Entre os dias 26 e 31 de julho deste ano, o Rio de Janeiro sediará a 26ª Conferência Internacional sobre Aids (Aids 2026), que é considerada o maior encontro global sobre saúde pública, ciência e direitos humanos relacionados ao HIV e à pandemia de Aids do mundo. Com promoção da Sociedade Internacional de Aids (IAS), é a primeira vez que o evento acontece na América do Sul e, nesta edição, tem o apoio do Ministério da Saúde, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), da Prefeitura do Rio de Janeiro e da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (Abia).
O tema deste ano é Repensar. Reconstruir. Avançar e a Aids 2026 terá formato híbrido, com possibilidade de participações virtuais ou presenciais, em um momento crucial para a resposta internacional à aids, marcado por crise de financiamento e cortes em programas de HIV em diferentes países. O governo de Donald Trump, por exemplo, cortou a ajuda humanitária que os Estados Unidos davam para programas internacionais de prevenção e controle da Aids, com a decisão do presidente de extinção da Usaid (agência de ajuda externa dos EUA) e retirada do país da Organização Mundial da Saúde (OMS).
A Unaids, agência de AIDS das Nações Unidas, chegou a calcular que até 2029 os cortes na ajuda que os Estados Unidos proporcionavam representará 4,2 milhões de novos óbitos pela doença e 6 milhões de novas infecções, além de 3 milhões de novos órfãos, sobretudo nos países que mais sofrem com a pandemia, como os africanos. Outros países também já anunciaram cortes no financiamento de programas de Aids.
Neste contexto, a Aids 2026 ganha uma dimensão especial e será mais uma oportunidade para o Brasil confirmar sua liderança na temática. Como lembra a Fiocruz, o Brasil tem histórico de atuação baseada no compromisso com evidências científicas e no respeito aos direitos humanos.
“No final da década de 1990 foi o primeiro país de baixa ou média renda a fornecer acesso gratuito à terapia antirretroviral para pessoas vivendo com o vírus. Adotou a política de tratamento para todos em 2013, que resultou em uma queda de quase 33% das mortes relacionadas à Aids até 2023”, observa a Fiocruz, apoiadora da Aids 2026.
Em dezembro do ano passado, continua a Fiocruz, o Brasil alcançou a eliminação da transmissão vertical do HIV – durante a gestação, o parto ou a amamentação. “Sua estratégia combinada de prevenção oferece acesso gratuito a preservativos, gel lubrificante, testes de detecção do HIV e profilaxias pré e pós exposição ao HIV (PEP e PrEP), que utilizam medicamentos antirretrovirais para reduzir o risco de infecção pelo HIV”, completa.
Mais recentemente, a própria Fiocruz anunciou que realizará um estudo de avaliação da incorporação da injeção semestral de prevenção ao HIV no Sistema Único de Saúde (SUS). A pesquisa seria relacionada ao uso do medicamento lenacapavir, produzido pelo laboratório Gilead Sciences, já aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
Pois Campinas foi escolhida pela Fiocruz como um dos municípios onde a pesquisa será realizada. Ou seja, novos avanços no combate ao HIV-Aids devem repercutir favoravelmente no combate à pandemia, apesar dos cortes em ajuda por parte de alguns países.
É importante, neste momento, ressaltar o papel histórico de Campinas no enfrentamento do HIV-Aids desde os momentos iniciais da pandemia, no começo da década de 1980. A pandemia continua a pleno vapor, já tendo provocado mais de 30 milhões de óbitos e não pode haver nenhum retrocesso nessa verdadeira guerra.
Neste cenário de muita dor, Campinas apresenta histórias de solidariedade e esperança, desde a eclosão da AIDS. Os primeiros casos foram diagnosticados na cidade em 1982. Os primeiros contatos da sociedade campineira em geral com a doença foram um misto de sentimento de impotência e boas doses de preconceito, aliás, como ocorreu em todo mundo.
Contudo, logo um grupo de pesquisadores da Unicamp teria um papel determinante para a transformação dessa atitude. Sob a coordenação do médico Antônio Carlos Corsini, professor nos Departamentos de Microbiologia e Imunologia da Universidade, o grupo se incumbiu da missão de difundir informações precisas sobre a doença, e de estimular novos procedimentos sociais em relação aos portadores do vírus HIV.
