Campinas está prestes a viver um dos momentos mais simbólicos de sua história cultural recente: a reabertura do Centro de Convivência Cultural “Carlos Gomes”, marco da arquitetura e da vida artística da cidade, que no próximo ano completa 50 anos de sua inauguração.
A celebração desse meio século de existência promete devolver à população um espaço que, por décadas, foi sinônimo de arte, encontros e memória coletiva.
São 14 anos de portas fechadas, e a ação do tempo escureceu parte da história do Convivência.
Protestos, intervenções, alto investimento e duas fases de reformas encerram esse longo processo de renascimento.
Com previsão de entrega para julho deste ano, o CCC passa por uma modernização histórica, orçada em R$ 62,4 milhões — um dos maiores aportes em investimentos culturais já realizados no município. O projeto não apenas restaura um símbolo, mas quer reposicionar a cidade como referência tanto na cena cultural como na infraestrutura moderna, entre os grandes teatros no Brasil.
O Hora Campinas visitou as obras do complexo, sob a condução da secretária municipal de Cultura e Turismo, Alexandra Caprioli, e do engenheiro responsável pelos projetos da obra, Claudio Natal Orlandi. As explicações detalharam as benfeitorias, as dificuldades e o entusiasmo com a volta da cena cultural ao seu templo original.
A primeira fase da obra, entre 2020 e 2023, envolveu a reforma do palco, camarins, foyer, áreas expositivas, sala de ensaio da orquestra e espaços para café e restaurante.
O tempo fechado deteriorou o complexo, mas segundo engenheiro, laudos garantiram a integridade da grande estrutura.
As instalações elétricas e hidráulicas foram substituídas, e o revestimento acústico foi instalado. Na área externa, o Teatro de Arena também foi impermeabilizado com tecnologia avançada para evitar infiltrações — principal problema que levou à deterioração da estrutura original.
Para a primeira fase foram investidos R$ 23,5 milhões, e houve atraso na entrega.
Orlandi explica que uma das grandes dificuldades logo verificada pela equipe foi a transferência da água existente em um fosso, abaixo do começo do palco principal, para um poço com mais de 10 metros de profundidade, perfurado para abrigar milhares de litros. Destacou que essa água poderá ajudar no regamento dos jardins da praça.
“Temos aqui uma obra subterrânea e sempre propensa a ataques de água. Vencido isso, precisamos dar conta de tudo o que havia acontecido aqui embaixo”, expõe.
Houve a substituição de todas as instalações hidráulicas e elétricas, cabine transformadora primária, adequações de acessibilidade e drenagem. A impermeabilização do Teatro de Arena, área externa, foi um trabalho à parte. Foi preciso fazer a regularização das superfícies das arquibancadas e escadarias para depois aplicar o produto para impermeabilizar toda a área com a película de polimetilmetacrilato (PMMA), essencial para proteção do espaço contra infiltrações, principal problema que levou à deterioração da área interna do complexo.
📷🎥 Leandro Ferreira/Hora Campinas

SEGUNDA FASE
A segunda fase da reforma teve início em maio de 2024, com investimento de R$ 38,9 milhões. Esta etapa incluiu as novas instalações e automação da luminotécnica de toda a área do complexo, a iluminação cênica, áudio e vídeo e a cenotecnia.
Toda a maquinária cênica será motorizada, com passarelas técnicas, urdimento e comunicação entre palco, camarins e mesa técnica.
No teatro, com capacidade para 521 pessoas, todas as poltronas já foram instaladas, o palco está praticamente pronto, e a estrutura superior — o varal cênico — já está funcionando, com movimentação de subida e descida. Também estão prontas as salas destinadas a exposições, o espaço planejado para café e restaurante, e também a sala de ensaio da Orquestra Sinfônica.
📷🎥 Leandro Ferreira/Hora Campinas

