Vivemos um tempo marcado pelo excesso. Excesso de informações, de cobranças, de responsabilidades e de expectativas. Em meio a uma rotina acelerada, muitas pessoas seguem funcionando, cumprindo tarefas e respondendo às exigências externas, enquanto internamente algo começa a falhar.
Ansiedade, angústia, tristeza persistente, sensação de vazio e esgotamento emocional tornaram-se cada vez mais frequentes, revelando um cenário preocupante de adoecimento psíquico. É nesse contexto que a campanha Janeiro Branco ganha relevância e urgência, ao propor uma pausa simbólica para refletir sobre a saúde mental e emocional.
O Janeiro Branco não surge como uma promessa de felicidade imediata ou soluções rápidas para o sofrimento humano. Pelo contrário, ele convida à reflexão profunda sobre aquilo que tem sido silenciado ao longo do tempo.
Em uma sociedade que valoriza o desempenho constante e a ideia de que é preciso estar bem o tempo todo, admitir fragilidade ainda é visto como sinal de fraqueza. A campanha rompe com esse discurso e legitima o sofrimento como parte da experiência humana, abrindo espaço para a escuta, o cuidado e o autoconhecimento.
Sob a perspectiva da psicanálise, as chamadas doenças emocionais não são vistas como falhas individuais, mas como expressões de conflitos psíquicos que não encontraram possibilidade de simbolização. O sintoma, longe de ser um inimigo a ser combatido, é compreendido como uma linguagem do inconsciente. Ele comunica algo que o sujeito não conseguiu dizer de outra forma. Quando a palavra falta, o sofrimento encontra outros caminhos para se manifestar, seja no corpo, nas relações ou na forma de angústia constante.
A importância do Janeiro Branco está justamente em devolver dignidade à fala. Falar sobre saúde mental é reconhecer que cada sujeito carrega uma história singular, atravessada por experiências, perdas, desejos e frustrações. Não existe sofrimento genérico, assim como não existem soluções universais.
A psicanálise ensina que aquilo que não é elaborado tende a se repetir, muitas vezes de maneira cada vez mais intensa. Por isso, criar espaços de escuta é também uma forma de prevenção.
Em tempos em que o adoecimento emocional cresce silenciosamente, cuidar da saúde mental torna-se um ato de responsabilidade e coragem. O Janeiro Branco nos lembra que não é possível seguir ignorando os sinais do próprio sofrimento sem pagar um preço psíquico alto.
Cuidar da mente é cuidar da vida, das relações e do próprio sentido de existir. Buscar ajuda não significa desistir, mas escolher não enfrentar tudo sozinho. Se ao longo desta leitura algo ressoou em você, talvez este seja o momento de escutar com mais atenção aquilo que tem insistido em aparecer.
Thiago Pontes Thiago Pontes é Filósofo, Psicanalista e Neurolinguísta (PNL). Instagram @dr_thiagopontes_psicanalista – site: www.drthiagopontespsicanalista.com.br







