Existe um equívoco muito comum na educação contemporânea: acreditar que amor e liberdade significam ausência de limites. Muitos pais, na tentativa de não reproduzir modelos autoritários do passado, acabam caminhando para o extremo oposto. A criança passa a crescer sem frustrações, sem consequências, sem regras consistentes e sem a construção gradual de limites internos. À primeira vista, isso pode parecer uma infância feliz e livre. Porém, do ponto de vista psíquico, a ausência de limites também pode produzir profundas dificuldades emocionais na vida adulta.
A psicanálise de Sigmund Freud nos oferece uma importante reflexão sobre esse fenômeno através da relação entre o Id, o Ego e o Superego. O Id representa os impulsos, desejos e prazeres imediatos. É a parte da mente que busca satisfação sem considerar consequências. O Superego, por sua vez, funciona como regulador, estabelecendo limites, responsabilidade e capacidade de adiar gratificações. Quando a educação falha em desenvolver essa estrutura, a criança pode crescer acreditando que seus desejos devem ser satisfeitos imediatamente, independentemente das circunstâncias.
O problema é que a realidade não funciona segundo a lógica infantil do “eu quero, logo devo ter”. Mais cedo ou mais tarde, a vida apresenta perdas, negativas, rejeições, regras e limites. E é justamente nesse encontro inevitável com a realidade que muitos adultos emocionalmente despreparados começam a sofrer profundamente.
No Porão do Inconsciente, não ficam armazenados apenas traumas causados por excesso de repressão. Também permanecem as marcas deixadas pela ausência de contenção emocional. A criança que nunca ouviu “não”, que nunca precisou esperar, que jamais foi ensinada a lidar com consequências ou frustrações, muitas vezes chega à vida adulta sem recursos psíquicos para enfrentar contrariedades. O menor obstáculo passa a ser vivido como injustiça. A menor recusa se transforma em rejeição. A menor espera parece insuportável.
Na clínica, isso frequentemente aparece em adultos que possuem enorme dificuldade para lidar com términos amorosos, críticas profissionais, derrotas, recusas e frustrações cotidianas. São pessoas que desejam muito, mas toleram pouco. Sonham alto, mas abandonam projetos diante das primeiras dificuldades. Querem resultados imediatos porque nunca aprenderam que crescimento exige disciplina, persistência e capacidade de suportar desconfortos temporários.
A reflexão de Aristóteles (filósofo grego de enorme prestígio) ajuda a compreender essa questão. Para ele, a virtude não nasce dos excessos, mas do equilíbrio. A maturidade humana exige o desenvolvimento da capacidade de moderar impulsos e construir hábitos saudáveis. A verdadeira liberdade não consiste em fazer tudo o que se deseja, mas em aprender a governar os próprios desejos.
Essa questão se torna ainda mais evidente quando observamos a vida adulta através da filosofia de Søren Kierkegaard, pensador dinamarquês. Para ele, a angústia faz parte da condição humana. Escolher implica renunciar. Crescer implica assumir responsabilidades. Viver significa conviver com incertezas e limites. Porém, quando a criança cresce sem desenvolver tolerância à frustração, ela chega à vida adulta despreparada para lidar com essa angústia inevitável. Em vez de enfrentar os desafios da existência, busca fugir deles, evitando tudo aquilo que provoque desconforto emocional.
Ao mesmo tempo, Zygmunt Bauman, grande sociólogo polonês, descreveu a contemporaneidade como uma Sociedade Líquida, marcada por relações frágeis, vínculos descartáveis e uma busca incessante por satisfação imediata. Nesse cenário, indivíduos que cresceram sem limites internos sólidos tendem a abandonar relacionamentos, projetos, carreiras e compromissos ao primeiro sinal de dificuldade. Como não aprenderam a suportar frustrações, passam a acreditar que qualquer desconforto é um sinal de que devem desistir e procurar algo novo que lhes devolva prazer imediato.
O paradoxo é que a ausência de limites, muitas vezes confundida com liberdade, acaba produzindo uma nova forma de aprisionamento. O sujeito torna-se escravo dos próprios impulsos. Se sente triste, precisa fugir da tristeza. Se sente tédio, precisa se distrair imediatamente. Se encontra obstáculos, abandona o caminho. Sem uma estrutura interna capaz de regular desejos e tolerar frustrações, a pessoa passa a viver refém das emoções do momento.
A psicanálise nos ensina que educar não significa esmagar os desejos da criança, mas também não significa abandoná-la aos seus impulsos. Os limites saudáveis não existem para destruir a liberdade; existem para torná-la possível. Afinal, somente quem aprende a suportar a frustração consegue construir projetos duradouros, relações maduras e uma identidade sólida.
Talvez uma das maiores tarefas da educação seja justamente esta: ensinar que a vida nem sempre entregará aquilo que desejamos no momento em que desejamos porque crescer não é obter satisfação imediata para todos os impulsos, crescer é desenvolver a capacidade de conviver com a falta, suportar a espera, enfrentar a angústia e continuar caminhando apesar dela. E quando essa aprendizagem não acontece, o Porão do Inconsciente pode guardar não apenas traumas de repressão, mas também as consequências silenciosas de uma infância onde ninguém ensinou que a liberdade também precisa de limites para florescer.
Thiago Pontes Thiago Pontes é Filósofo, Psicanalista e Neurolinguísta (PNL). Instagram @dr_thiagopontes_psicanalista – site: www.drthiagopontespsicanalista.com.br












