A desconfiança que permeia o dia a dia brasileiro — do troco no balcão (analógico ou eletrônico) à autenticidade da notícia no celular — não deve ser vista como um treinamento virtuoso. Pelo contrário, é um treino estúpido, desumano.
A extensão dos temas fraudulentos em nosso País, infelizmente, tem força endêmica, contaminando os comuns e as autoridades. Por isso mesmo, esse treinamento é maldito, indecoroso, mas é necessário, vital. Somos forçados a gastar nossa energia cognitiva para não sermos devorados pelo próximo – e para não mais alimentarmos a ganância e a ambição dos superiores dos nossos Três Poderes: judiciário, legislativo e executivo.
Nesse cenário, o ser humano não é um agente de paz, como deveria ser em sua proposta de convivência essencial, mas um atenuador de conflitos. Experimentamos a vida desse modo ruim, desrespeitoso, como golpeados diante de golpistas, ou vice-versa, em microguerras diuturnas.
Se eclodisse a macroguerra, estaríamos treinados, mas nunca devidamente prontos. Ficamos nessa ambivalência existencial, não porque somos pessoas evoluídas, mas porque nossa ética já foi moída pela necessidade de sobrevivência.
O treino para a paz seria natural e ideal, mas foi substituído pela prontidão para a emboscada. O vizinho e o motorista não são parceiros sociais, são variáveis de risco. E os congressistas, ministros e governantes são lideranças profundamente desacreditadas (e potencialmente perversas)…
O entorpecente da imunização cognitiva
Para suportar essa guerrinha sem enlouquecer, muitos recorrem à religião, que atua como uma vacina contra a realidade. É a imunização cognitiva: se a paz verdadeira só existe no “Reino dos Céus”, a barbárie do açougue, do vendedor malandro de carros, do trânsito e do governo tornam-se irrelevantes.
A promessa de salvação é o maior dos sofismas, porque dispensa o indivíduo de reformar o presente. Por que lutar por uma ética terrena se a vida eterna já está garantida? A religião, nesse balanço, valida a desonestidade cotidiana como algo próprio do mundo caído, paralisando a crítica necessária para mudar o que teria que ser reformado agora, imediatamente!
A salvação pela lucidez apurada
O ser humano “pós-religioso” (no sentido de ter superado mesmo a religião, não no conceito sociológico da época “pós-religiosa” atual) é aquele que joga fora o escudo do conforto divino.
Ao contrário do que se pensa – que só a religião salva -, ele é o único que está realmente “a salvo”, pois não pode ser enganado pela promessa de uma vida eterna que amortece o impacto da realidade.
O homem pós-religioso encara a guerra de frente. Sem o narcótico da crença, cada golpe sofrido e cada injustiça vista exigem uma resposta imediata e consciente. A salvação aqui não é um prêmio pós-morte, mas a lucidez trágica de quem sabe que, se não houver ética hoje, não sobrará nada para amanhã.
Que ser humano é esse? É aquele que trocou a esperança passiva pela responsabilidade vigilante, sem expectativa de contemplações.
Ainda é muito pouco, pois essa vigilância se ajustaria em termos adaptativos e brandos à medida que o ser humano aprimorasse o amor. Tal aprimoramento demandaria mesmo a liberdade de não mais depender ou imitar os “sentimentos” de Deus.
Superar a religião criaria um novo ensaio espiritual: treinarmos como seres amorosos potenciais, absolutamente divorciados do modelo de amor divino.
Desenvolver essa proposta de um “ensaio espiritual” qualificaria mesmo os homens, pois eles conseguiriam aproveitar o amor que nasce da liberdade humana, e não da imitação ou do medo de uma divindade.
Um exercício de guerra cognitiva
Isso também nos prepararia para “guerrear” melhor em todas as áreas e contextos, cada vez mais refinados na democracia e na diplomacia.
Precisamos aqui, na nossa vida brasileira, de um esforço diplomático e democrático fantástico, que só mesmo um espírito amorosamente ensaiado pode sustentar.
Diante de tantas suspeitas, especulações e elucubrações corruptas, temos que, em primeiro lugar, reconhecer a fraqueza espiritual dessas autoridades.
Quem muito necessita de enganações, truques e falcatruas está espiritualmente muito enfraquecido. Isso despertaria uma compaixão. Essas autoridades são mesmo dignas de que nos compadeçamos delas – é muita degradação ética…
O compadecimento, no entanto, é apenas parte da ginástica amorosa. Há que se combater a impunidade, sempre cumprindo nosso papel de atenuar os conflitos, mas nunca fugindo deles.
Cabe essencialmente à imprensa e à opinião pública um trabalho contínuo e exaustivo de manter os tapetes levantados para que os políticos e juízes não consigam esconder os escândalos!
Joaquim Z. Motta é psiquiatra, sexólogo e escritor











