Costuma-se dizer que o ócio é pai de muitos pecados, mas talvez o problema não esteja no tempo livre em si, e sim no que fazemos com ele. O ócio, por si só, não é nem virtuoso nem pecaminoso. É um espaço em branco, um intervalo. Pode ser janela para a criação ou armadilha da inércia. O que define esse tempo é o nosso olhar e, sobretudo, a nossa intenção.
A criatividade raramente floresce no puro vazio. Ela surge do movimento interno, da inquietação, da curiosidade provocada por ambientes desafiadores. Não basta estar parado esperando a genialidade aparecer. É preciso ter base, estímulo, contato com o novo e, claro, alguma dose de desconforto criativo.
O sociólogo italiano Domenico de Masi defende o conceito do “ócio criativo”, no qual o tempo livre seria um campo fértil para ideias, inovação e arte. É uma proposta interessante, mas exige maturidade, bagagem cultural e, acima de tudo, disciplina. Infelizmente, em muitos contextos, o tempo livre tem sido consumido de forma passiva, sem direção ou propósito. Basta olhar a nossa volta e ver o quanto as pessoas têm perdido tempo com as redes sociais, mas não se trata de demonizar o ‘entretenimento’, mas de reconhecer que, muitas vezes, estamos apenas matando tempo quando poderíamos estar dando vida a ele.
O filantropo Nizan Guanaes, em contrapartida, apresenta uma visão mais direta e pragmática: “Seja capaz de sonhar. Tudo que fica pronto na vida foi construído antes, na alma. Pense em realizar pelo prazer de fazer, não pela fortuna. Pense no seu país, porque, principalmente hoje, pensar em todos é a melhor maneira de pensar em si. Faça alguma coisa. É preferível o erro à omissão. O fracasso ao tédio. O escândalo ao vazio.”
É uma convocação à ação. Um chamado para a vida vivida com intensidade, com propósito, com entrega. Não se trata apenas de trabalhar por trabalhar, mas de perceber que somos feitos para realizar. O ser humano é movido a desafios. Quando não encontra um, inventa. É isso que nos impulsiona, que nos tira da zona de conforto, que nos leva a criar, construir, melhorar.
Ficar parado é desperdiçar a extraordinária oportunidade de ter vivido. A vida não cobra perfeição, cobra presença. Somos feitos para construir pirâmides e versos, descobrir continentes e sentimentos. Caminhar sempre com um saco de interrogações numa mão e uma caixa de possibilidades na outra.
Mesmo o erro, quando vem de uma tentativa sincera, é mais digno do que a paralisia. A vida é movimento. Entre ficar à toa e andar à toa, ande. Pois é no movimento que encontramos as pessoas, as obras do acaso, os desvios que nos transformam.
O Brasil, país de tanto talento e criatividade, não pode mais se acomodar. Temos tudo para ser potência, mas ainda tropeçamos na cultura da esperteza, do mínimo esforço. A mudança começa no indivíduo, na maneira como cada um encara o seu tempo, a sua rotina, a sua contribuição para o coletivo.
Trabalhe. Experimente. Reinvente. Ainda que digam que você está desperdiçando a vida com esforço demais. O tempo, senhor da razão, acabará por reconhecer o valor da sua dedicação. O sucesso verdadeiro não vem da pressa, mas da constância. O ócio, quando bem vivido, pode ser fonte de insight, sim, mas ele precisa de base. Sem propósito, ele é só distração. Com intenção, ele é pausa fértil.
Como diz o lema da Fundação Educar: os incomodados que mudem o mundo. Que sejamos, então, esses incomodados. Aqueles que não se conformam, que não esperam, que não assistem à vida passar. Aqueles que se levantam, questionam e agem. Porque mudar o mundo começa com o desconforto de quem se recusa a ficar parado.
Luis Norberto Pascoal é empresário e presidente da Fundação Educar







