Vivemos tempos em que tudo vira informação. Cada passo dado com o celular no bolso, cada foto curtida, cada pesquisa no Google ou mapa aberto no Waze se transforma em dados processados, negociados, vendidos. A vida tem sido sequestrada pelos algoritmos. Entramos de cabeça num modelo de sociedade onde atenção, tempo, rotina e decisões também viraram mercadorias — assim funciona o capitalismo informacional.
O celular, que já foi objeto de desejo, virou necessidade – imposição. Ele não sai mais da mão, da cama, do bolso, nem mesmo na igreja ou no banheiro. É ferramenta de trabalho, extensão do afeto, e passaporte social.
Dizer que não tem WhatsApp é ser considerado um alienígena. Recusar o uso de certos apps equivale a desaparecer da vida em comum. Não usar o celular? Virtualmente impossível. Aplicativos deixam de ser apenas ferramentas e se tornam dispositivos de mediação social, regulando, silenciosamente, nossas rotinas e modos de existir.
As empresas que lucram com big data construíram um ecossistema digital que não apenas nos serve, mas nos forma. Por trás da facilidade de pedir uma pizza ou chamar um carro, há um jogo pesado: os aplicativos passaram a ser os filtros pelos quais vivemos, desejamos e decidimos. Quase nada acontece sem passar por eles. Michel Foucault já alertava para os dispositivos de controle: mecanismos que organizam e disciplinam a vida social sem recorrer, necessariamente, à força ou à coerção explícita.
No capitalismo informacional, tempo e atenção são os bens mais cobiçados. As notificações competem entre si como produtos na prateleira, e quem ganha é quem capta seu olhar por mais tempo. Nós viramos o produto: padrões de comportamento, formando perfis virtuais, são comercializadas em tempo real. Enquanto acreditamos estar usando um app por vontade própria, é o app que está nos usando — sem nos pagar por isso.
Já percebeu como hoje quase tudo parece funcionar apenas se houver um aplicativo? Quer comer? iFood. Quer ir? Uber. Quer trabalhar? LinkedIn. Comprar? Amazon, Mercado Livre. Se atualizar? Instagram, X. Cuidar do dinheiro? Nubank, PicPay. Relaxar? Netflix, TikTok. Ganhar dinheiro sem trabalhar? Tigrinho. Até para beber água e correr na praça existem aplicativos. A vida virou um cardápio digital de possibilidades viciantes — e obrigatórias.

Será possível viver hoje sem tudo isso? Tente não usar o celular por um dia inteiro. Veja se consegue manter sua rotina, seu trabalho, seus vínculos. Não se trata mais de conveniência — é dependência estrutural. Os apps deixaram de ser acessórios. Viraram condição de existência. Estar offline é quase um ato de rebeldia, ou de exclusão. A autonomia digital tornou-se um privilégio de poucos — os que detêm conhecimento técnico, acesso à informação e consciência crítica para resistir às amarras do sistema.
Mas que mal há nisso? Acontece que um app não é uma coisa neutra. Ele tem dono, interesses, lógica e finalidades. Não está ali apenas para te ajudar, mas para coletar dados, influenciar e moldar você. Por trás de cada botão, há um modelo de negócio. Por trás de cada função “inteligente”, há um mapa comportamental que prevê e induz seus próximos passos.
Seu design, seus algoritmos e suas funcionalidades são projetados por interesses econômicos e ideológicos. Induzem comportamentos, priorizam determinados conteúdos, sugerem certos caminhos e excluem alternativas. Tudo é projetado para atender aos interesses de anunciantes, patrocinadores e investidores. O usuário é, ao mesmo tempo, produto e consumidor — constantemente manipulado para gerar lucro.
Byung-Chul Han foi direto: vivemos sob o império da liberdade compulsiva. Não há mais vigilância opressora — há autocontrole motivado pela ilusão de escolha. As grades foram substituídas por telas, e a servidão ganhou roupagem de autonomia. Essa tecnocracia do desejo faz com que amemos nossas algemas, pois elas brilham, vibram e nos recompensam com dopamina. A prisão virtual nos faz acreditar que estamos no comando, enquanto, na verdade, somos conduzidos por algoritmos que sabem mais sobre nós do que nós mesmos. A servidão voluntária, mediada pela tela, é o emblema dos nativos digitais.
O discurso hegemônico do empreendedorismo e da liberdade digital esconde a armadilha perfeita: acessível, colorida, gamificada. É por isso que o discurso da liberdade digital e do empreendedorismo soa tão falso. Por trás do “faça você mesmo”, há uma máquina que exige que você faça sempre mais — e sorrindo. O resultado? Gente exausta, ansiosa, deprimida. Relações rasas, tempo fraturado, sono prejudicado. A ditadura dos apps é sedutora, mas cobra caro: nossa saúde mental e nossa humanidade.
Monopólios tecnológicos — como Google, Meta, Amazon, Apple, Microsoft — exercem um poder planetário. Suas decisões afetam desde o que comemos até como votamos, passando pelas roupas que compramos e pelas ideias que defendemos. A inteligência artificial, aliada a influenciadores digitais, atua como vetor de um controle psicopolítico que mina a soberania individual e coletiva, transformando escolhas em simulações de liberdade.
Regulamentar as big techs e limitar seu poder de vigilância e manipulação é fundamental não como censura, mas como garantia de liberdade! Mais do que isso, é preciso proteger e fortalecer os espaços de diversidade cultural, crítica e criatividade. Desnaturalizar a tecnologia e questionar sua suposta inevitabilidade. A liberdade, para ser genuína, deve ser construída com consciência, não com ilusões algorítmicas. Recuperar o domínio democrático e humano da tecnologia e defender o direito de viver, pensar e decidir fora das grades invisíveis dos aplicativos.
Luis Felipe Valle é professor universitário, geógrafo, mestre em Linguagens, Mídia e Arte, doutorando em Psicologia.







