Todos os dias, ainda cedo, pessoas chegam à Casa Esperança, na Vila Industrial, em Campinas. Algumas carregam mochilas gastas, outras apenas o cansaço de quem passou a noite na rua e sente fome. Ali, o que começa com um café da manhã pode se transformar em algo maior: uma oportunidade de recomeçar.
A Casa Esperança, também conhecida como Casa da Cidadania, tenta colocar em prática aquilo que o educador Paulo Freire chamava de esperançar: não esperar passivamente, mas agir para construir novos caminhos.
Por lá, homens, em sua maioria, e mulheres em situação de rua encontram mais do que um espaço de convivência, higiene e refeições. Encontram acolhimento e, muitas vezes, a chance de reconstruir a própria história.
Foi assim com José Santos de Sena, de 45 anos, conhecido como Neto.
Ele chegou à Casa da Cidadania em um momento difícil da vida, quando estava em situação de rua. No início procurava apenas algo para comer. Depois, passou a dormir no albergue ligado ao espaço enquanto tentava reorganizar a própria vida.
Foi ali que conheceu Elis Cássia Everte, também de 45 anos. Ela morava em Mogi Guaçu e veio para Campinas em busca de novas oportunidades. Ao chegar à cidade, passou uma semana em situação de rua antes de encontrar acolhimento no local.
O encontro dos dois acabou se transformando em recomeço. Com o tempo, o casal decidiu dar um passo importante: alugar uma casa para morar. Já faz cinco meses que começaram essa nova fase da vida.

Nesse processo, o trabalho também apareceu como parte da reconstrução. Neto conseguiu uma oportunidade para cuidar de um campo de futebol e hoje trabalha com corte de grama e manutenção de campo, na área de jardinagem. Elis se prepara para iniciar um curso de confeitaria. A cozinha, aliás, não é novidade para ela: já trabalhou como auxiliar de cozinha e aprendeu até a preparar sushi.
Hoje, a casa que os dois alugaram representa mais do que um teto. É o símbolo de uma vida que voltou a encontrar direção.
Outra história que passou pela Casa Esperança é a de Willian dos Santos, de 34 anos. Durante cinco anos, ele viveu em situação de rua. Foi nesse período que encontrou apoio no trabalho realizado no local.
Hoje tem casa, esposa e trabalha como servente de obras. Quando pode, volta à Casa Esperança para ajudar no que for necessário. “Não consigo mais me ver naquela vida que tive quando estava na rua. Foram dias difíceis”, conta.
Histórias como essas fazem parte do cotidiano acompanhado por Robson Gondim, responsável pelo trabalho desenvolvido na Casa da Cidadania.
A relação dele com o espaço começou há cerca de 27 anos, ainda como voluntário. Durante muito tempo, o local funcionava apenas como um ponto de alimentação. Robson acreditava que poderia ser mais do que isso e, ao assumir a gestão, decidiu transformar o espaço em um ambiente de oportunidades.
Uma das primeiras mudanças foi trazer inclusão digital para dentro da Casa da Cidadania. Computadores passaram a ficar disponíveis para que os frequentadores pudessem procurar emprego, montar currículos ou entrar em contato com familiares.
Muitos reencontros começam ali. Às vezes, um simples clique em uma rede social permite localizar um parente e reconstruir vínculos perdidos. Depois vieram os cursos profissionalizantes: barbearia, informática, elétrica predial e residencial, panificação, confeitaria e encanador.
Mas o cuidado vai além da qualificação. Na Casa da Cidadania, o dia começa cedo. Às seis da manhã é servido o café. Ao meio-dia vem o almoço, seguido do café da tarde e, à noite, a janta.
Durante muito tempo, porém, havia algo que incomodava Robson. Depois da janta, as portas eram fechadas e muitas pessoas voltavam para a calçada.
A solução veio quando um barracão ao lado do prédio foi transformado em albergue. Hoje, quem precisa pode seguir diretamente para o espaço, onde encontra camas, cobertores e chuveiro quente.“Quando a pessoa sai da calçada e coloca a cabeça em um travesseiro, ela começa a ter tempo para pensar na própria vida”, explica.
Além disso, o espaço também celebra pequenos gestos de cuidado. Todos os meses, os aniversariantes ganham festa, bolo e até o sorteio de um jantar em uma churrascaria.
Segundo Robson, cerca de 50 pessoas que passaram pelo espaço já conseguiram voltar ao mercado de trabalho. Muitas hoje alugam suas casas e começam a reconstruir a própria vida longe das ruas.
Além da Casa da Cidadania, Robson também é responsável pelo projeto Há Esperança, no Parque Oziel, que atende crianças e adolescentes no contraturno escolar.
É na Vila Industrial, entre refeições, cursos e novas oportunidades que vemos a esperança do verbo esperançar existir e resistir.
Kátia Camargo foi visitar a Casa Esperança e conheceu de perto a força que o projeto carrega. Ao observar o cuidado com as pessoas e os sonhos que ali germinam, lembrou-se de um verso da canção Coração de Estudante, na voz de Milton Nascimento: “Há que se cuidar do broto para que a vida nos dê flor e fruto.”
Para escutar a música, clique abaixo:

















