A recente decisão dos Estados Unidos de congelar o financiamento da Organização Mundial da Saúde (OMS), da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) e de outros programas globais de saúde foi recebida, e com razão, com preocupação generalizada. Muitos a veem como uma crise que ameaça inviabilizar iniciativas vitais de saúde em todo o mundo, particularmente, em nosso Sul Global. No entanto, como acadêmico, vejo isso como uma oportunidade transformadora — uma oportunidade que poderia finalmente libertar a saúde global e do SUS de suas dependências históricas e inaugurar uma nova era de autossuficiência fiscal e autonomia estratégica.
Antes de prosseguir, permitam-me esclarecer que esta não é uma declaração política. Para mim, importante é a política de saúde e não a geral. Esta está fora de meus objetivos de vida e profissionais. Trata-se aqui de uma avaliação pragmática de uma realidade. Embora esses fundos tenham inegavelmente ajudado a construir infraestrutura e capacidade através do mundo e talvez menos no Brasil, eles também reforçaram desequilíbrios sistêmicos que perpetuam um ciclo de dependência.
Com o congelamento do financiamento, agora há uma janela para reavaliar e recalibrar criticamente nossas prioridades. A pandemia de Covid-19 também abriu esta janela que devemos aproveitar como ensinamento e não lamentação. Uma das críticas mais urgentes aos programas de saúde tem sido a ineficiência — frequentemente manifestada como redundância burocrática, custos administrativos inflacionados e, em alguns casos, má alocação de recursos.
Outro benefício crucial dessa mudança de financiamento é o fortalecimento de pesquisadores e instituições inovadoras de pesquisa e assistência locais. Historicamente, grande parte da pesquisa conduzida tem sido moldada por financiamento de instituições de países ricos, particularmente, pela indústria farmacêutica, levando a situações em que as prioridades e métodos de pesquisa são ditadas externamente, em vez de se basearem nas necessidades locais. Isso frequentemente resulta em estudos e intervenções que, embora academicamente significativos, não estão necessariamente alinhados com as preocupações ou realidades de saúde mais urgentes da região.
Ao avançar para modelos de financiamento autossuficientes, governos e instituições podem priorizar pesquisas que abordem seus desafios epidemiológicos e de sistemas de saúde específicos. Isso também abre caminho para inovações nacionais — soluções de baixo custo e alto impacto, adaptadas aos contextos locais.
O recente aumento na fabricação local de vacinas pelo Instituto Butantan e Fiocruz, por exemplo; ferramentas locais de diagnóstico baseadas em IA e soluções de telemedicina específicas para cada região são pequenos exemplos do potencial para inovação e autossuficiência em saúde.
Isso não quer dizer que a colaboração global em saúde deva cessar. Longe disso, o que precisa sempre estar avançando é a natureza dessas parcerias. Em vez de uma dinâmica doador-receptor, deve-se dar ênfase à colaboração equitativa, na qual sejamos uma parte interessada igualitária, e não apenas um braço implementador de projetos concebidos externamente. Novos modelos de cooperação Sul-Sul podem desempenhar um papel fundamental nessa transição. Alianças regionais de saúde, redes de pesquisa compartilhadas e estratégias de aquisição conjunta podem permitir que os países aproveitem seus pontos fortes.
Ao mesmo tempo, agências internacionais de financiamento e organizações filantrópicas que permanecem comprometidas com a saúde precisam repensar suas estratégias. Em vez de impor programas verticais com estruturas rígidas, uma abordagem mais flexível e desenvolvida em conjunto – que respeite a liderança local e priorize a sustentabilidade – deve ser o caminho a seguir.
Os modelos de financiamento devem evoluir para apoiar iniciativas lideradas localmente, esforços de capacitação e mecanismos de compartilhamento de conhecimento. O congelamento do financiamento dos EUA é um sinal de alerta. Em vez de lamentá-lo como uma crise, devemos encará-lo como um catalisador para a mudança.
Para que isso aconteça, os governos devem intensificar seus esforços. A mobilização de recursos nacionais deve se tornar uma prioridade máxima, garantindo que o financiamento da saúde não dependa das mudanças geopolíticas. O setor privado também deve ser engajado estrategicamente, não como um substituto para os compromissos da saúde pública, mas como uma força complementar na inovação e na prestação de serviços.
Mais importante ainda, profissionais de saúde, pesquisadores e formuladores de políticas devem aproveitar este momento para definir suas próprias narrativas, estabelecer suas próprias agendas de pesquisa e elaborar políticas que realmente reflitam as necessidades da população.
Este não é o fim da saúde como a conhecemos — é o começo de algo possivelmente, melhor. Um sistema mais enxuto, mais responsável e autossuficiente. Devemos estar à altura da situação e abraçar essa mudança, não como uma imposição, mas como uma transformação contínua, necessária e devida.
Carmino Antônio De Souza é professor titular da Unicamp. Foi secretário de saúde do estado de São Paulo na década de 1990 (1993-1994) e da cidade de Campinas entre 2013 e 2020. Secretário-executivo da secretaria extraordinária de ciência, pesquisa e desenvolvimento em saúde do governo do Estado de São Paulo em 2022, Presidente do Conselho de Curadores da Fundação Butantan, membro do Conselho Superior e vice-presidente da Fapesp, pesquisador responsável pelo CEPID CancerThera da Fapesp.