A comunicação integrada é feita pelos monitores instalados em camarins, mesa técnica, palco e fosso. A automação está em todo o teatro, e a acessibilidade é de 100%, com elevadores, rampas e assentos apropriados.
Outro diferencial importante é a instalação da concha acústica, rebatedores de som, que proporcionará uma experiência totalmente diferenciada nas apresentações da orquestra e coros e que, no estado de São Paulo, somente o Teatro Municipal de São Paulo possui.
“O Centro de Convivência sempre foi um ícone na cidade e agora vai ser um retorno esperado pela cidade toda. Uma obra que para mim, que participei desde 2015 com os projetos, é algo muito gratificante. Uma honra, como campineiro, entregar isso para a cidade”, diz Orlandi, ao final da nossa visita.
📷🎥 Leandro Ferreira/Hora Campinas

OPERAÇÕES
A secretária de Cultura Alexandre Caprioli explicou que após a entrega da obra em julho, serão realizados eventos testes com companhias locais e a própria Orquestra Sinfônica – que terá sua estrutura própria no teatro. “Estando a operacionalidade em ritmo, então viramos a chave para outra etapa”, frisou.
O ritmo de trabalho também se concentra na elaboração e publicação de 10 a 12 editais, como objetos de contratações específicas para a operação do CCC. Caprioli destaca as terceirizações para as manutenções de equipamentos, segurança, limpeza e portaria, e para operações específicas em equipamentos de ponta.
Uma das novidades antecipadas pela secretária será a volta dos famosos lustres que ficavam na entrada do teatro. Mas não serão os originais, com mais de 8 mil bolinhas de vidro e que eram o chame do Convivência.
📷🎥 Leandro Ferreira/Hora Campinas

Os originais já não podem ser reutilizados. Sua estrutura metálica ficou comprometida com a ação do tempo, e mais de 3 mil gotas de vidro se quebraram. Mas sua memória afetiva será lembrada.
“Será desenvolvido um lustre com nova tecnologia, com a mesma inspiração, volumetria semelhante, para trazer a memória afetiva dos frequentadores”, adiantou Caprioli.
“Estamos muito felizes em poder devolver esse coração cultural para a cidade. A estrutura foi totalmente repensada para oferecer a melhor experiência possível ao público e aos artistas. Tenho certeza de que o teatro será uma referência no Brasil”, disse Caprioli.
📷🎥 Leandro Ferreira/Hora Campinas

O CENTRO E O AQUITETO
O Centro de Convivência Cultural foi projetado pelo arquiteto Fábio Moura Penteado, e inaugurado em 1976, na gestão do prefeito Lauro Péricles, que faleceu em janeiro desse ano, aos 89 anos.
Uma característica específica que configura a singularidade desse projeto: sua dimensão cívica.
“Um espaço aberto para o encontro e o convívio, onde se pode ficar à vontade, vadiar, ler, descansar, namorar, assistir a espetáculos artísticos ou esportivos, participar de manifestações públicas…”, declarou o arquiteto em certa ocasião.
Penteado desenvolveu uma produção formalmente variada, mas extremamente coerente no discurso, que trata a arquitetura como agente ativo de transformação social: detalha o artigo do professor de arquitetura da USP, Ivo Renato Giroto para o Comitê Internacional para a Documentação e Preservação de Edifícios, Sítios e Bairros do Movimento Moderno.

Muitos projetos construídos por Penteado estão entre seus trabalhos mais emblemáticos, como o Hotel Praia do Peró, em Cabo Frio (1958); o Teatro de Piracicaba (1960); o Monumento em Playa de Girón, Cuba (1962), classificado em 2º lugar em concurso internacional; o conjunto habitacional da Cidade dos Doqueiros, em Santos (1962); a Catedral Presbiteriana de Brasília (1965); o Mercado do Portão em Curitiba (1965), entrou outros, como o Teatro de Ópera (1966).
📷🎥 Leandro Ferreira/Hora Campinas













