Há décadas, Hollywood criou um modo de fazer cinema como quem concebe receitas de bolo. Funciona. E bem. Portanto, não haveria razão para imaginar que a fábrica norte-americana do entretenimento audiovisual fizesse algo diferente em “A Mulher Rei” (The Woman King, EUA, 2022, 143 min.), de Gina Prince-Bythewood.
O filme segue os cânones hollywoodianos a começar do roteiro. Só para fundamentar o argumento, compare-o com “Avatar’ (James Cameron, 2009), que retornou ao circuito na semana passada. Em ambos, trata-se da guerra de dominados contra dominadores; daí, ficarmos com a impressão de similaridade no roteiro.
E, também, porque roteiro é peça técnica composta de regras específicas e rígidas e cuja escrita, no caso de Hollywood, foi testada e aprovada ao longo da história e gerou um manual.
Em “A Mulher Rei”, a roteirista Dana Stevens nada mais fez do que escrever um épico de guerra cujo esteio é o heroísmo.
Diferente, aqui, são os cenários e os protagonistas, ambos, pouco comuns. A história se passa na África de lutas tribais associadas ao tráfico de escravos e, “as” protagonistas, são mulheres e negras.
Mesmo mantendo a escrita de manual e, talvez, por isso mesmo, é edificante ver filme norte-americano se desprender do próprio umbigo, referência constante quando se trata de ponto de vista, e abrir-se para outras culturas.
Que fale inglês? Que seja. Não estamos falando de dominação? Não se trata de conformismo, mas de constatação: a dominação cultural existe. E os heróis seguem algumas características adotadas por Hollywood, como impolutos, destemidos, vencedores, irrepreensíveis e fortes.
Causa certo desconforto imaginar um ser que parece viver em plano acima de nós, mortais. Contudo, assistir à grande Viola Davis encarnando esse papel provoca intenso prazer.
Pense na mulher negra e pobre de “Histórias Cruzadas” (2011, Tate Taylor), humilhada pela patroa branca. E, agora, veja a mulher poderosa e dona do próprio destino como a heroína que toma decisões, estabelece regras e supera dominadores.
O filme se propõe a dizer algo que torna o formato um elemento quase irrelevante – sabendo de antemão que é uma história real do início do século 19. Nanisca, a personagem de Viola, veste o uniforme de heroína hollywoodiana ao estilo da canção, “Heroes”, de David Bowie: “eu serei rei/ e você será a rainha.. e nós poderemos ser heróis por um dia.”
Neste “um dia”, ela supera obstáculos, vence batalhas, se sobrepõe ao inimigo e se impõe como gente – “feita pra brilhar”, diria Caetano. Assim, o filme presta enorme serviço cultural (mesmo levando em conta a referida dominação cultural) ao mostrar a luta das mulheres negras contra submissão e escravidão e tira parte do sofrido e relegado continente da periferia da história para o centro dela.
Para quem não sabe (porque o cotidiano as faz invisíveis), existe a mulher (de qualquer origem) acossada pelos preconceitos, humilhações e tratamentos indignos; no filme, exacerba-se a indignidade porque elas são negras.
Para quem não sabe, existe uma música africana linda, comovente e poderosa, como demonstra a empolgante trilha de Lebo M e Terence Blanchard. Para quem não sabe, existe um bailado africano encantado composto de graça, alegria e despojamento.

E existem as belezas individuais representadas por Thuso Mbedu (a jovem guerreira Nawi), Jayme Lawson (Shante, mulher do rei), John Boyega (o magnânimo rei Ghezo) e Jordan Bolger (Malik, namorado de Nawi). Somados aos idiomas e costumes, além de outros componentes, desemboca-se na identidade de um povo.
Releva-se, portanto, que “A Mulher Rei” tenha como matriz a marca das produções do dominante norte-americano porque é alentador assistir a uma história vitoriosa de dominados – a despeito (porque não somos ingênuos) de o aspecto econômico ter determinado tal direcionamento.
Ver o mundo por outro prisma (mesmo o filme não sendo nenhuma obra-prima) também desperta prazer.

E emoção, igual à que observamos na cena de morte de uma das personagens centrais. Sair de nós possibilita-nos descobrir o que está ao redor e não vemos.
Uma frase da instrutora de guerra Izogie (Lashana Lynch) ressalta a busca não pela não dominação, mas pela igualdade entre homens e mulheres. E poderíamos acrescentar: entre brancos e pretos, héteros e homossexuais, cristãos e muçulmanos, ricos e pobres etc.

Afinal, humanos (de qualquer gênero, cor, religião etc) são iguais, pois foram criados do mesmo princípio e determinados a idêntico fim. Então, por que alguns se imaginam melhores que outros?
João Nunes é jornalista e crítico de cinema
O filme está em cartaz nos cinemas. Em Campinas, pode ser visto no Cinépolis do Galleria Shopping e do Shopping Campinas, Cinemark do Shopping Iguatemi, Kinoplex do Shopping D. Pedro, Moviecom do Unimart Shopping e no CineAraújo do Bandeiras Shopping







