Faz alguns dias que uma cena insiste em bater à porta da minha memória. Não foi o som de lataria que me marcou, nem o barulho seco do choque entre dois carros. Foi outro tipo de impacto, mais silencioso, mais profundo.
Era fim de manhã, trânsito quase normal na Moraes Salles, perto do Colégio Coração de Jesus. Eu estava no sinal vermelho, distraída com os pensamentos do dia, quando fui puxada de volta à realidade por gritos. Não foi a batida em si que chamou a atenção, mas o tom, carregado de fúria, de desprezo, de impaciência.
Um senhor, aparentando mais de 70 anos, havia encostado o carro no para-choque de outro veículo à sua frente. Um esbarrão, nada grave. Mas o motorista do carro atingido saiu transtornado, como se aquele leve amasso tivesse atingido o próprio ego. “Tava dormindo, velho? Velho não devia nem dirigir mais!”, ele gritava.
Fiquei ali, olhando sem querer acreditar. O idoso permaneceu calmo, mas vi seus olhos pesarem. Olhei também para a mulher ao lado dele, talvez a esposa, calada, frágil, como quem carrega o corpo e a alma cansados.
Foi então que o senhor saiu do carro e disse, com voz firme, porém contida: “Peço desculpas, mas preciso ir embora. Minha esposa tem horário na quimioterapia e não podemos nos atrasar.” Entregou os contatos, prometeu cobrir os danos. Mesmo assim, o outro motorista insistia em seguir o casal até a clínica, como se isso lhe desse algum tipo de justiça pessoal.

O semáforo abriu e eu fiquei com aquela cena na cabeça. Não pela batida. Mas pelo que ela revelou sobre a gente. A pressa, o julgamento fácil, a falta de empatia.
Às vezes, o barulho mais alto não vem da colisão entre dois carros, mas do choque entre dois mundos: o de quem grita e o de quem sofre em silêncio. E é nesse silêncio que, por vezes, moram as maiores dores e acredito as maiores dignidades.
O que vi naquele dia não foi apenas um desentendimento no trânsito. Foi uma agressão cruel contra quem carrega a vida no rosto e no corpo. Uma demonstração clara de etarismo, essa forma de preconceito que desumaniza pelo simples fato de alguém ter vivido mais.
Fiquei triste comigo por não ter parado o carro. Segui, e lembrei de uma frase de Simone de Beauvoir: “A velhice assusta, porque é a imagem do nosso próprio futuro.”
Talvez por isso muitos prefiram atacar do que acolher, julgar do que compreender.
Mas é bom lembrar: se tivermos sorte, todos nós um dia seremos velhos. E o mundo que construímos agora será o mundo que herdaremos depois.
Kátia Camargo é jornalista e ficou pensando num trecho da canção de Gilberto Gil que diz:
“Tempo rei, ó tempo rei, ó tempo rei/ Transformai as velhas formas do viver
Ensinai-me, ó Pai, o que eu ainda não sei”
Para escutar a canção completa:







