Neste aniversário de 251 anos de Campinas, o Editor-Chefe do Hora Campinas nos fez um desafio que é transcorrer sobre o tema: “A Campinas que me acolheu: quais suas memórias, conquistas e percalços”. Eu nasci em Santos-SP no ano de 1951. Assim, sou órfão legítimo de Pelé e Companhia. Tive a oportunidade de ver muitas vezes o maior jogador de futebol de todos os tempos e creio que jamais haverá alguém como ele e aquele time dos sonhos do Santos FC de então. Mas, nosso assunto não é este. Depois de viver minha infância e adolescência por cerca de 15 anos em São Paulo, vim para Campinas para fazer meu curso de Medicina na jovem Faculdade de Ciências Médicas e da mais jovem ainda Universidade Estadual de Campinas, a Unicamp. Sou da oitava turma e neste ano de 2025, estamos completando 50 anos de formados.
Posso dizer que, nem nossa Faculdade nem nossa cidade são semelhantes àquele tempo. Campinas tinha 350 mil habitantes e praticamente a cidade terminava na Via Anhanguera. Hoje ela tem 1.2 milhão de habitantes sendo que a maioria da população mora, trabalha e descansa nas regiões noroeste, sudoeste e sul-sul de nossa cidade. Impressionante o crescimento de nossa cidade e da Universidade em tão pouco tempo.
Campinas não era uma cidade estranha para mim mesmo naqueles tempos. Meu falecido pai nasceu na zona rural do que hoje, não tenho absoluta certeza, é o município de Jaguariúna ou Pedreira, à época de seu nascimento, Mogi-Mirim. Meu avô paterno era tropeiro. Eu tinha dois tios que moravam em Campinas, um era condutor da extinta Estrada de Ferro Mogiana e o outro trabalhou por mais de 40 anos na também extinta fábrica de chapéus Cury.
Assim, por razões familiares, eu vinha eventualmente a Campinas e já gostava muito da cidade. Minha segunda opção no vestibular do CESCEM (organização que fazia os vestibulares para as Universidade públicas à época) era Campinas. Entrei na Unicamp e fui remanejado para SP e não quis. Sempre gostei do interior e não pretendia retornar para São Paulo para estudar ou trabalhar. Meu curso básico na Unicamp foi feito em dois galpões no campus universitário. Em Barão Geraldo, não havia quase nada. Carinhosamente, nós chamávamos de “Barrão” Geraldo (isto mesmo, barrão – muito barro). Quantas vezes precisávamos empunhar ônibus na Avenida 1 ou ficávamos sem energia elétrica devido às chuvas.
Meu ciclo clínico foi feito, em grande parte, no prédio da Santa Casa de Campinas no Centro da cidade/Cambuí, prédio secular e que funciona até hoje em seus dois hospitais: Santa Casa e Hospital Irmãos Penteado. A casa histórica, totalmente reformada e onde hoje funciona o Bar e Restaurante Giovanetti, era o nosso prédio de ambulatórios. Tínhamos um ótimo Centro Acadêmico, apesar do período político bastante conturbado do país, em uma linda casa de estilo normando (que não existe mais) e onde hoje há um Hotel, em frente à Praça Carlos Gomes. Minha residência médica (1976-1979) também foi feita na Santa Casa. Em 1979, fui contratado como docente da Unicamp, logo após a minha residência.
Nesse ano, houve a primeira mudança do prédio dos ambulatórios (Bloco F) para o novo Hospital das Clínicas. Entretanto, o HC só começou a ser transferido em suas áreas de internação em março de 1986. Em 1985, após longo debate interno na FCM, Universidade e externo no sistema de saúde (o SUS ainda não existia) foi criado o Hemocentro de Campinas na Unicamp que começou a funcionar plenamente juntamente com o HC em 1986. O Prof. José Aristodemo Pinotti, Reitor da Unicamp, me encarregou de instalar e fazer funcionar o Hemocentro, o primeiro Centro Público transfusional de Campinas. Uma enorme responsabilidade, mas uma grande honra.
