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Campanha da Fraternidade de 2025 tem como tema a Ecologia Integral – por José Pedro Martins

José Pedro Martins Por José Pedro Martins
5 de fevereiro de 2025
em Colunistas
Tempo de leitura: 4 mins
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Campanha da Fraternidade de 2025 tem como tema a Ecologia Integral – por José Pedro Martins

Foto: Reprodução /Cartaz Campanha da Fraternidade 2025

“Promover, em espírito quaresmal e em tempos de urgente crise socioambiental, um processo de conversão integral, ouvindo o grito dos pobres e da Terra”, salienta o objetivo oficial da Campanha da Fraternidade de 2025 (CF-2025), que tem São Francisco como inspiração e a Ecologia Integral como tema. A Campanha da Fraternidade é desenvolvida durante a Quaresma, embora o seu tema permaneça como motivador de discussões durante o ano todo.

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) justifica a escolha do tema por uma série de coincidências no ano, como os oito séculos do Cântico das Criaturas de São Francisco de Assis, os dez anos da publicação da Encíclica Laudato Si’ e a realização em novembro em Belém da COP-30, a COP da Amazônia.

O texto-base da Campanha faz um contundente diagnóstico da situação planetária, para justificar que mais uma vez a CNBB tenha escolhido esse tema: “Estamos no decênio decisivo para o planeta! Ou mudamos, convertemo-nos, ou provocaremos com nossas atitudes individuais e coletivas um colapso planetário. Já estamos experimentando seu prenúncio nas grandes catástrofes que assolam o nosso país. E não existe planeta reserva! Só temos este! E, embora ele viva sem nós, nós não vivemos sem ele. Ainda há tempo, mas o tempo é agora! É preciso urgente conversão ecológica: passar da lógica extrativista, que contempla a Terra como um reservatório sem fim de recursos, donde podemos retirar tudo aquilo que quisermos, como quisermos e quanto quisermos, para uma lógica do cuidado”.

O propósito da CF-2025 é portanto estimular uma grande reflexão sobre as múltiplas formas pelas quais a integridade da criação divina vem sendo devastada na casa comum de todos que é a Terra.

Mas também é um convite para a intensificação de ações coletivas, envolvendo todos os setores sociais, pela reversão dos diferentes processos de degradação que estão ocorrendo no planeta, como as mudanças climáticas e a rápida extinção da biodiversidade, mas também as várias modalidades de injustiça e violência social, como a pobreza atingindo milhões de pessoas pois, pois afinal a humanidade também faz parte da beleza da criação e deveria ser a principal guardiã dela.

A CNBB lembra que esta é a nona Campanha da Fraternidade tendo a Ecologia como tema central. Trata-se da temática mais abordada pela iniciativa lançada em 1964. De alguma forma, portanto, a Campanha da Fraternidade reflete uma preocupação permanente da Igreja Católica brasileira com a situação socioambiental planetária cada vez mais grave, questão que já vem mobilizando há anos outras comunidades cristãs, mas que durante muito tempo parecia não sensibilizar a cúpula do Vaticano.

Em março de 1990, por exemplo, foi realizado em Seul, na Coreia do Sul, o maior evento de Igrejas cristãs na história sobre a temática socioambiental. Foi a Consulta Justiça, Paz e Integridade da Criação (JPIC), clímax de um processo liderado pelo Conselho Mundial de Igrejas (CMI), organização representativa da maioria das Igrejas cristãs luteranas, anglicanas, metodistas e ortodoxas, entre outras. A Igreja Católica não integra o CMI, mas as relações são cada vez mais próximas, desde o início do pontificado do Papa Francisco.

Eu tive a oportunidade de estar presente, como jornalista, no encontro histórico em Seul e pude constatar como o conjunto de Igrejas reunidas no CMI estava muito sensibilizado com quatro temáticas principais naquele momento: as mudanças climáticas cada vez mais intensas, a corrida armamentista que leva a gastos absurdos com guerras, o endividamento dos países mais pobres e, naquela altura, o apartheid na África do Sul como um dos exemplos máximos do preconceito, do racismo e das injustiças sociais.

Estava claro, portanto, que as Igrejas ligadas ao CMI tratavam essas questões como interligadas, todas muito preocupantes para a Integridade da Criação.

O Vaticano não estava oficialmente na Consulta JPIC, que teve um documento-base com nome poético e ao mesmo tempo sensibilizador: “Entre o Dilúvio e o Arco-Íris”. Entretanto, o olhar oficial da cúpula católica começou a mudar sob o pontificado do Papa Francisco e principalmente após a edição da Encíclica Laudato Si, em 2015. Uma Encíclica revolucionária, ao tratar claramente da temática socioambiental planetária.

A Encíclica reúne interrogações e reflexões como essas, que certamente serão resgatadas no contexto da CF-2025: “Com que finalidade passamos por este mundo? Para que viemos a esta vida? Para que trabalhamos e lutamos? Que necessidade tem de nós esta terra? Por isso, já não basta dizer que devemos preocupar-nos com as gerações futuras; exige-se ter consciência de que é a nossa própria dignidade que está em jogo. Somos nós os primeiros interessados em deixar um planeta habitável para a humanidade que nos vai suceder. Trata-se de um drama para nós mesmos, porque isto chama em causa o significado da nossa passagem por esta terra”.

É nesse sentido que, com as Campanhas da Fraternidade tratando sobre a questão ecológica, inclusive a de 2025, a Igreja Católica brasileira se torna uma referência e uma inspiração global para outros países. E a situação socioambiental planetária é tão dramática, tão assustadora, que somente uma sensibilização global, envolvendo todas as crenças e religiões, e não somente as cristãs, para reverter o que parece irreversível.

O texto-base da Campanha evidencia que é necessária uma verdadeira revolução cultural, uma radical mudança no estilo de vida contemporâneo, uma transformação espiritual, para que sejam enfrentadas as graves crises simultâneas em curso: “Para nós, a Ecologia Integral é também espiritual. Professamos com alegria e gratidão que Deus criou tudo com seu olhar amoroso. Todos os elementos materiais são bons, se orientados para a salvação dos seres humanos e de todas as criaturas. Assim, “Deus viu que tudo era muito bom!” (Gn 1,31)”.

Que a CF-2025, então, traga luz e mostre caminhos para ações concretas, efetivas, pela preservação e proteção das tantas belezas da criação. Que se olhe e se procure soluções para emergência climática global, mas também atuem na defesa de seus rios, suas matas, encontrem caminhos adequados para a destinação de seu lixo, reduzam o consumismo desenfreado e lutem sempre contra as diferentes formas de pobreza, preconceitos e injustiça social.

 

 

José Pedro Martins é jornalista, escritor e consultor de  comunicação. Com premiações nacionais e internacionais, é um dos profissionais especializados em meio ambiente mais prestigiados do País. E-mail: josepmartins21@gmail.com

Tags: campanha da fraternidadecolunistasecologia integralHora Campinasjosé pedro martinsmeio ambienteplanetarecursos naturaissustentabilidade
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