Campinas pode sair na frente em um tema que ainda é pouco discutido no país: a preparação da população para agir em emergências cardíacas. Um novo projeto que começa a ser implantado na cidade quer transformar o município na primeira cidade cardioprotegida do Brasil, com dados concretos sobre preparo da população e acesso a equipamentos que salvam vidas.
A iniciativa é baseada no Dona Socorro, um sistema que reúne, em um único lugar, um aplicativo para ensino de primeiros socorros, um mapa colaborativo de desfibriladores (DEAs) e uma ferramenta que organiza dados sobre o preparo da cidade para responder a emergências cardíacas.
Hoje, o Brasil registra mais de 300 mil mortes súbitas por causas cardiovasculares por ano, muitas delas fora do ambiente hospitalar. Em situações como a parada cardíaca, os primeiros minutos são decisivos. A cada minuto sem RCP (Ressuscitação Cardiopulmonar), as chances de sobreviver caem 10%.
“A maioria das pessoas nunca aprendeu o que fazer nos primeiros minutos de uma parada cardíaca. Não por falta de vontade, mas porque o acesso a esse conhecimento sempre foi fragmentado, difícil e pouco atraente. O Dona Socorro existe para mudar isso — de forma acessível, gamificada e com dados que realmente orientem decisões de saúde pública”, afirma Luiz Guilherme Calderon, fundador do Dona Socorro.
Além de ensinar, o sistema também ajuda a responder uma pergunta que hoje poucas cidades conseguem responder com precisão: o território está preparado para salvar vidas? “Toda cidade tem uma pergunta sem resposta: se uma parada cardíaca acontecer aqui, agora, o meu território está preparado para responder? O Dona Socorro transforma essa pergunta em dados concretos — onde estão os DEAs, quantas pessoas treinadas existem por bairro, qual é o Índice de Proteção Cardíaca do município. Isso é ferramenta de gestão pública, não só aplicativo de saúde”, destaca Calderon.
Um dos diferenciais da iniciativa é o rigor técnico do conteúdo. Todo o material de primeiros socorros — incluindo ressuscitação cardiopulmonar, uso do desfibrilador e reconhecimento de emergências — é validado pelo Grupo Surgical, referência nacional em cirurgia de emergência e trauma.
Para o presidente do grupo, o médico Bruno M. Pereira, a preparação da população pode fazer toda a diferença entre a vida e a morte. “A cadeia de sobrevivência começa antes do atendimento médico especializado. Quando um leigo sabe reconhecer uma parada cardíaca, acionar o serviço de emergência e iniciar a RCP imediatamente, as chances de sobrevivência podem dobrar ou triplicar. O Dona Socorro preenche uma lacuna real na preparação da população brasileira, e fazê-lo com rigor técnico é o que dá sustentação e credibilidade ao projeto”, destaca.
Como a população pode ajudar
O primeiro passo é baixar o aplicativo gratuito disponível no www.donasocorro.com.br. O aplicativo Dona Socorro classifica os usuários em dois perfis: Leigo, para quem está iniciando o aprendizado em primeiros socorros; e Socorrista, para quem já possui certificação reconhecida. A evolução entre perfis é conquistada por meio de trilhas de aprendizado gamificadas, quizzes e atividades práticas.
O mapa de DEAs disponível na plataforma é alimentado colaborativamente pelos próprios usuários, gerando um cadastro atualizado e georeferenciado de equipamentos salvadores de vidas — dado que hoje inexiste de forma pública e acessível na maioria dos municípios brasileiros.
O usuário também terá acesso a uma IA assistente de primeiros socorros 24h e guias de RCP, que o auxiliarão a salvar vidas.
A estratégia de implantação começa por locais com grande circulação de pessoas, como academias e escolas. Em Campinas, a Academia Six já inicia suas atividades integrada ao sistema, com equipe treinada e desfibrilador mapeado na plataforma.
“Academias e escolas são dois dos ambientes com maior concentração de pessoas fisicamente ativas e jovens — e, ao mesmo tempo, dois dos locais onde paradas cardíacas e acidentes mais surpreendem. Treinar os profissionais professores e alunos que já estão nesses espaços é a forma mais inteligente de criar cobertura real de resposta a emergências na cidade”, explica o fundador.
Conforme Calderon, a iniciativa também está em fase de tratativas com a Secretaria de Educação de Campinas para levar o programa às escolas públicas municipais, com trilhas de aprendizado adaptadas para alunos e professores. Para gestores públicos, o sistema reúne esses dados em indicadores que ajudam a planejar ações, identificar áreas mais vulneráveis e acompanhar o nível de preparo da população ao longo do tempo.











