O dia da faxina estava quase terminando quando o fotógrafo da revista Veja bateu na porta do então restaurante Estação Primavera, hoje Estação Marupiara. O local super pitoresco e aconchegante fica num casarão histórico do século XIX no distrito de Joaquim Egídio, em Campinas. O jovem Ueliton Amaral acabara de completar 16 anos e estava terminando de limpar e lavar todo o espaço. À noite, ele voltaria para trabalhar na função de ajudante de garçom. Estava feliz da vida com a conquista recente do emprego. Como naquele dia a faxineira do local adoeceu, Ueliton combinou que faria a limpeza do restaurante. Para o jovem, a faxina era uma oportunidade a mais de complemento de renda, já que, desde menino, ajudava a sustentar a casa.
Quando o fotógrafo chegou ao restaurante, Ueliton tentou, sem sucesso, falar com a proprietária, cozinheiros, gerente e garçons, era o início dos anos 2000 e, na época, quase ninguém tinha celular e a comunicação era mais restrita. Sem tempo para esperar, o fotógrafo avisou que já que não havia o prato a ser fotografado teria de ir embora. Foi então que o jovem tomou a decisão de ele mesmo preparar o prato para não correr o risco de perder a foto. Sem receita, sem noção de tempero, sem nunca ter entrado na cozinha lá foi ele preparar uma moqueca de palmito com camarão. Mal sabia que aquele prato mudaria o rumo da sua história.
Baseado no que observava e no encantamento dos pratos que entregava aos clientes, Ueliton caprichou na montagem e na apresentação. Vendo o esforço do garoto, o fotógrafo também montou um belo cenário para a foto. Ele até cortou umas folhas de bananeira para destacar a potência do prato. Ueliton lembra que a falta de experiência e noção na cozinha era tanta que, após as fotos, ele guardou o prato pronto pensando que, no caso de algum cliente pedir moqueca à noite, só faltaria o cozinheiro temperar para servir. Um detalhe: deixou a moqueca no balcão, fora da geladeira. E foi embora para casa com sentimento de missão cumprida.
À noite, a proprietária e toda a equipe souberam da proeza do jovem. Para eles só restava torcer para a foto ficar boa, já que o prato mesmo havia sido feito sem nenhum tempero. A coragem de Ueliton fez com que a proprietária convidasse o jovem, inexperiente com as panelas, para aprender a mexer os tachos do restaurante. E, claro, ele, que já andava apaixonado pela cozinha, aceitou! Para a surpresa de todos, inclusive do Ueliton, a foto de sua moqueca foi capa da revista! E durante vários finais de semana eles não davam conta dos pedidos da moqueca de palmito com camarão, igual à da foto. Tinha até gente que levava a revista para mostrar e falava quero igual a essa. Dessa obra do acaso nasceu um cozinheiro que encanta quem o conhece e prova da sua comida.
As surpresas, nem sempre boas, nos trilhos da vida


Anos depois, o Estação Primavera fechou as portas e Ueliton foi trabalhar em outros locais, sempre na cozinha. Quando a chef Viviane Moraes (in memoriam), que era engenheira de alimentos, deu vida ao tão sonhado restaurante, nasceu o Estação Marupiara. Seu desejo sempre foi ter um restaurante que valorizasse a comida e temperos genuinamente brasileiros. Algum tempo depois ela chamou Ueliton para trabalhar com ela. Não demorou muito para que o jovem curioso e com muita sede de aprender a alquimia da cozinha se tornasse o braço direito da chef.
Ueliton sempre se emociona ao falar de Viviane e faz questão de ressaltar que foi ela que o ensinou valores essenciais na cozinha.
“Aprendi com ela o amor pelo alimento respeitando sua sazonalidade, ela me ensinou sobre a importância de nutrir as pessoas aproveitando o melhor que a terra nos dá, também era mestre no cuidado com o preparo, valorizava os produtores locais e adorava experimentar novas formas de preparo de comida”, diz.
Juntos desenvolviam novos pratos, viajavam para pesquisar ingredientes tipicamente brasileiros, provavam sabores de todos os cantos do Brasil.
Um dos projetos que Vivi idealizou e que Ueliton ajuda a tocar até hoje (antes da pandemia o inviabilizar) foi o Cinema na Mesa. Toda a equipe faz pesquisa de filmes que se relacionam com a comida e depois desenvolvem os pratos que serão servidos nas sessões. Quem já participou desse projeto sabe o quanto a comida se conecta à película. Dentre os filmes já foram exibidos: Ratatouille, Cartas para Julieta, Tempero da Vida, O Filho da Noiva e outras preciosidades.
Mas, em 2016, a chef Vivi adoeceu e acabou morrendo de câncer. Sem sua mentora gastronômica Ueliton acabou sendo convidado pelo marido de Vivi para assumir a posição de chef de cozinha do Estação Marupiara. Passados cinco anos da morte da Chef Vivi, Ueliton faz questão de honrar e manter vivo muitos dos pratos que ela criou.

O menino que ousou cozinhar sem saber, hoje tem 35 anos e comanda as panelas e os tachos com muito amor e força de vontade. E agora, dentre tantos sonhos que já realizou, não vê a hora de poder voltar a receber as pessoas na ‘estação’ onde ele chegou e ficou, quando a pandemia do coronavírus permitir!
E se você tem sugestões de pessoas que estão fazendo a diferença neste mundo, manda sua sugestão no katiacamargo@horacampinas.com.br
Kátia Camargo é jornalista e tem se emocionado muito com as histórias que anda escutando por aí







