À medida que o ano se aproxima do fim, muitos percebem um incômodo silencioso que atravessa os dias: a sensação de fracasso. Não é um fracasso concreto, materializado em números ou resultados objetivos, mas aquele que nasce das promessas feitas em janeiro, promessas que, de algum modo, se tornaram testemunhas mudas das nossas quedas, interrupções e desvios ao longo do caminho. A psicanálise compreende essa experiência não como um erro de percurso, mas como um encontro inevitável com o próprio inconsciente, que sempre fala mais alto do que a agenda que montamos no entusiasmo de um novo começo.
Prometer, no início do ano, é também tentar domesticar o desconhecido. Criamos metas como quem tenta firmar um contrato com a versão idealizada de si mesmo. Mas é justamente no descompasso entre o eu ideal e o eu real que emerge o sentimento de insuficiência. Não cumprimos o que planejamos, e isso abre espaço para um retorno cruel do superego, que nos acusa, cobra e ridiculariza. Não é raro, nesse período, ouvir internamente uma espécie de tribunal íntimo: “Você falhou de novo.” A questão psicanalítica não é se falhamos ou não, mas por que criamos metas que desconsideram nossa própria verdade psíquica.
As perdas ao longo do ano, de projetos, relações, oportunidades, ânimo, não são sinais de incompetência, mas rastros de um sujeito em movimento. A psicanálise nos lembra que todo desejo é atravessado por contradições, resistências e repetições. E é nessas repetições que nos reconhecemos. O que chamamos de “quedas” são frequentemente retornos a padrões que ainda não elaboramos. Por isso doem tanto: não porque são inéditas, mas porque são familiares demais.
Provocar o leitor aqui é essencial: até quando você vai se manter refém da versão perfeita que inventou de si mesmo? Até quando vai medir sua existência em função de uma lista feita no impulso de um janeiro romantizado? Talvez o verdadeiro fracasso não seja cair, mas insistir em ignorar os movimentos profundos que moldam seus desejos. Talvez a vida já esteja tentando dizer algo (por meio das perdas) que você evita escutar.
O fim do ano não precisa ser um momento de cobrança. Ele pode ser um convite. Um convite para compreender por que você desejou o que desejou, por que abandonou o que abandonou, e por que algumas metas nunca foram suas de verdade. A psicanálise abre esse espaço de leitura: não um manual de produtividade, mas um encontro com aquilo que você realmente é, quando o barulho das expectativas cessa.
Talvez seja a hora de transformar o que hoje dói no que amanhã pode finalmente fazer sentido. Se você sente que carrega esse peso das promessas quebradas, das quedas repetidas e do sentimento íntimo de que poderia ter sido mais, convido você a dar um próximo passo, não em direção a mais metas, mas em direção a si mesmo.
Thiago Pontes Thiago Pontes é Filósofo, Psicanalista e Neurolinguísta (PNL). Instagram @dr_thiagopontes_psicanalista – site: www.drthiagopontespsicanalista.com.br







