Era uma sexta-feira, dia 12 de maio, véspera do final de semana do Dia das Mães. Naquele dia, há exatos 20 anos, diversas rebeliões passaram a ser registradas nos presídios de São Paulo. Um dia antes, a Secretaria de Administração Penitenciária (SAP) havia decidido transferir 765 presos para a Penitenciária 2 de Presidente Venceslau, uma unidade de segurança máxima no Interior paulista. Entre os presos estava Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, considerado o líder da organização criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC).
“E foi essa megatransferência que fez os presos darem o salve para os ataques”, lembra o jornalista e professor Bruno Paes Manso, pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência (NEV) da Universidade de São Paulo (USP).
A ofensiva começou com rebeliões de presos em 74 penitenciárias do estado e, logo depois, chegou às ruas, quando viaturas, delegacias de polícia, prédios públicos e agentes policiais passaram a ser alvos do PCC.
Campinas não ficou de fora da violência. Unidades policiais passaram a ser alvo dos ataques. Uma das estratégias da polícia foi bloquear as guaritas e portarias de suas unidades com cones, mantendo viaturas e agentes de prontidão.
O clima era de pavor. A área de Segurança Pública estava acuada e sentia-se imponente para enfrentar, à época, a reação do crime organizado. Campinas, por sua vez, já vivia períodos de intensa violência, com onda de sequestros, assassinatos e latrocínios ao longo daquela década. Havia uma crise grave nas instituições policiais, envolvendo comando, estrutura e inteligência.
Depoimento
A produtora cultural Mônica Trindade Carneiro se lembra bem desse período. Há 20 anos, ela estava grávida de Helena. As contrações do parto tiveram início na madrugada do dia 17 de maio, quando o clima de tensão ainda era intenso em São Paulo.
Naquela época, ela morava na Avenida Paulista, no centro da capital, e não tinha carro. Como ainda não havia aplicativos de transporte, teve que sair na rua para pedir um táxi e poder seguir até a maternidade. “A rua estava vazia, não tinha carro, não tinha gente, era um ou outro táxi passando, e a gente deu sorte de conseguir pegar um táxi que estava passando na hora”, conta.
Mesmo tendo conseguido o táxi e as ruas estando vazias, o caminho até a maternidade não foi nada fácil. “Do nada, o taxista simplesmente embicou o carro numa base da Polícia Militar. E, assim, todos os policiais que estavam lá [dentro da base], saíram. Todos apontando armas para o carro, o carro foi todo cercado, todo mundo apontando armas, aos gritos, sabe? Dava para ver no rosto deles que estavam com medo porque eles estavam sendo atacados. E qualquer carro podia chegar lá e atacar”, relata Mônica.

O taxista também havia agido por medo, considerando que talvez fosse melhor a polícia levá-la ao hospital. No fim, a produtora cultural acabou sendo levada para a maternidade pelo próprio taxista.
“Até o dia em que ela nasceu, foram realmente os dias mais tensos, realmente mais confusos porque as pessoas não sabiam o que era boato, o que era real, o que podia realmente acontecer.”
Esses ataques prosseguiram pelo menos até o domingo, Dia das Mães.
“Eu estava acompanhando [aqueles acontecimentos] fora da redação. Daí na segunda-feira esse era o assunto do dia. Todo mundo em choque, tentando entender o que tinha acontecido, porque já eram mais de 50 policiais mortos. Era uma coisa nunca vista, nunca [houve] nada parecido. Era uma bomba que tinha caído em São Paulo”, disse Manso que, naquela época, trabalhava como jornalista policial de um grande veículo de comunicação.
Segundo o estudo São Paulo sob Achaque: Corrupção, Crime Organizado e Violência Institucional em Maio de 2006, elaborado pela Clínica de Direitos Humanos da Faculdade de Direito de Harvard e pela organização Justiça Global, a transferência de presos não foi o único motivo para aqueles ataques.
De acordo com o estudo, também contribuíram para a ofensiva do PCC a corrupção no sistema policial com relatos de extorsões praticadas por policiais civis, falhas nas investigações policiais e o descaso com a execução penal no estado de São Paulo.
“Os Crimes de Maio não se trataram simplesmente de uma ‘guerra’ entre os dois lados, um grupo do ‘bem’ contra uma gangue do ‘mal’. Na realidade, a onda de violência foi em grande parte uma manifestação de conflitos entre o crime organizado dentro e fora do estado”, diz um trecho do relatório.
Reação do Estado
Na madrugada de segunda-feira, após o Dia das Mães, começou o revide. Em resposta aos ataques articulados pelo PCC, agentes do Estado e grupos de extermínio saíram às ruas para a retaliação.
Boatos sobre toques de recolher se espalharam entre a população de São Paulo e Interior do estado, incluindo Campinas, e, rapidamente, supermercados foram fechados, universidades suspenderam as aulas, ônibus deixaram de circular e as pessoas se recolheram em suas casas.
“E aí começaram as execuções nas periferias. Foram mais de 500 mortes em nove dias, muitas com suspeita de execução”, diz o pesquisador.
“Foi algo inédito que nunca tinha acontecido antes. Ninguém imaginava que aquilo ia acontecer. Não tinha nenhum tipo de expectativa de que houvesse uma tensão [anterior] no sistema penitenciário”, relata. “Muita gente fala que este foi o nosso 11 de setembro aqui em São Paulo.”
Ao todo, os ataques ocorridos entre os dias 12 e 21 de maio e promovidos tanto por agentes do Estado quanto por integrantes do PCC deixaram um saldo de 564 mortos e 110 feridos. Segundo o relatório São Paulo sob Achaque, em pelo menos 122 dessas mortes houve indícios de execução com participação de policiais.

Fim dos ataques
Depois de semanas de terror, o fim dos ataques coincidiu com um encontro secreto entre a cúpula do governo paulista e Marcola, segundo o relatório São Paulo sob Achaque. Em 2015, em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, o governador de São Paulo na época, Claudio Lembo, negou acordo com o crime organizado, mas admitiu que o encontro de Marcola com a sua advogada, autorizada por ele, ajudou a pôr fim aos ataques.
Hoje, o PCC é uma organização infiltrada na sociedade, dentro e fora dos presídios, no Brasil e no Exterior.
A Secretaria Estadual de Segurança Pública informou à Agência Brasil que “de 2006 até o momento, houve a ampliação das vagas com a inauguração de 42 presídios, totalizando 180 unidades. Essa expansão permitiu delimitar as vagas por perfis de crimes, proporcionando o isolamento de lideranças faccionadas. Houve, ainda, automação dos presídios, reduzindo o contato do servidor com o preso”.
Além disso, diz a nota, “houve o fortalecimento do Grupo de Intervenção Rápida (GIR), que aplica técnicas não letais de contenção e, somado a isso, a criação das Células de Intervenção Rápida, que atuam na mesma linha de trabalho”.
“As forças de segurança estaduais também realizam ações permanentes voltadas ao aperfeiçoamento do trabalho policial e à redução da letalidade, com revisão de protocolos operacionais, capacitação dos agentes e uso de tecnologia. Os investimentos em equipamentos de menor potencial ofensivo, como espargidores, bastões retráteis e armas de incapacitação neuromuscular, foram ampliados na atual gestão, com a aplicação de mais de R$ 27 milhões”, completa a nota da SSP.
*Com informações da Agência Brasil








