A inteligência artificial já ocupa espaço central na rotina de trabalho. Está em relatórios, apresentações, análises e decisões cotidianas. O ritmo de adoção chama atenção, mas revela um desalinhamento importante na forma como as ferramentas vêm sendo utilizadas.
Para Virgilio Marques dos Santos, sócio-fundador da FM2S Educação e Consultoria, PhD pela Unicamp e gestor de carreiras, o debate avançou mais no acesso à tecnologia do que na qualidade do uso. “As pessoas aprenderam a abrir a ferramenta. Ainda falta entender quando e por que usar cada uma”, afirma.
Dados da McKinsey ajudam a dimensionar esse cenário. Hoje, 88% das organizações já utilizam IA em pelo menos uma função. “O curioso é que o impacto ainda não acompanhou esse movimento: apenas 39% das empresas relatam algum efeito no resultado financeiro — e, mesmo nesses casos, geralmente limitado. Essa lacuna entre acesso e resultado reflete um desalinhamento mais profundo na forma como a tecnologia vem sendo adotada”, analisa Santos.
O ponto crítico aparece na forma como a capacitação vem sendo conduzida. Programas costumam apresentar funcionalidades, mas deixam em segundo plano o raciocínio por trás da escolha. “A ferramenta vira o fim, quando deveria ser o meio. O ganho vem da decisão bem feita antes do uso”, diz o gestor.
Na prática, cada sistema responde melhor a determinados tipos de tarefa. “Claude tende a performar melhor em análise estruturada e documentos longos. ChatGPT responde melhor em criação e desenvolvimento de ideias. Perplexity é mais eficiente quando o problema envolve busca de informações atualizadas. Gemini se encaixa em fluxos integrados de trabalho corporativos. Quando essa diferença entra no radar, o trabalho flui com menos fricção”, exemplifica Santos.
O impacto aparece na produtividade e na qualidade das entregas. Profissionais que incorporam esse critério estruturam melhor suas rotinas, reduzem retrabalho e passam a operar com mais previsibilidade. A tecnologia deixa de ser tentativa e passa a integrar o processo.
Como usar IA com mais critério
Santos propõe um ajuste simples, aplicável no dia a dia. Antes de recorrer a qualquer ferramenta, vale organizar o pensamento a partir de três perguntas:
1- Qual é o tipo de problema que precisa ser resolvido (escrita, análise, síntese, busca, criação visual)?
2- Qual ferramenta tende a responder melhor a essa demanda?
3- Em que outras situações essa escolha pode ser reaproveitada?
“O exercício leva poucos minutos e altera a forma como decisões são tomadas ao longo do trabalho. Com o tempo, cria repertório e reduz dependência de tentativa e erro”, ressalta o gestor.
Para as organizações, o desafio ganha escala. Capacitação em IA passa a exigir mais do que familiaridade com ferramentas. Envolve desenvolver leitura de contexto, critérios de escolha e capacidade de adaptação. Empresas que avançam nessa direção conseguem extrair mais valor da tecnologia já disponível.
“Capacitação em IA precisa ensinar diagnóstico estratégico, como pensar sobre qual ferramenta resolve qual problema. O impacto financeiro aparece quando essa escolha é feita com critério, não quando há mais acesso à tecnologia”, completa Santos. Conforme o especialista, nesse cenário, a diferença entre uso disperso e uso consistente começa a aparecer com clareza e tende a definir quem transforma IA em vantagem concreta no trabalho.












