Dentro de muitas empresas, o ano inteiro é atravessado por um clima silenciosamente adoecido, onde a cordialidade aparente convive com rivalidades não elaboradas, afetos recalcados e disputas que raramente são nomeadas. Sorrisos treinados escondem olhares que comparam, invejam e julgam, enquanto a psicanálise nos lembra que o ambiente de trabalho é também um palco privilegiado das projeções inconscientes, no qual o sujeito deposita no outro aquilo que não consegue sustentar em si mesmo. Posso contar com sua companhia para refletirmos sobre essa prática cultural e atual meu caro leitor, minha cara leitora? Que bom, então venha comigo, por gentileza.
A inveja surge quando o desejo do outro denuncia uma falta interna insuportável, e, incapaz de reconhecê-la, o indivíduo tenta diminuir, desqualificar ou apagar aquele que lhe serve de espelho. É nesse terreno que florescem as fofocas, funcionando como descargas pulsionais que aliviam momentaneamente a angústia. Fala-se do outro para não entrar em contato com o próprio vazio, constrói-se uma narrativa paralela para preservar uma imagem narcísica frágil, sustentada à custa da desvalorização alheia.
Nesse contexto, a falsidade deixa de ser exceção e passa a operar como estratégia de sobrevivência psíquica. Elogia-se em público, ataca-se em silêncio, estabelece-se um pacto implícito de normalidade artificial onde todos percebem o mal-estar, mas ninguém o nomeia.
O sofrimento é diluído na rotina, tratado como algo esperado, quase natural, enquanto pequenas violências simbólicas se acumulam ao longo do ano em forma de exclusões sutis, ironias disfarçadas de humor e silêncios punitivos.
Nada parece grave quando observado isoladamente, mas o conjunto corrói lentamente o sujeito, que adoece sem conseguir identificar a origem de sua exaustão. Quando o fim do ano se aproxima, surge o ritual do amigo secreto como uma tentativa coletiva de apagar o que foi vivido, como se a troca de presentes pudesse substituir a falta de vínculo, respeito e escuta. Embrulhos coloridos tentam encobrir meses de hostilidade, mas o inconsciente não se deixa enganar por gestos simbólicos vazios.
Força-se a ideia de união onde nunca houve laço, e pergunta-se, ainda que em silêncio, que tipo de amizade nasce da obrigação. O amigo secreto, muitas vezes, revela exatamente aquilo que se tentou esconder durante todo o ano, denunciando rivalidades, descasos e constrangimentos abafados por risos nervosos. Tudo precisa parecer leve, festivo e saudável, enquanto a empresa segue funcionando e o sujeito segue se fragmentando.
A psicanálise nos ensina que o que é recalcado retorna, e retorna em forma de sintomas, angústia, desmotivação e adoecimento psíquico. Nenhum ambiente é neutro para o psiquismo, e trabalhar não deveria significar suportar a violência travestida de normalidade.
Quando a falsidade se transforma em cultura, o sofrimento vira regra, e talvez a pergunta não seja sobre o presente trocado, mas sobre aquilo que foi roubado ao longo do ano: o respeito, o reconhecimento e a dignidade.
Chamar de amigo não torna alguém amigo, assim como nomear um ritual não transforma o real. Até quando será possível sustentar essa encenação coletiva sem consequências? Talvez o maior presente não esteja na troca obrigatória de fim de ano, mas na coragem de encarar a verdade que ninguém quer ouvir.
Thiago Pontes Thiago Pontes é Filósofo, Psicanalista e Neurolinguísta (PNL). Instagram @dr_thiagopontes_psicanalista – site: www.drthiagopontespsicanalista.com.br