Tive os apoios incondicionais do Chefe de meu Departamento Prof. Rogério de Jesus Pedro (carinhosamente Rogerinho), do Diretor da FCM, Prof. Frederico Magalhães, do Prof. Nelson Rodrigues dos Santos (carinhosamente, Nelsão), à época, Secretário Municipal de Saúde e do Prefeito José Roberto Magalhães Teixeira (carinhosamente, Grama). Poucos anos após (em 1988), o Prof. Pinotti me convidou para implantar o programa de sangue do Estado de São Paulo (Hemorrede) que foi modelo para todo o país e que conseguiu encaminhar as soluções da transmissão do vírus HIV por transfusões em nosso Estado. Nesse período, compartilhava meu trabalho entre a Unicamp e a Secretaria de Saúde de São Paulo.
Em 1993, fui alçado ao cargo de Secretário de Saúde do Estado com a responsabilidade de implantar o SUS em nosso Estado. Outro grande desafio… Em 1997-1998, após meu período de Secretário de Saúde do Estado e fazer minha Livre-Docência, fiz o meu pós doutorado na Itália (Università di Genova – Ospedale San Martino), com o apoio da Fapesp. Em 2001, me tornei Professor Titular de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular do Departamento de Clínica Médica da FCM Unicamp.
Em 2002, por indicação de nosso atual Prefeito Dario Saadi, à época vereador de Campinas, recebi o título de cidadão campineiro. Agora sim, pude dizer que era campineiro. Em 2022, a convite do Prefeito eleito de Campinas, hoje Deputado Federal, Jonas Donizetti, me tornei Secretário de Saúde do Município de Campinas, até o momento, o mais longevo (oito anos), cargo que exerci até dezembro de 2020. Nesse período, enfrentamos grandes crises sanitárias como as epidemias de arboviroses e, certamente a mais grave e dramática, a de Covid-19.
Foi uma grande honra e responsabilidade, mas creio, que foi a melhor maneira de devolver à nossa cidade o que ela me deu através dos anos. Sem dúvida, o mais importante que esta cidade me deu foi, além de um pequeno patrimônio e grandes amigos, a minha família. Em 1977 me casei com a Célia (estamos casados há 47 anos) e nossos dois filhos, Thiago e Clarissa, nasceram em Campinas.
Meus filhos Thiago e Clarissa também estão casados com Tatiana e Anthony, respectivamente. Hoje, temos três lindas netas (Maria Clara, Manuela e Olivia), as duas primeiras nascidas em Campinas e a última em Roma. Em agosto deste ano, chegará nosso primeiro neto (Carmino, terá o meu nome…) que deve também nascer em Roma.
Na verdade, tudo o que tenho devo em grande parte a Campinas. Minha história com esta cidade é muito rica.
Hoje, Campinas é uma Metrópole das mais importantes no contexto nacional e internacional. Temos grandes Universidades, Indústrias, Hospitais etc. e não paramos de crescer e desenvolver. Se houve algum percalço, não me lembro e também não importa.
Um texto é muito pouco para contar esta história de felicidade e sucesso que tive aqui. O que importa realmente, é ter vivido uma vida plena e prazerosa com minha família, amigos, colegas e parceiros.
Serei eternamente grato a esta grande e generosa cidade. Vida longa para Campinas.

Carmino Antônio De Souza é professor titular da Unicamp. Foi secretário de saúde do estado de São Paulo na década de 1990 (1993-1994) e da cidade de Campinas entre 2013 e 2020. Secretário-executivo da secretaria extraordinária de ciência, pesquisa e desenvolvimento em saúde do governo do Estado de São Paulo em 2022, Presidente do Conselho de Curadores da Fundação Butantan, membro do Conselho Superior e vice-presidente da Fapesp, pesquisador responsável pelo CEPID CancerThera da Fapesp.