Em setembro de 1982 Corsini participava de um curso de Imunologia em Lausanne, Suíça, quando contraiu uma grave doença. Retornou ao Brasil em janeiro de 1982 e, mesmo doente, continuou se dedicando aos trabalhos com a Aids. O médico morreu em 29 de janeiro de 1984.
Três anos depois, a 20 de janeiro de 1987, um grupo de estudiosos que haviam sido orientados pelo professor da Unicamp fundou o Centro de Controle e Investigação Imunológica “Dr.Antônio Carlos Corsini”, em homenagem ao pioneiro da compreensão da Aids em Campinas. Sob a direção da médica Sílvia Bellucci, o Corsini passaria a prestar completo atendimento a portadores do HIV, no âmbito da infectologia, imunologia, psiquiatria e tratamento dentário.
A instituição se dedicaria, do mesmo modo, a promover várias campanhas de esclarecimento sobre a doença, em termos da prevenção e do combate aos preconceitos, inclusive com a estruturação de um DISK-AIDS.
O Corsini chegou a apresentar vários trabalhos em edições da Conferência Internacional sobre Aids. A Dra. Silvia Bellucci, infelizmente já falecida, dá nome hoje ao Centro de Referência Municipal DST/Aids. O Programa Municipal de de Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST), HIV/Aids e Hepatites Virais da Prefeitura de Campinas é um dos melhor estruturados do Brasil.
Outras organizações de Campinas também se dedicaram a atender vítimas da AIDS, como a Associação de Apoio a Portadores de Aids Esperança e Vida, criada em 1990.
Por sua vez, o Laboratório de Pesquisa em Aids (LPAids), da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, instalado no Hospital de Clínicas, foi inaugurado em 9 de agosto de 1988 e passou a ser responsável pela realização dos exames sorológicos para triagem do HIV, contagem de CD4/CD8 e quantificação da carga viral para serviços de saúde de dezenas de cidades, perfazendo em mais de 3700 exames/mês.
O HC da Unicamp recebeu o primeiro paciente brasileiro com AIDS, em 1982. Ele tinha percorrido vários hospitais até chegar à Enfermaria de Moléstias Infecciosas do HC. O caso foi estudado e debatido por uma equipe integrada pelos médicos Fernando Lopes Gonçales, Marcelo de Carvalho Ramos, Maria Luiza Moretti, Rogério de Jesus Pedro e Luiz Jacintho da Silva. O caso foi relatado na revista da Associação Paulista de Medicina.
A Unicamp também deu enorme contribuição ao combate à Aids com a criação do Hemocentro, em 1985, sob a liderança do médico hematologista Dr.Carmino de Souza.
Na época a transfusão de sangue era a principal fonte de transmissão do HIV entre hemofílicos. A estruturação de um Hemocentro em uma Universidade, com todos os cuidados possíveis nas transfusões, foi determinante para quebrar a cadeia de transmissão do vírus por essa modalidade.
O Dr. Carmino de Souza coordenou o Hemocentro da Unicamp (que foi referência para criação de órgãos semelhantes em outras universidades) durante vários anos. Ainda estava no cargo quando recebeu em 1988 o convite do secretário estadual de Saúde, o ex-reitor da Unicamp, José Aristodemo Pinotti, para coordenar o Programa de Sangue do Estado de São Paulo.
Foi então intensificado o trabalho para quebrar a transmissão da Aids via transfusões de sangue, com ótimos resultados. O Programa de Sangue de São Paulo se tornou referência nacional. O Dr.Carmino seria depois secretário estadual da Saúde, entre 1993 e 1994.
Em síntese, Campinas já deu muita contribuição ao combate à pandemia da Aids e com certeza continuará dando. Mais um exemplo de que a cidade brilha quando é ousada, corajosa, toma atitudes éticas de enorme importância civilizatória.
José Pedro Martins é jornalista, escritor e consultor de comunicação. Com premiações nacionais e internacionais, é um dos profissionais especializados em meio ambiente mais prestigiados do País. E-mail: josepmartins21@gmail.com









