Para além do cenário político, qual outro sinal que nos preocupa? As mudanças climáticas, com certeza, pois as previsões não são nada animadoras e ainda não sabemos o que vai acontecer. Mas ainda há muitos outros desafios que estão se aproximando e, hoje, temos um novo inimigo que são as redes de desinformação.
O último livro de Martin Baron, ícone do jornalismo norte-americano, tendo sido editor do Boston Globe e do Washington Post, mostra a necessidade de reforçar algo também fundamental. Nele, Baron afirma que: “O jornalismo tem um papel importante em responsabilizar os poderosos e trazer verdades até nossas casas”.
Recentemente, durante uma palestra para os alunos da PUC-Campinas, sobre um pequeno livro de liderança escrito em conjunto com o físico e líder da IAI Partners, Gabriel Stockler, um estudante perguntou por que defendemos tanto o jornalismo. Respondi que temos a obrigação de manter nossa independência e nossa objetividade como cidadãos com o apoio direto do jornalismo e dos verdadeiros jornalistas.
No livro, defendemos que uma imprensa livre e imparcial é fundamental em qualquer sociedade democrática e que assegurar o respeito à imprensa representa um pilar ético essencial para todos. E, parafraseando Baron, certas mídias andam de costas para os fatos e fazem a opção ideológica através do mundo das narrativas. Como contraponto ele diz que devemos “mantermo-nos fiéis aos fatos, exercer jornalismo com honestidade e integridade”.
O jornalismo é a busca do essencial, sem adereços, adjetivos ou adornos. Sua força não está na militância, mas no vigor persuasivo da verdade factual, na integridade e no equilíbrio da opinião, a partir de fatos provados. A credibilidade não é fruto de um momento, é o somatório de uma longa e transparente coerência. A sociedade está cansada do clima de radicalização que tomou conta da agenda pública.
Quando sobra opinião e falta informação, os leitores ficam perdidos em um cipoal de afirmações categóricas e pouco fundamentadas. A democracia reclama um jornalismo vigoroso, independente e comprometido com a verdade possível. O jornalismo de qualidade exige cobrir os fatos, não aplacar nossas percepções subjetivas. Analisar e explicar a realidade, e não as nossas preferências. Isso faz toda a diferença e é um verdadeiro serviço à sociedade.
Em tempos de ansiedade digital crescente e dispersiva, mais do que nunca, é preciso recuperar o norte da informação bem apurada. A crise da imprensa é um reflexo da nossa própria crise. Impõe-se, portanto, um frequente exercício de autocrítica pessoal e profissional para que possamos superá-la. A sociedade polarizada e intolerante, se joga em qualquer informação sem crítica.
O grande equívoco da imprensa é deixar de lado a informação e assumir, mesmo que com as melhores intenções, a politização das coberturas. Os desvios não se combatem com enviesamento informativo, mas com a força objetiva dos fatos e pela via de uma apuração bem conduzida. Baron defende a independência como fundamento da credibilidade de qualquer veículo jornalístico.
O jornalismo não pode se aliar a partidos políticos, pois o único aliado é a verdade. O experiente jornalista faz um forte chamado à coerência: “A mentira é um dos nossos inimigos, mas não o único. Muitos poderosos mentem, mas não podemos cobrá-los se nós não formos especialmente exemplares na boa conduta”. De fato, não há jornalismo de qualidade sem jornalistas comprometidos com princípios e valores éticos. A credibilidade não admite esquizofrenias morais. É preciso apostar na honestidade, na coerência, na lealdade aos princípios e nos valores. Não se constrói um bom produto editorial sobre a areia movediça do cinismo.
Sem jornais a democracia não existe, sua crise pode ser também a crise da democracia. O jornalismo é o único meio de sabermos o que de fato acontece, é um espaço de contraponto, seu compromisso não está vinculado aos ventos passageiros da política e dos partidos, mas à história real da vida como ela é de fato.
Sem jornais a democracia morre. E sem valores perenes, como a liberdade, a dignidade humana, o respeito a minorias, a promoção à livre-iniciativa e a abertura ao contraditório, o jornalismo morre.
Hoje, ocorre um distanciamento entre a imprensa e os leitores por conta das novas formas de consumo digital da informação e, em alguns casos, a falta de isenção informativa dos veículos, além de certa dose de intolerância em muitos lados. Não podemos viver de costas para a sociedade real, precisamos criar uma solução para manter a audiência e informar a verdade, limpa e pura, mesmo que seja muito difícil.
É só a partir da reconciliação da realidade com o público que estaremos bem-informados para tomar nossas decisões, seja no enfrentamento às mudanças climáticas, seja na escolha do nosso voto, seja em como compreendemos nosso dia a dia.
Luis Norberto Pascoal é empresário e presidente da Fundação Educar







