O Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Campinas (Condepacc) aprovou, na última quinta-feira (23), a abertura do processo de estudo do tombamento de 54 ruas localizadas nos bairros Vila Industrial e Cambuí. A medida marca o início de um estudo técnico detalhado sobre o valor histórico, ambiental e urbanístico desses trechos, que preservam parte da memória urbana da cidade.
Ao todo, 26 ruas da Vila Industrial e 28 do Cambuí passam agora a ser avaliadas pelo conselho. Entre elas, estão vias emblemáticas como a Mestre Tito, Alferes Raimundo e Barão de Monte Mor, na Vila Industrial, e as conhecidas Maria Monteiro, Santos Dumont e Sampainho, no Cambuí.
Os pedidos de tombamento tramitam desde 2019, mas tiveram sua análise interrompida durante o período da pandemia. Com a retomada, o conselho dará início a uma nova etapa de estudos técnicos que irá avaliar a materialidade das vias, considerando não apenas seu valor histórico e urbanístico, mas também os aspectos ambientais. O processo deverá ter o apoio de secretarias municipais e entidades públicas.
A decisão representa um avanço no reconhecimento da importância dessas áreas para o patrimônio cultural de Campinas. Desde 2018, com a aprovação do Plano Diretor, a Vila Industrial já integra as chamadas Zonas Especiais de Preservação Cultural (Zepecs), que permitem a adoção de instrumentos de proteção e incentivo à preservação de conjuntos arquitetônicos e urbanísticos. No entanto, apenas parte do bairro está incluída nessa zona de preservação, especialmente o entorno do Complexo Ferroviário.
Da Vila ao Cambuí
“A mobilização começou quando vimos que ruas históricas da Vila Industrial, em área de preservação, estavam sendo asfaltadas”, lembra Ana Vilanueva, arquiteta e moradora do bairro desde 1994. “Conseguimos reunir mais de 1.500 assinaturas em um abaixo-assinado e protocolamos o pedido de tombamento em setembro de 2020. Também entramos com uma Ação Popular no Ministério Público para impedir o avanço das obras — e a liminar foi concedida.”
Segundo Ana, a abertura do processo já representa uma forma de proteção. “Enquanto o estudo de tombamento está em andamento, qualquer intervenção é proibida. Na prática, o bem passa a ter a mesma proteção legal de um patrimônio já tombado.”
Já a proposta de tombamento das ruas do Cambuí vem sendo discutida há alguns anos, impulsionada pela ONG Movimento Resgate o Cambuí, que em 2022 encaminhou ao Condepacc um pedido formal para o reconhecimento de 27 ruas de paralelepípedos.
De acordo com a presidente do movimento, Teresa Penteado, a aprovação do processo de tombamento representa um importante reconhecimento da relevância cultural e ambiental dessas vias. Ela explica que o pedido de preservação dos paralelepípedos foi protocolado há alguns anos, inspirado por uma iniciativa semelhante feita por moradores da Vila Industrial
Teresa também reforça que, além do valor histórico, a pavimentação tradicional cumpre uma função ambiental importante, especialmente em uma região que enfrenta problemas estruturais de drenagem. No Cambuí, exemplifica, há trechos com poucos sistemas de microdrenagem — em algumas ruas, apenas um bueiro atende a quadras inteiras.
“Os paralelepípedos permitem que a água da chuva infiltre no solo, o que ajuda a reduzir o acúmulo e o tempo de alagamento. Trabalhei por mais de 40 anos na Coronel Quirino e sempre observei isso: mesmo quando a rua enchia, a água escoava rapidamente”, afirma Teresa.
Apesar de haver divergência entre moradores e comerciantes, sobre a manutenção de vias com pedras, a proposta busca resguardar o conjunto urbano como um todo — incluindo as vias, a pavimentação em paralelepípedos, a arborização, as edificações antigas e o próprio traçado dos bairros.
A iniciativa adota uma visão ampliada de patrimônio, que abrange não apenas os aspectos físicos e arquitetônicos, mas também os elementos intangíveis ligados à memória social e ao significado cultural desses espaços para a cidade.












