Neste momento, estamos vivendo novamente o “clima de copa do mundo”. Praticamente todas as nossas atividades e agendas estão vinculadas aos jogos e toda população sintonizada com o objetivo da conquista de nosso sexto título mundial. Afinal, somos ainda o país do futebol. Mas, o que as pessoas não sabem é o enorme desafio à saúde pública dos países envolvidos (e em menor escala também os não envolvidos) e todos os protocolos elaborados e vinculados ao torneio tendo em vista a extraordinária movimentação e aglomeração de pessoas de todas as partes do mundo e, principalmente, nos países-sede.
Em 2014 eu estava no cargo de Secretário de Saúde do Município de Campinas e, apesar de não termos jogos em nossa cidade, recebemos duas delegações para os treinos e hospedagem: Portugal e Nigéria. Vivíamos um período de extrema preocupação com a dengue, mas também, com a introdução da zica, principalmente no Nordeste. Também tivemos casos de zica em Campinas. Nosso primeiro susto foi o quadro febril de um integrante da delegação da Nigéria que, após investigação, ficou confirmado ter o diagnóstico de malária.
Abaixo vamos listar as principais preocupações e ações necessárias.
O principal desafio da saúde pública municipal durante a Copa do Mundo de 2014 foi preparar os sistemas locais para lidar com o aumento súbito e simultâneo de demandas por atendimento à saúde. Os municípios-sede precisaram garantir atendimento de emergência, vigilância epidemiológica ativa e responder rapidamente a possíveis emergências de saúde pública e aglomerações.
A gestão das ações exigiu a integração entre as esferas federal, estadual e municipal para proteger tanto turistas quanto a população local. Os impactos e as estratégias adotadas englobaram várias frentes importantes:
Desafios e Estratégias:
Vigilância Epidemiológica: Rastreamento em tempo real de surtos e doenças infecciosas. O risco aumentou com o fluxo massivo de viajantes de diferentes países.
Pronto Atendimento: Instalação de Postos Médicos Avançados e equipados próximos a arenas, campos de treinamento e fan fests. O objetivo principal foi não sobrecarregar as emergências hospitalares de nossa cidade.
Plano de Contingência: A prefeitura trabalhou sempre com rotas de fuga, esquemas especiais de trânsito e estoque redobrado de insumos médicos e vacinas.
Apoio ao Cidadão: Criação de diretrizes para orientar turistas e a comunidade sobre serviços e prevenção de doenças locais como dissemos em relação as arboviroses.
Legado e Impactos:
Infraestrutura: Houve modernização de unidades de atenção básica e de pronto atendimento garantindo acesso e agilidade no processo de atendimento. A organização serviu como aprendizado para lidar com grandes aglomerações futuras de eventos de massa.
Desigualdade e Deslocamentos: Movimentos sociais e pesquisadores apontaram que as remoções e a reestruturação urbana exacerbaram vulnerabilidades sociais. Questões como a situação da população de rua nas áreas centrais das cidades-sede também foram debatidas.
Desse modo, vale lembrar que eventos desta magnitude exigem ações preventivas no campo da saúde pública.
Certamente em nossa cidade, apesar de não ser sede do evento, inúmeros eventos paralelos em praças públicas e estabelecimentos como bares, restaurantes, etc. exigirão cuidados e atenção à saúde. Assim, com todos os cuidados, vamos torcer para que tudo corra bem e que possamos vencer mais uma vez.
Carmino Antônio De Souza é professor titular da Unicamp. Foi secretário de saúde do estado de São Paulo na década de 1990 (1993-1994) e da cidade de Campinas entre 2013 e 2020. Secretário-executivo da secretaria extraordinária de ciência, pesquisa e desenvolvimento em saúde do governo do estado de São Paulo em 2022, Presidente do Conselho de Curadores da Fundação Butantan, membro do Conselho Superior e vice-presidente da Fapesp, pesquisador responsável pelo CEPID CancerThera da Fapesp.












