Hoje é dia de celebrar São Cosme e São Damião, cultuados por diferentes crenças no Brasil, como a umbanda e o catolicismo. Os santos têm os dias 26 e 27 de setembro dedicados a eles e, de acordo com a religião, as comemorações vão de missas especiais, como é o caso da Igreja Católica, dia 26, às celebrações religiosas de matriz africana, dia 27, com distribuição de saquinhos de doces para as crianças.
Portanto, é dia da criançada “mergulhar” nos doces, certo? Décadas passadas pelo menos era assim. Há quem ainda mantenha a tradição de distribuir guloseimas às crianças na data de celebração dos padroeiros, que eram gêmeos e médicos. Porém, a prática agora está mais na memória do que nas ruas.
Nas portas dos armazéns e bares, era comum no dia 27 de setembro as crianças se aglomerarem para receberem saquinhos de doces . “O problema era organizar a fila”, conta entre risos seu Anysio, proprietário do extinto Bar Três Reis no Jardim Eulina, nas décadas de 70 e 80. E entre os doces campeões da garotada estava o pirulito Zorro, que, curiosamente, teve sua origem em Campinas. “Todos gostavam muito”, relembra seu Anysio.
O pirulito era fabricado na Doces Campineira, cuja sede chegou a ser na Rua dos Alecrins, no Cambuí, área que mais tarde foi ocupada pelo Colégio Objetivo. Na lataria do caminhão que fazia a distribuição das mercadorias, a imagem do zorro anunciava qual era o item mais famoso da fábrica. A Doces Campineira mais tarde se tornaria a fábrica Triunfo.

Diferente dos demais pirulitos, o Zorro tinha o formato retangular. Era de caramelo com coco e grudava nos dentes.
“A gente amava, mas quem amava também eram os dentistas”, diz entre risos o fotógrafo Carlos Bassan, que chegou a fotografar a antiga fábrica para o extinto jornal Diário do Povo. Ele lembra da popularidade da guloseima.
“Marcou na lembrança de todo mundo que era criança e adolescente antigamente”, conta. “Andávamos com estilingue no pescoço e, nos bolsos, bolinhas de gude e pirulito Zorro.”
O pirulito não se encontra mais para vender, mas nas redes sociais ele continua sendo uma febre entre os saudosistas, que comentam as boas lembranças que o doce traz. “Que saudade, marcou época”; “Meu pai trazia um par para cada filho”; “Que pena que sumiu”, são alguns dos comentários na página Campinas Antiga do Facebook.

QUEM FORAM COSME E DAMIÃO?
Segundo a tradição católica, Cosme e Damião eram irmãos gêmeos, considerados curandeiros – médicos na comunidade onde viviam. E a associação com as crianças é fruto da intervenção das religiões africanas. A explicação é do professor Agnaldo Cuoco Portugal, do Departamento de Filosofia da Universidade de Brasília (UnB), em entrevista à Agência Brasil. Segundo o professor, escravos ligaram Cosme e Damião a orixás da umbanda e do candomblé: os Ibejis, filhos gêmeos de Xangô e Iansã.

O professor explica que, como havia muita repressão na época da escravidão no Brasil aos cultos africanos, os negros precisavam adorar suas divindades sempre associando a algum santo católico. E foi isso que aconteceu com são Cosme e são Damião.
“Naquela época, os escravos africanos não tinham a possibilidade de cultuar os seus orixás, as suas divindades livremente. Eles tinham que fazer essa associação com alguns santos católicos para não serem perseguidos. A tradição de dar doces tem a ver com esses dois orixás crianças que foram associados a Cosme e Damião”, explica o professor.
Duas datas
A partir de 1969, quando houve a reforma do calendário litúrgico, a Igreja Católica fez uma alteração e instituiu 26 de setembro como o dia dos mártires gêmeos, deixando 27 de setembro para São Vicente de Paulo. Ocorre que a tradicional distribuição de doces presente no sincretismo das religiões de matriz africana fez com que a data de Cosme e Damião ficasse popularmente marcada como sendo no dia 27 de setembro.












