Rara leitora, raro leitor, permitam-me analisar algumas expressões que tomaram o noticiário e também nosso vocabulário cotidiano.
Na década de 2010, popularizaram-se a expressão “fake News” e a questão de ser “de direita” ou “de esquerda”. Uma terceira também surgiu, mas por sorte, não vingou tanto assim, a saber, “pós-verdade”.
Verdade é que as notícias falsas (chamadas mundialmente de fake News) proliferam-se na velocidade da luz, ao mesmo tempo em que se expande a ignorância: é nesse terreno fértil de estupidez que a mentira faz raiz; soma-se a isso a necessidade de pertencimento – no caso da política, pessoas sem conhecimento prévio nenhum de ideologias passaram a seguir o bonde e se declarar de direita ou de esquerda, pensando que é tão simples se posicionar quanto acionar as setas do carro.
A década de 2020 trouxe à cena popular os motes inteligência artificial (IA) e mudança climática. Ambas estão incorretas, mas as narrativas que estão por trás nos continuam a bombardear e acreditamos serem verdades incontestáveis.
O autodenominado homo sapiens, agora no “auge” de sua existência, supostamente confia às máquinas o poder da produção econômica-social. Um programa de computador, um aplicativo de celular, seja o que for, agora é chamado simplesmente de IA. Querem fazer crer que não podemos competir com “ela”, que ela avança em passos largos e nós, humanos, ficamos para trás; essa narrativa nos faz querer desistir de evoluir, paramos, entregues e inertes a essa suposta força autônoma. Mas não há nada de “artificial” nessa inteligência; ela é resultado do trabalho de milhares de cérebros humanos (sapiens), uma inteligência coletiva que programa constantemente a tecnologia – é sempre a máquina social que controla a máquina técnica, já ensinaram os filósofos franceses Gilles Deleuze e Félix Guattari.
A “mudança climática”, outra narrativa popularizada nesta década, atua de um modo diverso: ela desculpabiliza o homem branco e os países que mais poluíram e destruíram a Terra (historicamente Europa e Estados Unidos e mais recentemente, também a China) alegando pela expressão que o “clima” muda por si só. Ao mesmo tempo, joga a culpa e a responsabilidade em todos nós.
Além de mascarar todos os pressupostos históricos que nos fizeram chegar a este ponto, ao focar apenas na questão da “temperatura” que sobe, ignora deliberadamente a poluição e a perda de diversidade, que juntas formam o tripé da destruição do planeta. É necessário esclarecer: o capitalismo, utilizando as mais horríveis ferramentas – machismo e racismo – nos trouxe até aqui.
Neste modo de produção – sempre uma produção destrutiva –, o ser humano nunca irá “salvar” a Terra. Ele pode destruí-la menos, com menos velocidade e intensidade, mas nós já nos tornamos todos destruidores. É necessário uma nova cosmovisão, e a população originária do Brasil tem muito a nos ensinar a esse respeito.
Enquanto isso, preparo-me para o futuro e me pergunto: quais serão as novas expressões que estarão no vocabulário das massas?
Gustavo Gumiero é Doutor em Sociologia (Unicamp) e Especialista em Antigo Testamento – gustavogumiero.com.br – @gustavogumiero







