uma legião de estudantes pré-vestibulandos. Cansados da maratona de estudos e da falta crônica de tempo, muitos se renderam à febre do uso de IAs como atalhos para resumir conteúdos, criar resumos instantâneos e, supostamente, ‘otimizar’ a preparação. A promessa é tentadora: absorver conhecimento complexo com o mínimo de esforço e num tempo curto.
Entretanto, é crucial desmistificar o que está por trás da aparente mágica. Modelos de IA generativa, como ChatGPT, DeepSeek e Gemini, não são pensadores autônomos; são, em essência, buscadores sofisticados que processam e rearranjam informações da internet. O que eles produzem são textos superficiais e genéricos, baseados na probabilidade estatística de palavras sequenciais. Não há novidade, profundidade ou, mais importante, compreensão genuína sobre coisa alguma ali.
E é exatamente essa compreensão que os vestibulares modernos exigem! O processo de pensamento crítico e reflexivo é absolutamente necessário para a assimilação de conteúdos. Os exames de hoje abandonaram a simples cobrança de dados decorador e focam na capacidade de ligar pontos, enxergar nexos, perceber conexões, construir argumentos e analisar a realidade de maneira cada vez mais contextualizada e interdisciplinar. A IA pode te dar respostas, mas não te ensina o caminho para chegar a ela ou compreendê-la verdadeiramente.
Exames como o ENEM e vestibulares de instituições renomadas como Unicamp, USP e Unesp evoluíram muito nos últimos anos. Eles não se limitam a testar o que você memorizou, mas, sim, a sua capacidade de ler e interpretar textos, gráficos, mapas, tabelas, charges, notícias, poesia, letras de música e aplicar tudo isso à compreensão ampla de contextos complexos, contraditórios e subjetivos que compõem a nossa realidade social, histórica, cultural e científica.
A tendência de substituir a memorização pura pela leitura interpretativa crítico-reflexiva nos vestibulares reflete uma necessidade urgente do mundo real, manifesta tanto no mercado de trabalho quanto no convívio social. A sociedade do século XXI precisa de pessoas criativas, empáticas, capazes de pensar em soluções inovadoras para os problemas que nos afligem, e não de indivíduos passivos, dependentes de assistentes virtuais para tomar decisões ou articular ideias. O vestibular está filtrando o candidato que sabe pensar, e não apenas replicar informações.
A grande questão, que muitos tentam ignorar, é que as IAs, por mais que pareçam inteligentes e bem informadas, são intrinsecamente incapazes de produzir um pensamento profundo, dotado de significados mais complexos ou de juízo de valor. Elas também não conseguem, sozinhas, criar mecanismos pedagógicos que preparem, de fato, um estudante para o rigor mental exigidos pelos processos seletivos.
A estratégia mais recorrente e perigosa é tentar reduzir e condensar ao máximo os conteúdos programáticos por meio desses atalhos digitais. Isso fatalmente cria generalizações superficiais, que não sustentam uma análise mais detalhada dos temas, acontecimentos e do pensamento lógico-dedutivo avaliado. Pior: o uso indiscriminado dessa trapaça pode reforçar erros, vícios conceituais e imprecisões propagadas pelo senso comum que viralizam nas redes, mas que seriam facilmente detectados e corrigidos pelo estudo tradicional.
É preciso encarar a realidade: não há solução milagrosa na jornada do conhecimento. O processo de aprendizagem exige empenho, dedicação, concentração e, por isso, é, de fato, cansativo e incômodo. Assim como fazer exercícios físicos é fundamental para fortalecer o corpo, ganhar agilidade e resistência, o estudo genuíno é a única via para desenvolver seu intelecto e construir o repertório necessário para as provas – e para a vida!

Importante lembrar que o vestibular não deve ser percebido apenas como um exame protocolar ou burocracia obrigatória. É preciso encará-lo como uma etapa que, embora incapaz de avaliar a inteligência em seu sentido mais amplo, funciona como um teste válido de atenção, resignação, disciplina, organização e, sobretudo, persistência. É o primeiro grande desafio que exige a motivação intrínseca de uma pessoa em busca do acesso ao Ensino Superior, a uma formação profissionalizante e a tudo mais que a vida universitária pode proporcionar. Sem essa bússola interna, o fracasso se torna quase inevitável, pois o esforço parecerá demasiado diante de uma recompensa que não é verdadeiramente desejada.
Além disso, para manter o foco e a performance mental, é imprescindível reconhecer a importância do bem-estar. Sair das telas para fazer atividades ao ar livre, ler livros físicos, praticar exercícios, meditar, passear, se alimentar bem, ter uma boa qualidade de sono e se divertir é absolutamente necessário para manter a saúde física e mental exigida para encarar a intensidade do calendário de vestibulares. Da mesma forma, estudar em grupos, conversar sobre conteúdos, com professores e colegas, torna o processo muito mais agradável e produtivo.
A essência da relação ensino-aprendizagem é intrinsecamente humana. Ela advém do convívio e da produção coletiva, do encantamento pela descoberta, da relação afetiva e da motivação inspirada pelo conhecimento compartilhado por outro ser humano. É nesse contato real que as dúvidas se aprofundam, as ideias se chocam e a compreensão floresce.
A marcha do progresso científico e tecnológico é inevitável e, na maioria das vezes, bem-vinda, mas a euforia das novidades, principalmente aquelas que prometem soluções rápidas e fáceis demais para problemas complexos como a aprovação no vestibular, geralmente é um alerta para armadilhas que devem ser evitadas. Ainda que a tecnologia possa ser uma aliada na organização, a única inteligência capaz de construir um conhecimento sólido e prepará-lo para os desafios reais é a sua.
Luis Felipe Valle é professor universitário, geógrafo, mestre em Linguagens, Mídia e Arte, doutorando em Psicologia.







