A frase do título deste artigo vem de uma canção do genial cantor e compositor italiano, infelizmente já falecido, Lucio Dalla. Lucia Dalla fez a mais bonita canção, apesar de muito triste, em homenagem a nosso Ayrton Senna e foi o autor do “hino” Caruso, eternizado por Luciano Pavarotti. O “lobo” a que quero me referir é o “Aedes Aegypti”, mosquito transmissor de praticamente todas as arboviroses, podemos dizer, de todas as arboviroses urbanas.
Temos a febre amarela como exceção já que se transformou em uma doença silvestre e transmitida pelo mosquito “Albopictus”. Fui Secretário de Saúde de Campinas nas duas epidemias mais graves de Dengue. Vi a introdução das doenças causadas pelos vírus “Zica” e “Chikungunya” em nosso país e cidade. Vimos a febre amarela assombrar nosso Estado e a nossa cidade. Nos oito anos em que estive a frente de Secretaria de Saúde de Campinas, em todos os anos tivemos um cenário distinto de transmissão e de gravidade das arboviroses.
Apesar de promissora a possibilidade de termos vacinas para Dengue proximamente, em 2023, certamente, não as teremos. Talvez em 2023, poderemos ter a vacina para Chikungunya, o que seria um enorme avanço tendo em vista a gravidade, inclusive a mortalidade, que esta doença tem apresentado em nosso meio. A verdade é que, apesar da redução do número de casos nos primeiros dois anos de pandemia, em 2022, este número cresceu novamente de maneira preocupante o que acende a luz amarela para 2023.
Chegamos ao verão, que tem sido muito chuvoso. É claro que será um verão quente, como são todos os nossos verões. A dupla “calor e chuva” é o ingrediente fundamental à proliferação descontrolada do mosquito e a possibilidade de nova epidemia.
Sabemos que a melhor forma de enfrentarmos esta situação e evitarmos nova epidemia é o trabalho de todos para que o mosquito não nasça. O combate entomológico é o mais barato e muito mais eficiente. Sem contar, as enormes vantagens que este método traz ao meio ambiente pois não leva a utilização de produtos químicos (inseticidas). Todos, sem exceção, devem cuidar de seu micro ambiente. Todos devem fazer controles periódicos de suas caixas de água, de reservatórios de água parada, de calhas, de vasos, de resíduos sólidos e orgânicos e de qualquer superfície que possa acumular água por um período prolongado. Não se pode baixar a guarda.
Por mais intenso e presente que possa ser o poder público e suas ações de vigilância, se cada um de nós não cuidar, a epidemia voltará e, sempre, com proporções imprevisíveis. A participação dos meios de comunicação, redes sociais, sociedade organizada e toda a comunidade será fundamental para alcançarmos os objetivos de controlar, já que não é possível erradicar o mosquito. Vamos nos recordar do que aconteceu em 2020 quando chegou a pandemia do SarsCov2 e a Covid-19.
Nós esperávamos um ano muito difícil com projeções de milhares de casos de dengue tipo II. Havia um plano de contingência em Campinas para este cenário. As previsões eram alarmantes. Com a necessidade do isolamento compulsório e o distanciamento social devido a pandemia e com boa parte de nossa população em casa, o controle entomológico foi feito sem que as pessoas se dessem conta.
Ficando em casa, as pessoas cuidaram dos potenciais criadouros e a epidemia prevista simplesmente, não houve. Neste ano, o número de casos foi pequeno com, infelizmente, uma morte. Em 2021, com a pandemia ainda mais grave que em 2020, também o número foi pequeno e, agora, sem qualquer morte em Campinas. Em 2022, o número de casos cresceu, pois, as medidas de distanciamento foram relaxadas e as pessoas, novamente, se descuidaram dos cuidados domésticos.
Sempre é bom lembrar que as estimativas de transmissão de caos são de 80% nos próprios domicílios. Não devemos nos esquecer dos dois desafios constantes no enfrentamento das arboviroses tanto para o poder público como para a comunidade: 1- absoluta continuidade das ações de remoção de potenciais criadouros durante todo o ano, inclusive no inverno e; 2- comunicação constante e eficiente.
Enfim, é de nossa absoluta responsabilidade contribuir para evitarmos novas epidemias de arboviroses. A prevenção sempre foi e será a melhor forma de enfrentar um problema. Eu digo sempre, que a melhor forma de evitar um problema é não o criar. Depois que a epidemia se instala, só nos resta cuidar das pessoas e não deixar que tenham agravos, inclusive com risco de morte. Assim, mãos à obra, vamos cuidar de nossos espaços e não dar espaço ao mosquito.
Carmino Antônio De Souza é professor titular da Unicamp. Foi secretário de saúde do estado de São Paulo na década de 1990 (1993-1994), da cidade de Campinas entre 2013 e 2020 e Secretário-executivo da secretaria extraordinária de ciência, pesquisa e desenvolvimento em saúde do governo do estado de São Paulo em 2022.







