Não há como amenizar o fato de que 2025 foi um ano que alterou drasticamente o campo da saúde através do mundo. Cortes no financiamento interromperam abruptamente programas essenciais de saúde pública em todo o mundo, bloqueando bilhões de dólares destinados a programas de HIV, tuberculose, saúde reprodutiva e relacionados ao clima, deixando milhões de pessoas sem serviços essenciais. O financiamento proveniente de doações dos EUA também diminuiu drasticamente, o que significa que programas destinados a gerar evidências para fundamentar programas eficazes de prevenção e tratamento em saúde pública perderão informações cruciais sobre o que funciona em um cenário de desafios de saúde pública em constante mudança.
Devemos alertar para o fato de o ativismo antivacina ter se tornado uma força letal importante. Centenas de especialistas em saúde pública estão preocupados com o fato de uma das ferramentas mais eficazes, as vacinas, estar sendo cada vez mais prejudicada por campanhas de desinformação e informações falsas. Este fato é tão grave que, em minha opinião, poderia ser criminalizado pelos prejuízos que trazem, principalmente, para nossas crianças.
Outra preocupação, após muitos meses de desestabilização do financiamento da saúde global, bolsas de pesquisa, programas de pós-graduação e outras áreas, deixou muitos na comunidade de saúde com um certo sentimento de impotência: o que fazer agora? Estes fatos nos incentivam a romper com os limites habituais do nosso pensamento e nos lembra que o espaço para soluções diminui ou aumenta dependendo de quem colocamos no centro das atenções. Quando fazemos essas perguntas intencionalmente e agimos de acordo com as respostas, desvendamos soluções verdadeiras.
Como os defensores dos pacientes, as pessoas com deficiência, os povos indígenas, e os ativistas da AIDS costumam nos lembrar: “Nada sobre nós, sem nós.” Outra preocupação relevante está em relação as discrepâncias salariais entre homens e mulheres na área da saúde. Em contraste com os compromissos e o reconhecimento dos esforços em prol da equidade, diversidade, inclusão e igualdade de gênero, há grandes e persistentes disparidades salariais entre homens e mulheres, apesar das promessas de tentar eliminar essa disparidade.
Mesmo já estando em 2025 – ainda temos um longo caminho a percorrer para alcançar a verdadeira equidade de gênero e, é necessária uma ação intencional para corrigir os desequilíbrios históricos de poder e econômicos arraigados em nossos sistemas.
Alguns outros temas devem fazer parte de nossa constante reflexão e ação:
Equidade e justiça são fundamentais: As pesquisas têm se concentrado cada vez mais nos determinantes sociais, nas barreiras estruturais, nos direitos humanos e nas desigualdades sistêmicas — e não apenas nos indicadores de doenças;
Geografias diversas, desafios diversos: Desde os desafios decorrentes das mudanças climáticas, deslocamentos causados por conflitos ou guerras, impactos dos determinantes comerciais da saúde ou exposições ocupacionais em ambientes industriais, a produção editorial em saúde em 2025 refletiu todo o espectro dos contextos de saúde global;
Abrangência metodológica: Epidemiologia quantitativa, métodos mistos, ciência da implementação, estudos de custo-efetividade e análises qualitativas são ferramentas essenciais, permitindo percepções sutis e sensíveis ao contexto e finalmente;
Ameaças emergentes à saúde: Doenças não transmissíveis, riscos ambientais, exposições crônicas e a compreensão de como a IA está moldando a saúde pública têm sido temas recorrentes.
Outro grande assunto é ligado ao tempo que os adolescentes passam em frente às telas como isto interfere em múltiplos ciclos do sono e agrava os sintomas depressivos.
Estudos mostram que, o tempo excessivo gasto em frente às telas entre adolescentes impacta negativamente em múltiplos aspectos do sono, o que, por sua vez, aumenta o risco de sintomas depressivos — particularmente entre as meninas. Demonstrou que o tempo gasto em frente às telas e na internet pode deteriorar o sono em pelo menos quatro aspectos centrais simultaneamente: qualidade do sono, duração, crono tipo e jet lag social, com potenciais impactos na aprendizagem, na saúde mental e no desenvolvimento social.
Outro aspecto relevante de nossa reflexão diz respeito as estruturas existentes relacionadas à saúde planetária, concebidas para orientar os sistemas de saúde rumo à sustentabilidade ambiental e à resiliência climática.
Autores constataram que a maioria das estruturas é conceitual e varia amplamente. Podem ser agrupadas em seis domínios principais: interações entre o sistema de saúde e o meio ambiente, liderança e visão, componentes estruturais, infraestrutura resiliente ao clima, tecnologias sustentáveis e mecanismos de responsabilização. Autores concluem que são necessárias estruturas mais específicas para cada região, operacionais e inclusivas — especialmente aquelas que incorporam biodiversidade — para apoiar uma transformação significativa da saúde planetária nos sistemas de saúde.
Um último tema diz respeito à Cobertura Universal de Saúde, sua importância e como ela pode ser implementada em diferentes contextos.
Esta cobertura é frequentemente definida de forma inconsistente, mas que seu princípio fundamental se baseia na equidade, na proteção social e na cobertura abrangente de serviços, apoiada por mecanismos como acesso à saúde, proteção social, sistemas digitais, fortalecimento da atenção primária (ou básica) e compromisso político.
Tais elementos são fundamentais para melhorar a saúde da população e reduzir a desigualdade. Sua implementação permanece desigual e requer maior vontade política, definições mais claras e investimento contínuo para se tornar verdadeiramente universal. O nosso SUS pode e deve ser constantemente aperfeiçoado para alcançar cada vez mais este objetivo de acesso universal à saúde.
Carmino Antônio De Souza é professor titular da Unicamp. Foi secretário de saúde do estado de São Paulo na década de 1990 (1993-1994) e da cidade de Campinas entre 2013 e 2020. Secretário-executivo da secretaria extraordinária de ciência, pesquisa e desenvolvimento em saúde do governo do estado de São Paulo em 2022, Presidente do Conselho de Curadores da Fundação Butantan, membro do Conselho Superior e vice-presidente da Fapesp, pesquisador responsável pelo CEPID CancerThera da Fapesp.







