Uma manhã ensolarada de outubro de 1958 marcou o primeiro passo para a criação da Fundação Odila e Lafayette Álvaro. No início da década de 1960, quando as instituições sociais atuavam de forma isolada e a participação da sociedade se limitava a eventos beneficentes, um grupo de líderes campineiros idealizou algo inovador: oferecer apoio técnico às entidades e estimular o voluntariado. Assim nasceu a proposta da Federação das Entidades Assistenciais de Campinas (FEAC), que passou a contar com o apoio da Fundação Odila e Lafayette Álvaro, a partir de abril de 1964.
A cerimônia de formalização ocorreu no “Casarão” da Fazenda Brandina, com a assinatura da doação que viabilizou o nascimento da FEAC, a primeira federação de entidades sociais do País. O sonho do casal Odila e Lafayette era assegurar um patrimônio duradouro para sustentar iniciativas sociais e educacionais.
Na ocasião, o Drº Darcy Paz de Pádua lembrou que tudo começou com o carinho e a dedicação do casal às crianças mais vulneráveis da região. Movidos por esse compromisso, doaram seus bens e convidaram o especialista Dr. Mário Altenfelder Silva, de São Paulo, para apoiar o projeto.
Ao concluir seu trabalho, ele deixou uma carta tocante, com o seguinte trecho:
“Trago, no meu pensamento, a impressão que recebi ao visitá-los. A beleza do lugar, o trato com um homem muito inteligente e com uma senhora altamente distinta. Mas, o que mais me comoveu e me fez ver neste casal, qualidades bem acima da mediocridade humana, foi a maneira de olhar para o futuro e trabalhar para ele, orgulhosos de um passado construtivo. Por desígnios de Deus, há, sempre, um destino de elevação. Reservou-os para uma tarefa por demais nobre: cuidar dos que precisam, tornar firmes os que hesitam, preparando-os para o amanhã, amar aqueles que nunca tiveram amor. Que missão sublime! Suas vidas serão, para as gerações vindouras, um exemplo.”
O Drº Eduardo de Barros Pimentel, escolhido como conselheiro da nova instituição, formalizou a ata que tornaria realidade esse sonho. Campinas respondeu com entusiasmo, centralizando a arrecadação de recursos, profissionalizando o apoio técnico e incentivando o voluntariado.
Em 1970, a FEAC já reunia 35 entidades e foi nesse momento que tive a honra de integrar essa missão. Criou-se então um sistema inovador de doações, em que empresas dobravam os valores doados por seus colaboradores. Com a gestão eficiente do patrimônio, a rede cresceu: em 1990, já eram 95 instituições parceiras.
Com a Constituição de 1988 e o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) em 1990, a ação social passou a reconhecer crianças e adolescentes como sujeitos de direitos. A FEAC acompanhou essa mudança e passou a atuar pela melhoria da educação pública em Campinas, articulando projetos como a Aliança de Campinas pela Educação e o Compromisso Campinas pela Educação.
Nos anos 2000, a FEAC apoiou entidades na adaptação ao SUAS (Sistema Único de Assistência Social), e ao Marco Regulatório das Organizações da Sociedade Civil. Desde 2003, voltou-se também à primeira infância, promovendo o envolvimento familiar e ações com um olhar integral para o desenvolvimento infantil.
A FEAC também marcou minha trajetória pessoal. Aos 16 anos, participei de programas socioeducativos na sede da Fundação, onde aprendi com o Padre Haroldo Rahm lições profundas sobre generosidade e o papel do jovem na sociedade, valores que me guiam até hoje.
Em mais de seis décadas de atuação, foram criadas centenas de iniciativas sociais, e muitos dos jovens formados nesse processo tornaram-se hoje ativistas e defensores da transformação educacional. A FEAC consolidou um modelo único de ação social baseado em articulação comunitária, reconhecido nacionalmente. Fomos chamados a compartilhar essa experiência em diversas regiões do Brasil.
Como toda fundação, sua atuação segue normas rigorosas supervisionadas por um curador. No nosso período mais complexo de expansão, contou com a atuação exemplar de Valcir Paulo Kobori, promotor de Justiça responsável pela Curadoria das Fundações no Ministério Público de Campinas. Com sua orientação, junto à diretoria e ao conselho, foram feitos ajustes essenciais às regras e processos que orientam nossa conduta até hoje.
Um exemplo marcante da atuação da FEAC foi o apoio a uma mobilização latino-americana, voltada ao resgate de jovens afetados pelas drogas, por meio do professor Saulo Montserrat e da Federação Brasileira de Comunidades Terapêuticas (Febract). Esse trabalho usou como base a estrutura da Fundação e a inspiração do Padre Haroldo.
O foco sempre foi a valorização da infância, o estímulo à cidadania ativa, o respeito à diversidade e a melhoria do sistema educacional. Esses princípios sustentaram os êxitos alcançados por tantas entidades que compõem essa rede.
Relembrar a história da FEAC, neste final de ano, é reconhecer um legado de coragem, solidariedade e compromisso com o futuro. Que essa missão continue a florescer, enfrentando os novos desafios com a mesma força que fez brotar, em 1958, a semente da inovação social em Campinas.
Luis Norberto Pascoal é empresário e presidente da Fundação Educar







