A indignação é mais do que uma emoção passageira; é um grito da consciência frente ao que viola nossos valores mais profundos. Trata-se de uma reação visceral diante da injustiça, da opressão ou da manipulação, seja no plano individual, seja no coletivo. Na sociedade contemporânea, marcada por pressões sociais, exigências de produtividade e a busca incessante por aprovação, a indignação surge como resistência à alienação e como sintoma de que algo em nós ainda não se rendeu ao automatismo das massas.
Eu mesmo sofri isso no meu trabalho como professor há alguns anos e usei o fato em si, carregado de indignação, para meu autoconhecimento e mudanças de valores, principalmente de mudança de ambiente e crescimento pessoal e profissional, hoje atuando como terapeuta clínico. Posso contar com sua companhia nessa reflexão meu caro, minha cara? Ótimo, então vamos à ela.
Sigmund Freud, em O Mal-Estar na Civilização (1930), já advertia que a repressão dos desejos e a imposição de ideais sociais rígidos geram sofrimento psíquico. Na era digital, essa repressão se apresenta sob novas máscaras: a pressão por reconhecimento em redes sociais, a necessidade de performar sucesso constante e a cobrança no trabalho por resultados cada vez mais imediatos. O sujeito, transformado em espetáculo e mercadoria, perde sua autenticidade. Surge, então, a ansiedade, a depressão e a síndrome de burnout, por exemplo, doenças emocionais que sinalizam a falência de um sistema que valoriza mais a aparência do que a substância.
A indignação, nesse contexto, é uma resposta ética e saudável. Quando o indivíduo se revolta contra a lógica extenuante do “sempre mais” e do “sempre melhor”, está defendendo sua própria saúde psíquica. Lacan, ao falar do desejo, lembra que o sujeito não pode ser reduzido ao desejo do Outro; quando a vida se torna uma busca incessante por reconhecimento externo, perde-se a singularidade e instala-se o vazio existencial. Indignar-se é recusar-se a ser apenas objeto do olhar alheio.
No ambiente de trabalho, a pressão constante por desempenho gera um círculo vicioso: o trabalhador esconde sua fragilidade para manter a “máscara de eficiência”, mas o preço é a exaustão emocional. Na esfera social, a exposição idealizada nas redes estimula comparações adoecedoras.
O psicanalista Byung-Chul Han, em Sociedade do Cansaço, observa que o excesso de esforço e exploração resulta em colapso. A indignação, então, surge como força contrária: é a recusa de aceitar como normal um modelo que transforma o humano em máquina.
Portanto, indignar-se não é apenas sentir raiva; é um ato de preservação da dignidade.
É perceber que a vida não pode ser reduzida a métricas de sucesso ou curtidas virtuais. É tomar consciência de que a saúde emocional depende de limites, de pausas e da coragem de questionar o que nos é imposto. A indignação é, nesse sentido, paradoxalmente terapêutica: denuncia o adoecimento social e abre caminho para formas mais humanas de viver.
Como disse Albert Camus, “a indignação é o começo de uma consciência”. Talvez, diante das doenças emocionais que nos assolam, ela seja também o primeiro passo para a cura.
Thiago Pontes Thiago Pontes é Filósofo, Psicanalista e Neurolinguísta (PNL). Instagram @dr_thiagopontes_psicanalista







