Na perspectiva da psicanálise, a vida psíquica é atravessada por marcas. Algumas são lembranças afetuosas; outras cicatrizes deixadas por perdas, frustrações e dores que, em seu tempo, pareceram insuportáveis. Diferentemente das feridas abertas, as cicatrizes indicam que algo foi atravessado: houve dor, houve impacto, mas também houve trabalho interno suficiente para que a ruptura não permanecesse sangrando.
Elas não são a negação do sofrimento, e sim o registro de que o sujeito sobreviveu a ele (e escrevo isso com uma enorme em meu crânio, advinda de uma cirurgia para epilepsia em meu cérebro, você aí meu caro leitor, minha caríssima leitora, acha que eu queria estar nessa situação agora? Obviamente não, mas saber encarar essas contingências da vida e as cicatrizes me tornarão uma pessoa mais forte e assim desejo que você enxergue as suas).
Freud nos lembra que aquilo que não é simbolizado retorna como sintoma. As dificuldades da vida, quando não elaboradas; tendem a se repetir em padrões, relações e escolhas que nos aprisionam. Já quando podemos olhar para nossa história com escuta e coragem, a cicatriz deixa de ser um ponto de vergonha ou fragilidade e passa a ocupar o lugar de significado. Ela conta algo sobre quem fomos, sobre o que enfrentamos e, sobretudo, sobre os recursos psíquicos que mobilizamos para seguir adiante.
Encarar as cicatrizes como marcas de superação não significa romantizar a dor, mas reconhecer a potência do processo de elaboração. Cada sujeito encontra sua própria forma de lidar com o real que fere: alguns silenciam, outros endurecem, outros ainda transformam a experiência em aprendizado. A psicanálise propõe um espaço onde essas marcas possam ser ditas e compreendidas na história pessoal de maneira menos pesada, menos culposa e mais integrada.
Ao se permitir esse movimento de análise pessoal, algo muda: a narrativa interna deixa de ser apenas “o que me aconteceu” e passa a incluir “o que fiz com o que me aconteceu”. Nesse ponto, a cicatriz já não aprisiona o sujeito ao passado; ela se torna testemunha de um percurso de resistência, elaboração e amadurecimento psíquico.
Thiago Pontes Thiago Pontes é Filósofo, Psicanalista e Neurolinguísta (PNL). Instagram @dr_thiagopontes_psicanalista – site: www.drthiagopontespsicanalista.com.br











