A reta final para a COP-30 já está no horizonte e permanecem muitas incertezas sobre a Conferência do Clima que será realizada em novembro em Belém. A COP da Amazônia continua despertando esperança e, ao mesmo tempo, muita dúvida sobre os reais impactos que terá no objetivo maior, que é acelerar as medidas concretas de enfrentamento das mudanças climáticas.
Em termos da organização do evento, ainda não está definitivamente equacionada a questão da hospedagem das delegações estrangeiras que poderiam ou deveriam estar presentes, sobretudo em termos de chefes de Estado ou governo. A Convenção das Mudanças do Clima foi assinada por 198 países, mas o último balanço, divulgado no final de agosto, dava conta de 61 delegações já confirmadas.
A presidência da COP-30 e o governo brasileiro estão acelerando os esforços para garantir a hospedagem para todos, e em especial para os países menos desenvolvidos, com menores condições para arcar com os preços absurdos praticados pela rede hoteleira na capital paraense. De qualquer modo, ficará a lição sobre o quanto um evento desta magnitude desperta de interesses imediatos, de pessoas e retornos buscando maximizar seus retornos financeiros.
Chama a atenção a mobilização de setores da sociedade civil, que também estão empenhados em contribuir com a maior presença possível de países na COP da Amazônia. Uma das iniciativas de destaque nesse sentido é a da Rede de Hospitalidade de Propósito, como tem sido denominado o movimento de igrejas católicas e evangélicas que estão procurando oferecer acomodações no âmbito de suas estruturas.
No dia 12 de outubro, acontecerá o evento religioso mais tradicional da Amazônia, o Círio de Nazaré em Belém. Na prática, neste ano o Círio, que costuma levar até 2 milhões de pessoas para a capital paraense, será uma espécie de teste para o que acontecerá na COP-30 em termos de hospedagem, embora o perfil dos participantes dos dois eventos, e portanto do que se espera em acomodação, não seja o mesmo.
A mobilização da sociedade civil também tem sido intensificada, no sentido de garantir a realização de uma verdadeira COP Paralela, um conjunto de eventos paralelos à Conferência oficial. Serão eventos sobre várias demandas específicas da sociedade brasileira e mundial, que não farão parte da agenda oficial da Conferência das Partes, o significado literal da COP. (E esta é a COP-30 porque será a trigésima vez que os países signatários da Convenção das Mudanças do Clima se reunirão para tentar consensos de enfrentamento do superaquecimento global das temperaturas).
Uma das ações em curso, por exemplo, é a da COP das Baixadas, que vai contemplar oficinas e rodas de conversa sobre vários aspectos das mudanças climáticas, a serem realizadas em diferentes espaços em Belém e Região Metropolitana. Mas também outras cidades sediarão eventos paralelos, como Belo Horizonte, que promoverá a COP das Quebradas.
Uma das indagações recorrentes é sobre qual o legado da COP-30 para a população de Belém e região metropolitana. Obras de impacto foram anunciadas e algumas estão sendo realizadas, em termos de mobilidade e saneamento, que é o grande drama do Pará e, aliás, de toda a Amazônia. Algumas dessas obras, porém, já foram motivo de polêmica, pelo transtorno que têm significado em termos de remoção de famílias, sem a efetiva garantia de que terão onde morar e viver de forma apropriada.
A COP-30, ou COP da Amazônia, desperta muita atenção e sentimentos em vários segmentos da sociedade brasileira e também mundial. Pelo seu caráter inédito, de realização em uma das áreas-chave para o futuro ambiental do planeta, com muitos dilemas próprios, com certeza ela move muitos interesses e também afetos.
Tomara que toda a mobilização em torno do grande evento resulte em passos importantes no sentido da preparação do Brasil para o enfrentamento das mudanças do clima, mesmo que as conclusões da COP oficial mais uma vez frustrem expectativas, como aconteceu com a maioria das Conferências do Clima até aqui. Que seja este um momento pedagógico, de fortalecimento da necessária educação socioambiental, nas escolas e em todos os setores de atividade. Porque as mudanças concretas só virão mesmo da cidadania ativa e mobilizada e para isso apenas a plataforma da educação é eficiente a médio e longo prazos.
José Pedro Martins é jornalista, escritor e consultor de comunicação. Com premiações nacionais e internacionais, é um dos profissionais especializados em meio ambiente mais prestigiados do País. E-mail: josepmartins21@gmail.com







