O socialismo e o comunismo, outrora movimentos em busca de uma nova sociedade, rapidamente se desviaram de seu propósito original. A promessa de riqueza e conforto para todos, que deveria culminar em felicidade irrestrita, deu lugar a uma nova “religião”: o progresso.
A liberdade absoluta e a felicidade irrestrita se tornaram seus dogmas, e não surpreende que essa crença tenha inspirado energia, vitalidade e esperança em seus seguidores.
No entanto, as notáveis realizações materiais e intelectuais devem ser analisadas sob outra perspectiva, para que possamos compreender o trauma resultante de seu fracasso.
O sonho de sermos donos de nossas vidas terminou neste início de século, ao despertarmos para o fato de que somos apenas engrenagens de uma máquina burocrática, de um sistema político de prazeres manipulados pela mídia e pelos meios de comunicação, que nos controlam e viciam.
O progresso econômico permaneceu restrito às nações ricas, gerando um fosso cada vez maior entre ricos e pobres. O progresso tecnológico e os perigos inimagináveis que podem colocar a sociedade como um todo em guerras horríveis parecem se aproximar. A crença de alguns em sua própria superioridade, exemplificada na era Trump, demonstra claramente essa patologia.
Depois de 60 anos em que tudo parecia melhorar e o mundo se comunicava de uma forma inimaginável, passamos a enfrentar exageros em todas as dimensões, afetando o clima e, recentemente, a ganância política, que roubou de vez a paz.
Se o objetivo da vida é a felicidade, o amor, a família, a amizade e, para muitos, a religião, parece que estamos entrando em um período de necessidade subjetiva, egocentrismo e ganância.
Recentemente, recordei um artigo sobre valores humanos perigosos, resumidos no mnemônico VEGA: Vaidade, Ego, Ganância e Arrogância. Esses traços, que em doses mínimas são vitais para nossa existência, se espalham como uma epidemia entre os ricos e poderosos, transformando-se em doenças, armas de destruição e, pior, de autodestruição. Ao observarmos os grandes problemas do mundo atual, como as guerras, a política e a crise climática, a presença do VEGA se torna evidente.
Como humanista, acredito na capacidade da raça humana de superar seus desafios, como demonstrado em momentos críticos do passado. No entanto, a catástrofe climática iminente, apenas a ponta de um iceberg, exige uma mudança radical. Pela primeira vez, a sobrevivência física e intelectual da humanidade depende de nossa capacidade de respeitar o próximo e da coragem de agir em busca da paz e de um mundo mais equilibrado.
A busca pelo egoísmo individual decorre não só do comportamento, mas do caráter. Significa: querer tudo para si e nada compartilhar; ser ganancioso porque, se o objetivo é ter, então tanto mais sou quanto mais tenho; sentir-se antagônico em relação a todas as outras pessoas, clientes a quem se quer enganar, concorrentes a quem se deseja destruir, empregados a quem se quer explorar.
Dessa forma, nunca se poderá estar satisfeito, pois não há fim para esses desejos. É necessário reprimir todos esses sentimentos para se apresentar (tanto para os outros quanto para si mesmo) como um ser humano sorridente, racional, sincero e gentil.
A paixão por “ter e ser” levará a uma guerra de classes sem fim. A pretensão dos comunistas de que o seu sistema acabará com a luta de classes por meio da abolição das classes, é uma ficção. E o oposto também.
Enquanto todos quiserem ter mais, haverá formação de classes, guerra de classes e, em termos globais, haverá guerras internacionais, pois a ganância e a paz se rechaçam mutuamente.
O mundo viveu e renasceu com suas próprias qualidades, mas depois de 2000, começamos a mudar, pois nascia mais egocentrismo e ganância. As sociedades que evoluíram economicamente tornaram-se superpoderosas e mais egoístas.
Nós nos tornamos produtos das circunstâncias sociais e econômicas, e a relação das pessoas com a natureza se tornou profundamente hostil.
A harmonia entre a humanidade e o mundo natural morreu, transformando-o para os nossos próprios propósitos, até que a conquista se tornasse cada vez mais equivalente à destruição.
Nosso espírito de conquista e hostilidade nos cegou para o fato de que os recursos naturais têm seus limites e podem, finalmente, se esgotar, e que a natureza lutará contra a voracidade humana.
A conclusão é que devemos trabalhar para uma nova ética na política, uma nova atitude em relação à natureza, pois essa deveria ser a mais valiosa conquista a ser buscada, não por exigências filosóficas, mas por exigências humanitárias.
Luis Norberto Pascoal é empresário e presidente da Fundação Educar







